FOLHAPRESS
O dólar sobe nesta quarta-feira (9), com a alta do petróleo aumentando a cautela entre investidores e pressionando ativos de mercados emergentes. O pregão também é marcado pelos desdobramentos da crise no STF (Supremo Tribunal Federal).
Por volta das 15h30, a moeda americana avançava 0,34%, a R$ 5,103. No mesmo horário, a Bolsa recuava 0,93%, aos 185.549 pontos.
O movimento ocorria apesar do avanço das ações da Petrobras durante o pregão, acompanhando a alta do petróleo. Nos Estados Unidos, os índices S&P 500, Dow Jones e Nasdaq recuavam até 0,61%.
O pregão é marcado por maior cautela dos investidores diante das tensões na guerra do Irã.
Nesta quarta-feira, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atacado dez navios e disparado mísseis balísticos contra uma base na Jordânia utilizada pelas Forças Armadas dos EUA. A ação foi uma resposta aos ataques americanos a cinco petroleiros iranianos na terça-feira (8).
Segundo o braço militar iraniano, as embarcações “tentavam atravessar uma área proibida e insegura” do estreito de Hormuz, por onde passava 20% da produção mundial de petróleo e gás antes da guerra.
Em meio à escalada do conflito, o preço do petróleo ultrapassou US$ 100 pela primeira vez desde 25 de maio, com a intensificação da guerra no Irã.
“Com o contrato do tipo Brent ultrapassando a marca de US$ 100 por barril em meio a preocupações com desdobramentos geopolíticos e inflacionários no exterior, o apetite global ao risco sofreu uma retração expressiva, penalizando ativos emergentes e impulsionando as taxas dos Treasuries norte-americanos”, diz Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad.
Nas últimas semanas, a Bolsa brasileira tem sido impulsionada pela força das commodities, em especial o petróleo, e pelo fluxo de capital estrangeiro, que encontra atratividade nas ações brasileiras diante do cenário global.
Esse movimento também favorece o real, à medida que investidores precisam vender dólares e comprar a moeda local para aplicar em ativos brasileiros.
Por outro lado, o conflito aumenta os riscos para o fluxo de petróleo na região e amplia as pressões inflacionárias. Não à toa, a guerra na região tem sido mencionada por bancos centrais ao redor do mundo na definição de uma política monetária mais restritiva.
Nesta quarta, os juros futuros sobem, projetando uma maior alta para a trajetória futura da Selic. A taxa do DI para janeiro de 2035 avança a 14,175%, ante 14,020% do ajuste da sessão anterior (alta de 15 pontos-base)
“O Brasil tem se beneficiado da alta do petróleo por meio dos termos de troca. Esse movimento ajudou recentemente o Ibovespa, mas não é o que observamos nesta manhã. Mesmo com a valorização do petróleo, o mercado também adota uma postura mais cautelosa em relação ao Brasil”, afirma Fernando Saad Bernardes, estrategista global da Avenue.
Investidores também repercutem o cenário eleitoral brasileiro. Durante o feriado de 7 de setembro, uma nova pesquisa Quaest mostrou o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro numericamente empatados, com 41% das intenções de voto cada um, em uma simulação de segundo turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
Além disso, pesquisa BTG/Nexus divulgada na última terça-feira aponta que Lula e Flávio Bolsonaro têm, respectivamente, 39% e 34% das intenções de voto no primeiro turno. Na semana passada, eles tinham 37% e 31%, respectivamente.
O cenário eleitoral também está relacionado à crise do STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, foram divulgadas na última terça-feira (1º) e indicaram a atuação do ministro Alexandre de Moraes em favor do ex-banqueiro.
A retirada do sigilo da investigação, por decisão do ministro André Mendonça, revelou que, dias antes de ser preso pela PF, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país.
Nesta terça, Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. Na mesma decisão, o ministro também afastou preventivamente o diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada. Segundo a decisão, os afastamentos foram motivados pela produção de um relatório interno da Polícia Federal usado por Moraes para contra-atacar Mendonça.
Nesta quarta, o ministro Flávio Dino reintegrou Andrei Rodrigues ao comando da PF e Leandro Almada ao setor de inteligência da instituição.
Para Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, a crise do STF reforça a percepção de instabilidade institucional. “Uma crise institucional prolongada representa um risco para a credibilidade do país. Caso os investidores passem a priorizar esse fator, isso pode elevar os prêmios de risco e pressionar o real.”
Segundo Mattos, o ambiente político pode alterar as expectativas para a disputa eleitoral de 2026. “Esta hipótese, neste momento, tem favorecido o desempenho da moeda brasileira. A percepção é de que uma eventual alternância de poder poderia resultar em uma condução fiscal mais conservadora.”
Analistas avaliam que Flávio Bolsonaro tem um perfil mais alinhado à disciplina nas contas públicas do que o atual presidente.
O candidato do PL já afirmou que, se eleito, fará um ajuste na dívida pública sem mexer na Previdência Social ou na política de valorização do salário mínimo. Lula, por outro lado, disse não estar preocupado com a dívida pública brasileira, mas afirmou que a responsabilidade fiscal “baliza” sua vida
Dólar sobe e Bolsa recua com conflito no Oriente Médio e alta do petróleo no radar
Investidores adotam cautela diante da escalada da guerra no Irã, da crise institucional no Supremo e das incertezas sobre a eleição presidencial de 2026
Foto: Reprodução/Agência Brasil