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Economia

Dólar sobe a R$ 5,10 com tom duro de presidente do Federal Reserve nos EUA

Em alta modesta até o anúncio da decisão do BC norte-americano, o índice DXY disparou após a fala de Warsh

Redação Jornal de Brasília

17/06/2026 18h33

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 17 – Após operar em queda ao longo da maior parte do dia, o dólar ganhou força nas últimas horas de negócios e superou a linha de R$ 5,10, acompanhando a onda de valorização da moeda americana no exterior. O tom duro do comunicado do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), reiterado por declarações do chairman Kevin Warsh em coletiva de imprensa, impulsionou as taxas dos Treasuries e reduziu o apetite por ativos de risco, como bolsas e divisas emergentes.

Em alta modesta até o anúncio da decisão do BC norte-americano, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – disparou após a fala de Warsh e não apenas superou os 100,000 pontos, como também tocou máxima na casa dos 100,500 pontos. Os reflexos no mercado local foram imediatos, embora o real tenha sofrido menos do que pares emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano.

O dólar à vista não apenas trocou de sinal, como iniciou uma escalada na meia hora final de negócios, com sucessivas renovações de máximas, e atingiu R$ 5,1217 no pico da sessão.

A moeda norte-americana fechou em alta de 0,41% frente ao real, a R$ 5,1077, voltando a superar o nível de R$ 5,10 após três pregões. O dólar passa a acumular ganhos de 0,91% na semana e de 1,28% em junho, após valorização de 1,82% em maio. As perdas no ano agora são de 6,95%.

O superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld, ressalta que a perspectiva de um dólar mais forte no exterior, diante da possibilidade de alta dos juros nos EUA neste ano, tende a limitar o espaço para uma recuperação do real Ele observa que o ambiente doméstico já se tornou mais ruidoso, com as denúncias de envolvimento de políticos no escândalo do Banco Master e o aumento das preocupações com a questão fiscal, sobretudo diante da liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial.

Como esperado, o BC americano manteve a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. A decisão foi unânime. Na primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, o Fed trouxe, em um comunicado mais curto do que o habitual, uma mensagem dura ao apontar que a inflação segue acima da meta, em parte refletindo o choque de energia, ao passo que a economia continua em ritmo sólido, com crescimento do emprego.

No chamado gráfico de pontos, que reúne as projeções dos dirigentes do BC americano para os indicadores econômicos, nove integrantes do Fed veem aumento da taxa básica neste ano, enquanto oito projetam manutenção e um espera queda. Ferramenta de monitoramento do CME Group passou a apontar mais de 60% de probabilidade de uma alta dos juros em outubro deste ano.

Em entrevista coletiva, Warsh foi assertivo ao afirmar que o Fed buscará a estabilidade de preços, mas se recusou a fornecer um forward guidance. O chairman desconversou quando questionado se havia tido contato com o presidente Donald Trump, que o indicou para o comando do BC americano em substituição a Jerome Powell, alvo frequente de críticas do republicano. Já Trump disse a jornalistas que o Fed pode elevar os juros neste ano. “Pode acontecer”, afirmou o republicano, acrescentando que Warsh é uma “ótima pessoa”.

A economista Isadora Junqueira, da AZ Quest, destaca a menção do Fed à inflação elevada em razão do choque de energia e a promessa de Warsh, em sua primeira coletiva à frente da instituição, de entregar estabilidade de preços. Embora não tenha fornecido um forward guidance, o BC norte-americano deixou claro que vai se concentrar na inflação, uma vez que o emprego e a atividade seguem sólidos, observa.

“Esse foi o ponto principal. É a primeira visão das mudanças que vamos ter com o Warsh. E tivemos também a revisão das expectativas de juros no gráfico de pontos, com nove membros esperando alta neste ano. Foi uma mensagem muito dura”, afirma Junqueira, ressaltando que o impacto da postura do Fed foi mais evidente no comportamento do DXY e das taxas de juros de curto prazo, com o retorno da T-note de dois anos superando 4,20%.

Bolsa

A comunicação mais dura do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) somada ao fato de que até o presidente dos EUA, Donald Trump, – usualmente crítico a juros elevados – admitiu a possibilidade de que pode haver alta nos juros dos Estados Unidos este ano dizimou qualquer sinal de apetite a risco nos mercados globais. O Ibovespa passou a cair nesta tarde e atingiu o menor nível intradia desde 21 de janeiro, com o fluxo estrangeiro indo para os títulos dos Treasuries, considerados os mais seguros do mundo.

A decisão do Fed de manter a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano era amplamente esperada por analistas consultados pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado). A surpresa veio mesmo no fato de que o indicado por Trump não teve uma postura mais leniente com a inflação.

Na primeira reunião no comando do Fed, Kevin Warsh fez uma ampla reformulação de comunicado, adotando um texto mais enxuto. Apesar de ter eliminado o guidance, os dirigentes mencionaram explicitamente o conflito no Oriente Médio como um dos fatores de pressão econômica e elevaram previsões de inflação e da trajetória dos juros futuros. Na esteira, o mercado antecipou de dezembro para outubro a aposta de aperto monetário pela maior economia do mundo, segundo a plataforma de monitoramento CME Group.

Durante a coletiva de imprensa, Warsh reforçou que o banco central americano buscará corrigir o fato de a inflação estar acima da meta de 2% há cinco anos. Acrescentou, ainda, que não vê motivo para rever a meta até que a inflação tenha atingido 2%

“O Fed teve tom mais duro do que o mercado esperava. Como Trump trocou o presidente do Fed após críticas à política monetária, muitos pensavam que iriam colocar alguém com perspectiva mais branda, dovish. Mas não foi o que vimos na coletiva de imprensa. Warsh teve um tom duro”, comenta o sócio da One Investimentos, Pedro Moreira.

A economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, considera que a comunicação do Fed “reforçou de forma explicita que o comitê irá perseguir a estabilidade de preços”.

Com o Fed tendo postura mais contracionista, o efeito no mercado é de retração no apetite por risco, enfatiza o head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti, destacando que o comportamento do Ibovespa está muito dependente do fluxo estrangeiro. “Os títulos americanos são os mais seguros do mundo, ainda mais nos patamares de juros elevados. Então isso também pode levar a uma migração do fluxo para esses títulos”, comenta.

Apesar de iniciarem o dia em queda, os rendimentos de 2 e 10 anos passaram a subir fortemente nesta tarde. Na avaliação da Capital Economics, as projeções do Fed apontam para um risco “claro” de aumento das taxas de juros ainda neste ano.

O head de renda variável da AVIN, Gustavo Gomes, nota que a curva de juros basicamente não precifica cortes de juros intensos até 2040, o que é prejudicial para a renda variável. Isso porque juros mais elevados deterioram o resultado de empresas da Bolsa, principalmente a de ações consideradas mais relacionadas ao ciclo doméstico.

Como pano de fundo, segue a novela em relação ao conflito no Oriente Médio, com informações destoantes sobre assinatura de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Além disso, investidores focam em pesquisas eleitorais e perspectiva fiscal no Brasil.

Após mínima aos 167.915,71 pontos (-1,02%) à tarde e máxima aos 171.878,23 (+0,56%) pela manhã, o Ibovespa fechou em baixa de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, com giro financeiro de R$ 28,86 bilhões. As ações cíclicas, como Natura (-8%) foram destaque de queda, com o índice também sem auxílio da Vale (-2%), enquanto bancos e Petrobras operaram mistos.

Juros

Os juros futuros dispararam nesta Superquarta, diante do aumento dos ruídos em torno do acordo entre EUA e Irã, e, principalmente, da leitura “hawkish” do comunicado do Federal Reserve (Fed), que levou a uma reprecificação das apostas para juros americanos.

No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2031 avançava de 14,296% na terça no ajuste para 14,570%, e a do DI para janeiro de 2029, de 14,403% para 14,685%. O DI para janeiro de 2028 tinha taxa de 14,640% (de 14,428%) e a do DI para janeiro de 2027 subia de 14,256% na terça no ajuste para 14,320%.

Na primeira reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) sob o comando de Kevin Warsh, os juros foram mantidos na faixa entre 3,50% e 3,75% como amplamente esperado, mas os mercados reagiram negativamente à elevação generalizada das medianas para juros nos próximos anos, segundo o gráfico de pontos. O Fomc trouxe um comunicado enxuto, evitando deixar guidance para a política monetária. Assim, a maioria das apostas para o aperto no juro migrou de outubro para dezembro.

Embora o Fomc tenha evitado dar sinalização sobre seus próximos passos, a percepção é de que o caminho para um aperto monetário que traga de volta a inflação para a meta de 2% está aberto. Não só pelo o que trouxe o comunicado, mas pelas declarações de Warsh na entrevista coletiva e do próprio presidente Donald Trump. Sempre crítico à gestão de Jerome Powell por não reduzir juros, ele admitiu que o banco central pode subir juros este ano “Pode acontecer”, afirmou.

“Parecia haver uma restrição política para subir juros antes das eleições, mas parece que não há mais. O mercado está precificando alta em outubro já”, afirmou o economista da Meraki, Rafael Ihara.

O mercado viu uma postura bastante firme de Warsh no objetivo de estabilidade de preços, admitindo que a inflação “está bem acima da meta” e de que a função do Fed é garantir que não haja efeitos de segunda ordem sobre os preços. “Temos a capacidade e o compromisso de manter a inflação em 2%”, afirmou.

O economista-chefe da CVPar, Marcelo Fonseca, afirma que havia alguma desconfiança de que o Fed, sob o comando de Warsh, poderia ceder à pressão de Trump por corte de juros. “Mas o Fomc manteve o compromisso com a estabilidade de preços e parece seguir olhando atentamente para o mandato da inflação”, disse.

Inspirado pelo Fomc, o Copom também pode evitar colocar qualquer guidance para a política monetária. “O BC já se comprometeu demais com esse movimento e vai entregar o corte de 0,25 pp, que é consenso por parte do mercado. A partir daí, acho que ele vai deixar de sinalizar, assim como fez o Fed, abandonando o forward guidance. Vai deixar de fazer sua sinalização futura e adotar uma postura de observância aos dados”, afirma Fonseca, para quem o BC deveria, mas não vai, manter a Selic estável na reunião desta quarta.

Antes da decisão do Fed as taxas rondavam a estabilidade, mas já haviam subido pela manhã em meio às dúvidas em relação à formalização do acordo entre Estados Unidos e Irã, após Trump alertar sobre a possibilidade de Teerã não assinar o pacto. “Não quero bombardear o Irã de novo, mas talvez seja preciso”, ameaçou. Os ruídos geopolíticos, porém, foram relegados a segundo plano após o comunicado do Fed.

Estadão Conteúdo

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