São Paulo, 15 – O dólar disparou e fechou acima de R$ 5,05 nesta sexta-feira, 15, marcada por uma onda de valorização da moeda norte-americana no exterior. Temores de pressões inflacionárias com a escalada dos preços do petróleo, diante do prolongamento do conflito no Oriente Médio, impulsionaram as taxas dos Treasuries, castigando divisas emergentes.
O aumento da aversão externa ao risco e o realinhamento dos juros globais se sobrepuseram ao eventual efeito positivo da alta do petróleo sobre a moeda brasileira, via melhora dos termos de troca. O real sofre também com um movimento de realização de lucros associado à corrida presidencial, com o abalo da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal nome da oposição, na esteira revelação de relações de proximidade entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.
Com máxima de R$ 5,0818, no início da tarde, o dólar à vista encerrou a sessão em alta de 1,63%, a R$ 5,0678 – maior valor de fechamento desde 8 de abril (R$ 5,1029). O real amargou um dos piores desempenhos entre emergentes, seguido de perto pelo peso chileno, o rand sul-africano e o florim húngaro.
A moeda norte-americana termina a semana com ganhos de 3,55% e avança 2,32% em maio, após desvalorização de 4,36% em abril. No ano, as perdas do dólar, que já foram superiores a 10%, agora são de 7,67%.
“Temos um cenário externo de aversão ao risco com o impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã. As taxas dos Treasuries estão subindo e a moeda americana se fortalecendo com a dificuldade de retomada do corte de juros nos EUA e a eventual possibilidade de alta”, afirma o sócio da Nexgen Capital, Felipe Izac, para quem parte do tropeço do real reflete a diminuição das apostas em mudança da política fiscal após a eleição presidencial, diante da perda de fôlego do nome de Flávio Bolsonaro.
Em entrevista no período da tarde à CNN Brasil, Flávio disse que suas conversas com Vorcaro, reveladas na última quarta-feira, 13, pelo site The Intercept Brasil, não vão abalar sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto. A publicação divulgou mensagens de texto e áudio em que Flávio pede recursos ao ex-banqueiro para bancar o filme “Dark Horse”, com a biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Apesar de chamar Vorcaro de “irmão”, o senador negou proximidade com o dono do Master, argumentando que o tratamento é comum no Rio de Janeiro e entre evangélicos.
“Naturalmente, o otimismo com o real diminuiu com o ‘Flávio 2’, e agora precisamos entender se o mercado vai continuar desmanchando posições otimistas com relação às eleições”, afirma, em relatório, o sócio-diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, acrescentando que, caso o mercado comece a trabalhar com chance de elevação dos juros pelo Federal Reserve, pode haver “alteração no fluxo e alta do dólar”.
O contrato do Brent para julho subiu 3,35%, para US$ 109,26 o barril, acumulando valorização de 7,87% na semana. Trump declarou nesta sexta que “não será muito mais tolerante” com Teerã. Em oposição à fala do republicano de que o presidente chinês, Xi Jinping, apoia “fortemente” restrições nucleares ao Irã e a reabertura do Estreito de Ormuz, Pequim informou que Xi afirmou apenas que “a força não resolve problemas”.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY ultrapassou a marca dos 99,000 pontos e acumulou alta de mais de 1,40% na semana. As taxas dos Treasuries de 10 anos avançaram de 2%, para 4,59%. Além da permanência do petróleo em níveis elevados, a safra mais recente de indicadores mostrou atividade forte e inflação em alta. Ferramenta de monitoramento do CME Group passou a apontar quase 60% de chances de que o Federal Reserve eleve a taxa básica de juros em janeiro de 2027.
“Hoje, os mercados reagem à forte alta dos juros nos EUA, o que se reflete no ganho do dólar contra moedas emergentes. O real sempre tem um comportamento mais elástico, dado o tamanho do mercado local de câmbio”, afirma o economista-chefe da Garantia Capital, André Perfeito. “Mantenho a perspectiva de que o real tende a se apreciar, dado o resultado das contas externas brasileiras, mas a volatilidade ainda será sentida até Trump decidir o que fazer com o conflito no Oriente Médio.”
Bolsa
A aversão a risco global, diante da falta de solução para o conflito no Oriente Médio e da contradição de narrativas entre Estados Unidos e China, penalizou o Ibovespa e propiciou a retirada de recursos da renda variável brasileira desde a abertura nesta sexta-feira, 15. À tarde, houve mal-estar também com a declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de que a divulgação das conversas dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, do liquidado banco Master, não vai impactar a pré-candidatura dele ao Palácio do Planalto. Na quinta semana consecutiva de perdas, o Ibovespa acumulou desvalorização de quase 4%.
Em dia de vencimento de opções sobre ações, o Ibovespa fechou em baixa de 0,61% (aos 177.283,83 pontos), após mínima aos 175 417,25 (-1,65%) e máxima aos 178.340,52 pontos (-0,01%), ambas pela manhã. O giro financeiro totalizou R$ 32,2 bilhões, com a alta de 7,5% de Minerva, após balanço financeiro considerado sólido, e o avanço de 2% de Petrobras ON, pelo salto de 3% do petróleo, tentando calibrar as perdas lideradas por Usiminas (-7%), Hapvida (-6%) e Cosan (-5%).
O acúmulo de recuos do Ibovespa ocorre em sintonia com uma retirada de R$ 6,45 bilhões de investidores estrangeiros em maio, com dados até quarta-feira, 13.
“Não foram todos os dias de saída de recursos. Ainda temos R$ 50 bilhões de fluxo no acumulado do ano, mas com um viés de cenário geopolítico mais complexo do que se imaginava, também há uma realização de lucros”, avalia a gestora de renda variável da Fator Gestão, Isabel Lemos, pontuando que os hedge funds internacionais já ganharam dinheiro tanto com o rali da Bolsa quanto com a aposta no real.
O conflito no Oriente Médio preocupa do ponto de vista inflacionário, por conta da alta no preço do petróleo – acima de US$ 101 por barril tanto em Londres quanto em NY -, com efeito de juro em patamar elevado por mais tempo. Somado a isso, “todas as inseguranças recentes acabam gerando uma aversão a risco, por isso há uma redução de exposição ao mercado de renda variável. O juro, tanto nominal quanto real, também acaba sendo um fator que pesa sobre as empresas”, acrescenta Lemos.
No ramo de incertezas, constam também os desdobramentos da cúpula entre os presidentes Donald Trump (EUA) e Xi Jinping (China). Apesar de sinalizações de que a relação entre as principais potências do mundo permanecerá estável ao menos até o reencontro dos líderes em setembro, declarações divergentes entre os lados e impasses relacionados à questão de Taiwan não deixam o laço bilateral completamente relaxado, aponta reportagem especial do Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Para Marcos Vinícius Oliveira, economista e analista da ZIIN Investimentos, ainda há resquício do ruído político envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e o banqueiro Daniel Vorcaro. A notícia de que ambos estavam em contato “jogou um balde de água fria na esperança de que poderia haver uma vertente mais fiscalista para o mandato de 2027, justamente quando começavam a existir sinais de uma eleição um pouco mais acirrada”, segundo Oliveira.
O economista e analista da ZIIN Investimentos destaca que, tirando Flávio, a princípio não há nenhum segundo nome para a ala da direita nas eleições. “E já estamos em maio. Então até a ala da direita se organizar de novo para outro possível nome.. “, pondera, cravando que o cenário é de maior incerteza, tanto no âmbito doméstico quanto no global, e que gestores preferem não ficar posicionados no fim de semana.
Em entrevista à CNN Brasil no período da tarde, Flávio Bolsonaro enfatizou que as conversas dele com Vorcaro não vão impactar a pré-candidatura dele à Presidência, mencionando que, por ter o sangue do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, ele irá “até o fim” na disputa.
Juros
Ainda que o quadro eleitoral tenha ficado mais embaralhado e continue no radar de investidores, com denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro e dúvidas sobre a viabilidade de sua candidatura à Presidência, o derretimento dos ativos globais foi o maior detrator dos juros futuros na última sessão da semana.
As taxas percorreram o pregão em forte alta, contaminadas pela onda de “sell off” nos mercados externos de juros. Os temores inflacionários reforçados com o sentimento de que a guerra no Oriente Médio não terá um fim tão cedo, aliados ao aumento do risco político no Reino Unido e, em menor medida, à frustração com a falta de resultados concretos na cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping levaram a uma espiral negativa nos mercados de renda fixa. Nos Estados Unidos, os retornos de Treasuries longos saltaram 10 pontos-base, com a taxa do título de 30 anos superando 5%.
Por aqui, ainda com resquícios do “Flávio Day 2.0” nos prêmios, os vértices intermediários e longos voltaram a ficar acima de 14% com alguma folga, em seus maiores níveis neste ano. Na semana em que as taxas dispararam mais de 30 pontos-base na quarta-feira, devido a uma reportagem que mostrou que o filho de Jair Bolsonaro pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para uma cinebiografia sobre seu pai, o saldo foi de inclinação da curva a termo: o vencimento de janeiro de 2027 ganhou cerca de 20 pontos frente ao fechamento da última sexta-feira. Já os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 e de 2031 avançaram quase 70 pontos.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,18% no ajuste de quinta para 14,235%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 14,165%, vindo de 13,976% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2031 exibiu firme elevação, de 14,057% no ajuste a 14,25%.
Sem resolução para o conflito entre EUA e Irã, os preços do petróleo explodiram novamente, destaca Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, cenário que tem deixado os bancos centrais ao redor do mundo mais reticentes. Referência para a Petrobras, o contrato futuro do Brent para julho encerrou em alta de 3,35%, a US$ 109,26 o barril. No cômputo semanal, houve valorização de quase 8%.
Caso o Estreito de Ormuz continue efetivamente fechado e os estoques comerciais de óleo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) seguirem sendo consumidos no mesmo ritmo observado em abril, as reservas da commodity podem atingir níveis criticamente baixos até o fim de junho, alerta em relatório Hamad Hussain, economista de clima e commodities da Capital Economics. “Isso seria compatível com o Brent alcançando um pico nominal recorde, e poderia exigir cortes mais desordenados e economicamente danosos na demanda por petróleo”, disse.
Com base em padrões passados, uma queda mensal de cerca de 100 milhões de barris nos próximos dois meses seria compatível com preços do Brent na média de US$ 130 a US$ 140 por barril em junho, estima Hussain.
Além do confronto no Golfo Pérsico, Argenta acrescenta que havia elevada expectativa sobre a reunião ocorrida ontem entre os presidentes dos EUA e da China, que terminou sem avanços na relação bilateral dos dois países. “Não teve nada de efetivo, nem na esfera geopolítica, nem nas relações comerciais. Não por acaso nas bolsas globais os setores que mais sofreram foram os relacionados à IA e tecnologia”, observou.
No ambiente doméstico, dando seguimento aos relatos que envolvem a família Bolsonaro e o dono do banco Master, o The Intercept Brasil publicou que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro teria poder sobre os recursos financeiros levantados para o filme “Dark Horse”, sobre a vida de seu pai. Flávio, por sua vez, concedeu entrevista à CNN Brasil, na qual defendeu que o irmão não recebeu dinheiro de Vorcaro.
Em um dia já negativo para a curva de juros, as taxas seguiram abrindo em igual intensidade em seguida aos dois eventos. Também sem impacto sobre os preços, o IBGE divulgou mais cedo que a atividade dos serviços registrou tombo de 1,2% entre fevereiro e março, aquém do piso das expectativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de -0,6%.
Estadão Conteúdo