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Economia

Dólar sobe 1,15% com expectativa por Datafolha e ‘tarifa zero’ de Lula

Houve também menção a notícia de que Lula pode prometer “tarifa zero” para o transporte público aos fins de semana e feriados

Redação Jornal de Brasília

15/10/2026 18h26

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 15 – Em alta firme desde o início dos negócios, na contramão do comportamento da moeda americana no exterior, o dólar renovou máximas na reta final do pregão e encerrou o dia perto do nível de R$ 5,10, no maior valor de fechamento desde a última sessão antes do primeiro turno da eleição presidencial.

Operadores e analistas ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) atribuíram a arrancada da moeda americana a uma postura defensiva dos investidores diante da expectativa pela divulgação da pesquisa Datafolha, a partir das 18h30, que pode trazer crescimento das intenções de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A vitória da oposição é vista como fundamental para uma mudança na política fiscal a partir de 2027.

Houve também menção a notícia de que Lula pode prometer “tarifa zero” para o transporte público aos fins de semana e feriados em eventual quarto mandato, segundo fontes ouvidas pelo Estadão. Avalia-se que a campanha do petista ganhou fôlego após as manifestações no fim de semana e a aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6×1.

“Parece haver um pessimismo de fim de pregão antes da divulgação do Datafolha. O mercado passou o dia todo preocupado com a possibilidade de crescimento das intenções de voto em Lula”, afirma o estrategista-chefe do Sincra, Gustavo Cruz, mencionando que a promessa de “tarifa zero” pode dar impulso adicional à candidatura do presidente.

Após tocar a máxima a R$ 5,0983, o dólar à vista terminou em alta de 1,15%, a R$ 5,0868 – maior valor de fechamento desde 2 de outubro (R$ 5,2165). Embora tenha avançado nos últimos três pregões, a moeda americana ainda recua 1,70% frente ao real no mês, fruto do rali desencadeado pela surpreendente dianteira de Flávio na corrida presidencial. No ano, as perdas são de 7,33%.

“O movimento do câmbio nesta quinta é majoritariamente doméstico e eleitoral, com as pesquisas tirando parte do conforto que o mercado vinha precificando”, afirma o especialista de câmbio Guilherme Casa Grande, da Manchester Investimentos, ressaltando que a moeda brasileira era sustentada pelo juro real elevado e pela expectativa de alternância de poder. “Esse segundo fator fica em xeque quando as pesquisas apertam. O câmbio passa a oscilar a cada nova sondagem.”

Levantamento da Quaest sobre intenções de voto para o segundo turno, divulgado na noite de quarta, mostrou Flávio Bolsonaro com 46% contra 44% de Lula – quadro de empate técnico. Pesquisa Indexa/Broadcast trouxe resultado similar. O candidato do PL aparece com 44%, dois pontos porcentuais acima do petista (42%)

A Hedgepoint Global Markets avalia, em nota, que parte da demanda por dólar ao longo da tarde reflete uma busca por hedge (proteção) antes da divulgação da pesquisa Datafolha e não aponta para uma tendência da taxa de câmbio. A pressão sobre o real é doméstica, com peso da pesquisa da Quaest mostrando empate técnico e aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1, observa.

“As chances de Lula vencer são baixas, mas aumentaram nos últimos dias. Se ele vencer, a melhora observada nos ativos brasileiros será perdida e o grande movimento do câmbio será para cima”, afirma José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, cujo modelo aponta queda do dólar em direção a R$ 4,80 em caso de vitória de Flávio.

Lá fora, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – operou em queda ao longo do dia e recuava 0,53% por volta das 17h, aos 102,015 pontos. Apesar da leitura bem acima da expectativa para o índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) em setembro, não houve aumento considerável das chances de alta dos juros pelo Federal Reserve em outubro, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group. As apostas majoritárias são de retomada do aperto monetário em dezembro.

Bolsa

Depois de passar o período da tarde na faixa dos 205 mil pontos, o Ibovespa intensificou as perdas na última hora do pregão e chegou a se aproximar do piso registrado no começo do dia (203 110,43 pontos). A notícia de que o presidente Lula (PT) anunciará tarifa zero no transporte de ônibus urbano aos fins de semana e feriados, somada à maior apreensão do mercado com a divulgação da pesquisa presidencial Datafolha, fez com que os investidores adotassem uma postura ainda mais defensiva.

No fechamento, o índice caiu 1,06%, a 204.324,26 pontos. Na semana, já recua 2,27%. No mês, ainda sobe 9,65% e no ano, 26,81%. O giro no dia foi de R$ 27 bilhões, relativamente menor do que a média das sessões.

A notícia sobre a tarifa zero é mais um elemento de nervosismo para os investidores, dizem analistas, porque representa mais uma renúncia fiscal do governo para tentar ganhar popularidade a 10 dias do segundo turno. Caso isso mude o ponteiro das pesquisas até aqui, que mostram vantagem, ainda que apertada, de Flávio Bolsonaro (PL), isso poderia esfriar o otimismo com o fortalecimento do senador desde o resultado do primeiro turno.

O tema se torna especialmente importante, ainda conforme os analistas, diante de outras medidas anunciadas pelo governo, como o perdão de dívidas dos microempreendedores individuais (MEI) à União, a aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1 e os reajustes do Bolsa Família. “Em pregão de liquidez baixa e às vésperas de um evento binário como o segundo turno, um ‘headline’ desses tem efeito amplificado”, afirma o trader da mesa de alocação da Nippur, Cândido Piovesan.

O gestor da Venice RC, Cláudio Coppola, destaca que o Datafolha pode endossar a diferença de 2 pontos percentuais de vantagem de Flávio para Lula vista na Quaest divulgada na quarta-feira e que, se o número vier acima disso a favor do atual presidente, a reação do mercado pode ser pior.

“É algo com que o mercado fica preocupado e leva o investidor a reduzir um pouco as posições para ter espaço para ajustes amanhã”, diz. “Todo mundo está muito em cima do detalhe porque há um forte viés de que a direita pode ganhar a eleição.”

Juros

O aumento do prêmio de risco político percebido pelo mercado levou os juros futuros negociados na B3 a fecharem em firme alta nesta quinta-feira, 15. Em um ambiente já tensionado – à medida que o cenário de vitória da oposição no segundo turno, tido como praticamente certo na semana passada, começa a ser ponderado -, a notícia de que assessores de Lula o aconselharam a prometer publicamente “tarifa zero” no transporte público aos fins de semana e feriados, antes do segundo turno, levou a um repique das taxas rumo ao fim da sessão.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,468%, no ajuste da véspera, a 13,517%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 12,730%, vindo de 12,436% no ajuste anterior, e o DI para janeiro de 2031 saltou de 12,494% a 12,760%.

Além da falta de clareza sobre a trajetória fiscal do próximo governo – dado que investidores têm expectativa de um ajuste mais austero trazido pela alternância de poder -, a aprovação do Senado à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6×1 já havia sido precificada, mas também pesou, em menor medida, sobre a recomposição dos juros. Por elevar custos com mão de obra, agentes avaliam que a medida terá impacto inflacionário.

A renda fixa local, assim, operou na contramão do alívio observado nos Treasuries, cujas taxas exibiram forte recuo nesta quinta, ainda na esteira do ajuste nas perspectivas para a trajetória da política monetária nos EUA, que agora indicam aumento dos juros em dezembro. Por volta das 18h, o retorno da T-note de 10 anos caía de 5,186% a 5,069%.

Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal afirma que o mercado, em euforia logo após a liderança de Flávio Bolsonaro nas urnas no primeiro turno, agora está entrando em um “choque de realidade”, que leva à correção de excessos no desempenho dos ativos. “Isso não é de hoje, vem ocorrendo desde o início da semana, e é tudo ligado à questão eleitoral”, observou.

Na plataforma de apostas Polymarket, que tem tido peso para os profissionais de mercado, a chance de vitória do senador do PL já chegou a alcançar 89% e, hoje, está em 76%, um número ainda relevante, mas distante do otimismo demonstrado logo depois do primeiro turno, diz Leal.

Segundo o economista, há uma readequação dos agentes a um cenário de eleição mais disputada e, como as campanhas chegaram em fase decisiva, este ainda deve ser o principal vetor para os ativos domésticos nos próximos dias. Como eventos que ditarão os preços, ele menciona, além da Datafolha a ser divulgada nesta quinta-feira, as sabatinas do presidente Lula e Flávio pela TV Globo, nesta noite e na noite de amanhã, pela ordem, e o debate entre os dois candidatos no domingo, na Band.

“Acho que esse movimento da tarde nos juros futuros é a soma de vários fatores ruins. A eleição abriu a caixa de Pandora”, disse o economista-chefe da Monte Bravo, Felipe Tavares, à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

Além da disputa presidencial, a transição para uma escala 5×2 de trabalho no Brasil já havia sido em grande parte antecipada, mas ainda assim foi monitorada na sessão devido a seus potenciais efeitos na inflação. Segundo estudo de Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, a medida pode ter impacto de cerca de 0,4 ponto porcentual no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) durante sua implementação.

Estadão Conteúdo

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