FOLHAPRESS
O dólar está em queda firme nesta quinta-feira (30), em meio ao enfraquecimento global da moeda norte-americana. Às 15h20, a moeda recuava 0,69%, cotada a R$ 5,072. No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, caía 1,01%.
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, afirma que o movimento reflete, de um lado, a divulgação de dados mais fracos da economia dos Estados Unidos, como o crescimento do PIB de 1,5% no segundo trimestre, abaixo da expectativa de 2,1%, e um índice PCE mais moderado, fatores que reduziram a pressão por novos aumentos de juros pelo Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA).
Além disso, segundo a especialista, as suspeitas de intervenção do governo japonês no mercado de câmbio, com uma provável venda de dólares para conter a desvalorização do iene, ampliaram a fraqueza da moeda americana e favoreceram divisas de países emergentes.
No mesmo horário, a Bolsa avançava 1,24%, aos 176.046 pontos, revertendo parte da queda de mais de 1% que teve na quarta.
No cenário doméstico, o real também é favorecido pela queda dos preços do petróleo, após a alta recente provocada pelas tensões no Oriente Médio, e pela divulgação da taxa de desemprego no Brasil.
Às 15h32, o barril do petróleo Brent caía 1,74%, negociado a US$ 89.
Os investidores ainda acompanham a temporada de balanços, com destaque para o resultado da Vale, previsto para o fim do dia.
Segundo Rebecca Nossig, a melhora do apetite por risco no mercado internacional, somada ao enfraquecimento global do dólar, favorece a entrada de recursos em mercados emergentes, como o Brasil, contribuindo para a valorização do real e para a alta do Ibovespa.
Nicolas Gomes, especialista em câmbio da Manchester Investimentos, afirma que a queda do dólar também tem relação com os indicadores econômicos divulgados nesta quinta, que, reforçam uma leitura mais “dovish” do mercado. O termo é usado para descrever uma postura mais favorável à redução dos juros ou a uma política monetária menos restritiva.
Segundo Gomes, apesar de a decisão do Fed ter mostrado divergências entre os dirigentes, com alguns votos defendendo uma alta dos juros, os dados divulgados nesta quinta reforçam a avaliação de que o banco central americano poderá manter a taxa ou iniciar um ciclo de cortes antes do esperado. Esse cenário, afirma, contribui para o enfraquecimento do dólar.
Na última quarta, o Fed manteve a taxa de juros na faixa de 3,5% a 3,75% pela quinta reunião consecutiva. A decisão, diante das expectativas de parte do mercado por uma alta, também favoreceu o apetite por risco e reduziu a busca por ativos considerados mais seguros.
Em entrevista após a decisão, Kevin Warsh, presidente do Fed, voltou a defender a meta de inflação de 2% e admitiu desconforto com os preços ainda elevados nos EUA. “Não existe uma meta implícita mais branda. Existe apenas uma meta, e ela é de 2%”, afirmou.
No entanto, Warsh não detalhou quais condições poderiam levar o banco central a voltar a elevar os juros e reiterou que as próximas decisões de política monetária continuarão sendo baseadas nos dados econômicos.
“Essa postura reforçou a percepção de que o discurso duro contra a inflação não veio acompanhado de disposição para uma atuação mais firme da autoridade monetária […] As apostas de alta de juros pelo Fed diminuíram, o dólar perdeu força globalmente e as moedas de países emergentes foram beneficiadas”, afirma Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercado da StoneX.
A coletiva do Fed também repercutiu no mercado de títulos dos Estados Unidos. O rendimento dos Treasuries de 30 anos chegou a subir 0,14 ponto percentual, para 5,23%, após a decisão da autoridade monetária, na maior alta desde o tarifaço de Donald Trump, em abril de 2025.
A leitura dos investidores foi de que a comunicação de Kevin Warsh deixou dúvidas sobre os próximos passos da política monetária americana, aumentando a volatilidade dos Treasuries, tradicionalmente vistos como ativos de segurança.
O mercado de ações norte-americano também operava em alta. Nesta quinta-feira, o S&P 500, o Dow Jones e o Nasdaq avançavam 1,50%, 1,08% e 2,55%, respectivamente.
Nesta quinta-feira, a divulgação do índice de preços PCE de junho, indicador de inflação preferido do Fed, mostrou que os preços continuam acima da meta da autoridade monetária.
O índice acumula alta de 3,7% nos 12 meses encerrados em junho, ante a meta de 2%, e registrou deflação de 0,1% na passagem de maio para junho. Ambos os resultados vieram em linha com as projeções de analistas consultados pela Bloomberg.
“O resultado reforça a leitura de uma inflação que perde fôlego na margem sem, no entanto, convergir para a meta, cenário que ainda não altera de forma definitiva o cálculo do Fed”, diz Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
Para Kayo, o mercado continua atribuindo uma probabilidade relevante de alta de juros na reunião de setembro. Segundo o FedWatch, do CME Group, 57,4% dos investidores projetam que a taxa será elevada para a faixa de 3,75% a 4%, enquanto 42,6% esperam uma nova manutenção.
No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que o desemprego ficou em 5,4% nos três meses até junho.
O desemprego estavaem 6,1% nos três meses encerrados em março, que servem de base de comparação na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), iniciada em 2012.
“De modo gral, o mercado de trabalho apresenta desempenho robusto, mas com sinais de moderação, reflexo, na nossa visão, do estoque de aperto monetário dos últimos anos”, diz André Valério, economista sênior do Inter.
O próximo encontro do Banco Central para definir o patamar da taxa básica de juros, a Selic, que está em 14,25% ao ano, será nos dias 4 e 5 de agosto.
Na última terça-feira (28), o IBGE divulgou que o IPCA-15 desacelerou para 0,06% em julho, ante expectativa de 0,22% do mercado. No acumulado de 12 meses, o indicador foi a 4,52% até julho.
O IPCA-15 é considerado uma prévia do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial da inflação.
Para o economista Rafael Rondinelli, da Mag Investimentos, o IPCA-15 “reforça a projeção de corte de juros pelo Copom na reunião da próxima semana”.
Caso o corte na Selic se confirme, cairá a atratividade da estratégia “carry trade” em que investidores captam recursos em economias com taxas baixas, como a americana ou a japonesa, para aplicá-los em mercados com juros mais alto, caso do Brasil, se beneficiando dessa diferença.
Dólar recua e Bolsa sobe após comunicação do Fed gerar incerteza sobre juros
Alívio nas expectativas para os juros americanos impulsionaram ativos brasileiros
Foto: Dmytro Varavin/ Getty Images