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Economia

Dólar recua após payroll e IPCA e fecha a semana com perda de 1,10%

A moeda brasileira teria se beneficiado do avanço de quase 2% dos preços do petróleo

Redação Jornal de Brasília

09/01/2026 19h05

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 09 – O dólar apresentou queda moderada nesta sexta-feira, 9, no mercado local, na contramão do sinal predominante da moeda americana no exterior, embora algumas divisas emergentes pares do real, como o peso chileno e o rand sul-africano, tenham exibido leve apreciação.

A moeda brasileira teria se beneficiado do avanço de quase 2% dos preços do petróleo e da perspectiva de manutenção do atual diferencial entre juros interno e externo no curto prazo, após a divulgação do relatório de emprego (payroll) nos EUA e do IPCA de dezembro.

Com mínima de R$ 5,3529, no início da tarde, o dólar à vista encerrou o pregão em baixa de 0,43%, a R$ 5,3658. A divisa termina a semana com perdas de 1,10% e já acumula desvalorização de 2,24% em janeiro, após alta de 2,89% no mês passado. Em 2025, o dólar recuou 11,18% frente ao real.

O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, observa que o real passou a apresentar desempenho inferior ao de divisas pares, como os pesos mexicano, colombiano, chileno, e o rand sul-africano, após o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência, em 5 de dezembro.

“Foi colocado um prêmio de risco em ativos brasileiros em relação ao cenário eleitoral no começo de dezembro. O real devolveu um pouco dessa piora em relação aos pares e está praticamente no meio do caminho de recuperar o nível anterior ao ‘Flávio Day'”, afirma Aun, ressaltando que os ventos externos permanecem favoráveis a divisas emergentes, em meio à forte apreciação do yuan, enquanto o dólar avança em relação a moedas fortes.

Pela manhã, o IBGE informou que o IPCA subiu 0,33% em dezembro, em linha com a mediana de Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Foi o mais baixo para o mês desde 2018. O índice oficial de inflação terminou 2025 com variação de 4,26%, abaixo do teto da meta de inflação. A abertura do IPCA em dezembro revela pressões no segmento de serviços, reduzindo apostas em redução da taxa Selic ainda neste mês.

Para Aun, da AZ Quest, o BC deve começar a cortar os juros em março. Ele ressalta que, dada a credibilidade conquistada pelo BC, a redução dos juros não terá efeito deletério sobre o real. “O BC tem adotado uma postura bem conservadora. Não vai ser um corte que vai aumentar o prêmio de risco. É um corte bom para a moeda”, afirma o gestor, para quem os principais riscos para a trajetória do real são uma mudança do ambiente externo e, sobretudo, a incerteza em relação à política fiscal, que se tornará mais visível à medida que a eleição presidencial se aproximar.

Lá fora, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – subiu e voltou a ser negociado acima dos 99,000 pontos, com máxima aos 99,264 pontos. O iene caiu mais de 0,60% em meio a rumores de que a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, cogita dissolver a Câmara Baixa do país. O Dollar Index acumula alta de 0,70% na semana e de 0,85% no mês.

O payroll revelou criação de 50 mil empregos em dezembro, abaixo da mediana de Projeções Broadcast, de 60 mil. Mas a taxa de desemprego caiu de 4,6% para 4,4%. O salário médio por hora subiu 0,33% na comparação mensal, em linha com as expectativas dos analistas. Além disso, o índice de sentimento do consumidor dos EUA elaborado pela Universidade de Michigan subiu de 52,9 em dezembro para 54, como esperado.

Ferramenta de monitoramento do CME Grupo mostra que a probabilidade de manutenção da taxa básica de juros americanos pelo Fed neste mês subiu para 95%. Junho aparece como o primeiro mês com chances de corte de juros superiores a 50%.

Para Aun, da AZ Quest, os números do payroll reforçam a perspectiva de uma postura cautelosa do BC americano, após redução acumulada de 75 pontos-base dos juros no ano passado. Ele pondera que os dirigentes do Fed têm mostrando incômodo com a permanência da inflação acima da meta por período prolongado e já veem a taxa de juros mais perto do nível neutro.

“O Fed tende a ser cauteloso nos próximos meses. Se tiver sinais de que vai haver um enfraquecimento maior do mercado de trabalho, ele pode voltar a cortar. Mas a discussão sobre o ciclo de cortes neste ano vai ser bem mais difícil”, afirma o gestor.

Bolsa

O Ibovespa chegou a encaminhar fechamento pela segunda vez na linha dos 164 mil pontos, em nível superado apenas pelo do último dia 4 de dezembro, então no recorde histórico de encerramento, aos 164.455,61 pontos. Na semana, a primeira completa de janeiro, o índice da B3 acumulou ganho de 1,76%, colocando o avanço neste início de ano a 1,39%. Na semana anterior, de transição entre 2025 e 2026 e com apenas três sessões, o Ibovespa havia recuado 0,22%. O giro financeiro desta sexta-feira, 09, ficou em R$ 22,3 bilhões.

No encerramento desta sexta, marcava alta muito moderada a 0,27% na sessão, aos 163.370,31 pontos. Da mínima à máxima do dia, oscilou dos 162.637,86 aos 164.263,24 pontos, tendo saído de abertura aos 162.938,15. Na ponta ganhadora do índice nesta sexta-feira, Multiplan (+4,25%), Cogna (+3,95%) e Cury (+3,81%). No lado oposto, Assaí (-4,22%), Azzas (-4,13%) e Magazine Luiza (-3,69%).

Entre as blue chips, as ações do setor financeiro se firmaram em ascensão discreta à tarde, o que contribuiu para dar algum fôlego ao Ibovespa pela ponderação que tem no índice, com destaque para Santander (Unit +1,16%) no fechamento – exceção para Itaú (PN -0,20%). Vale ON, principal ação do Ibovespa, caiu 1,14%, amplificando o ajuste em direção ao encerramento, o que retirou dinamismo do índice. Petrobras teve sinal misto (ON -0,19%, PN +0,33%).

Para Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, a leitura oficial sobre o mercado de trabalho dos Estados Unidos referente a dezembro não mexe com as expectativas para a decisão de juros do Federal Reserve em janeiro, e foi recebida sem “alarde” pelos mercados. Em Nova York, os principais índices de ações subiram: Dow Jones, 0,48%; S&P 500, 0,65%; e Nasdaq, 0,81%

“Leitura do payroll reforçou a expectativa por manutenção dos juros nos Estados Unidos, na próxima reunião do Fed em janeiro”, diz Bruna Centeno, economista e advisor da Blue3 Investimentos. “Dia mais positivo para o Ibovespa, com o IPCA tendo mostrado, hoje, inflação mais controlada, em linha com esperado pelo mercado, dentro do limite de tolerância para o índice oficial.”

Dessa forma, a leitura para a inflação pelo IPCA em dezembro, também divulgada nesta manhã, reforça, em tese, a expectativa por uma atuação do BC brasileiro sobre a Selic na reunião de março, com o início do que se espera como um ciclo de afrouxamento monetário no País – e em ano eleitoral, quando os gastos públicos tendem a crescer, dando estímulo à economia e ao desempenho das empresas.

Outro desdobramento importante na agenda desta sexta foi o anúncio do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, mas o efeito do alcance deste entendimento dividiu a opinião de especialistas.

O embaixador José Alfredo Graça Lima, um dos primeiros negociadores brasileiros no acordo entre Mercosul e União Europeia (UE), avalia que foram colocadas tantas cotas de importação no acordo entre os dois blocos que os efeitos sobre o comércio serão pequenos. “É um mise-en-scène encenação.” Ainda assim, o acordo – aprovado pelo Conselho Europeu nesta sexta-feira, 9, e com previsão de assinatura na segunda-feira, 12 – tem um impacto positivo, sobretudo no curto prazo, de acordo com Graça Lima.

Por outro lado, na avaliação do inglês John Clarke, ex-chefe da delegação do bloco europeu na Organização Mundial do Comércio (OMC) e na Organização das Nações Unidas (ONU), o entendimento seria “bastante ambicioso”. “É o maior acordo de livre comércio da história. É muito maior do que UE-Japão, UE-Canadá, ou Estados Unidos-Canadá-México”, diz ele, que liderou as negociações europeias da área agrícola para o acordo durante quase toda a década passada.

Na estimativa da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (ApexBrasil), o acordo entre os blocos cria um mercado de US$ 22 trilhões e pode elevar as exportações brasileiras em US$ 7 bilhões.

“O acordo UE-Mercosul tem impacto mais estrutural do que tático sobre o dólar, ao favorecer exportações, ampliar o acesso a mercados desenvolvidos e melhorar a percepção de integração e previsibilidade do Brasil, contribuindo para uma redução marginal do prêmio de risco cambial no longo prazo, ou seja, valorização do real frente ao dólar”, prevê Eduardo Amorim, especialista da Manchester Investimentos.

“O acordo funciona mais como reforço qualitativo da narrativa positiva para o Brasil do que como driver efetivo de fluxo”, acrescenta.

O quadro das expectativas para as ações no curtíssimo prazo manteve-se inalterado no Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta, o primeiro de 2026. Pela terceira semana consecutiva, 60% dos participantes esperam alta para o Ibovespa na próxima semana, contra 20% que preveem estabilidade e outros 20%, queda, exatamente como nas duas edições anteriores.

Juros

Indicadores mais aguardados da semana após quatro dias seguidos de volume reduzido de negócios e oscilações contidas, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e o relatório de emprego dos Estados Unidos, ambos de dezembro, de fato fizeram preço na curva de juros futuros.

Enquanto o dado doméstico veio dentro do esperado, mas trouxe um qualitativo desafiador, com ascensão em diversas métricas de serviços, o payroll mostrou geração de vagas um pouco menor que o previsto, mas surpreendeu ao indicar ligeiro recuo da taxa de desemprego.

O saldo para o mercado de juros foi uma firme alta de todos os vencimentos dos DIs. As apostas para diminuição da Selic em março foram reforçadas. No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,714% no ajuste de quinta a 13,76%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 12,994% no ajuste anterior a 13,060%. O DI para janeiro de 2031 ficou em 13,345%, vindo de 13,309% no ajuste.

Publicado na abertura pelo IBGE, o IPCA acelerou de 0,18% em novembro para 0,33% em dezembro, exatamente em linha com a mediana de estimativas coletada pelo Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. O indicador acumulado em 12 meses terminou 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta inflacionária, de 4,5%, e ligeiramente aquém do consenso do mercado (4,27%). Dentro dele, no entanto, o avanço de 6% dos preços de serviços, grupo que tem maior correlação com o mercado de trabalho, chamou atenção.

Na passagem mensal, a inflação de serviços ganhou ímpeto, ao variar de 0,60% para 0,72% nos cálculos da XP Investimentos, enquanto o núcleo de serviços subjacentes subiu de 0,30% a 0,56% Grupo acompanhado com lupa pelo BC, os serviços intensivos em mão de obra registraram aumento de 0,77% na medição atual, ante 0,61% na anterior.

A XP esperava alta de 0,71% para essa parte da inflação. “Em síntese, a composição do IPCA de dezembro reforça nossa visão de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve iniciar o ciclo de flexibilização monetária em março. As métricas de serviços voltaram a acelerar na margem, em linha com os dados robustos do mercado de trabalho”, aponta o economista Alexandre Maluf.

Analista de renda fixa da Empiricus Research, Laís Costa destaca que, na média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada, mais correta para analisar a inércia dos preços, a inflação de serviços intensivos em mão de obra está rodando acima de 8%. “Isso não é condizente com uma meta de 3%”, observa.

Segundo Costa, a leitura que o mercado fez do dado oficial de inflação é a de que, tanto em dezembro quanto no ano, o que ajudou a manter o IPCA em nível comportado foram os bens comercializáveis, mais sensíveis à valorização do câmbio. “O mercado ainda vê espaço para corte da Selic, mas se na composição do IPCA a deflação vem da apreciação da moeda, o BC tem que continuar defendendo ela”, diz Costa, o que se dá pelo diferencial de juros elevado. “Ainda precisa continuar um diferencial de juros grande com os EUA, o que aponta menos espaço para cortar juros”.

O payroll de dezembro, de acordo com a analista, foi na mesma direção, ao sinalizar probabilidade menor de redução da meta dos Fed Funds. “Se o juro lá não vai cair tanto, amplifica a percepção de que não há tanto espaço para cortar aqui”. O principal relatório de emprego americano apontou criação de 50 mil novas vagas no último mês de 2025, frente mediana do mercado de 60 mil. O dado que mais surpreendeu foi a redução da taxa de desocupação ante novembro, de 4,5% (número revisado de 4,6%) a 4,4%. Já o salário médio por hora aumentou 0,33% na comparação mensal.

No cômputo semanal, o ganho de inclinação observado na curva de juros futuros ficou concentrado na sessão desta sexta-feira. Em relação ao fechamento da sexta anterior, o DI para janeiro de 2027 subiu 6 pontos-base. O DI para janeiro de 2029 ficou estacionado no mesmo nível, e o vértice de janeiro de 2031 praticamente não se moveu, com alta de 1,5 ponto-base.

Estadão Conteúdo

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