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Economia

Dólar modera alta à tarde, mas sobe quase 2% com guerra entre EUA e Irã

Após tocar R$ 5,34, com máxima a R$ 5,3441 e avanço acima de 3%, o dólar à vista encerrou em alta de 1,92%, a R$ 5,2652

Redação Jornal de Brasília

03/03/2026 19h07

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 03 – Uma moderação do sentimento de aversão ao risco no exterior ao longo da tarde abriu espaço para uma redução dos ganhos da moeda americana frente ao real. Após tocar R$ 5,34, com máxima a R$ 5,3441 e avanço acima de 3%, o dólar à vista encerrou em alta de 1,92%, a R$ 5,2652. Apesar de longe dos picos do dia, é o maior nível de fechamento desde 26 de janeiro, quando terminou a R$ 5,2797.

A sessão foi marcada por um movimento clássico de liquidação de ativos de risco, diante das crescentes incertezas sobre a magnitude e a duração da guerra no Oriente Médio, após o acirramento do confronto que opõe Estados Unidos e Israel ao Irã – e respinga em outros países da região. Termômetro do comportamento do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, o Índice DXY rondava os 99,000 pontos no fim da tarde, após máxima de 96,683 pontos.

O dólar à vista sobe 2,56% em relação ao real nos dois primeiros pregões de março. A desvalorização acumulada em 2026, que superava 6% no fim de fevereiro, é agora de 4,08%. O real, que vinha liderando os ganhos entre divisas emergentes no ano antes da eclosão da guerra, teve perdas inferiores a de pares como os pesos mexicano e chileno. Rand sul-africano e florim húngaro amargaram as piores perdas, acima de 2,5%.

O economista Marcelo Fonseca, do Grupo CVPAR, avalia que houve uma “intensificação da busca por proteção hoje [terça-feira, 3]”, com a perda de força da leitura de que EUA e Israel, dada sua supremacia militar, poderiam levar o Irã rapidamente à mesa de negociações.

“O dólar se fortaleceu de forma ampla e o petróleo avançou, refletindo a revisão das estimativas quanto à duração do conflito”, afirma Fonseca, ressaltando a reação do Irã, que realizou ataques a alvos militares e civis em outros países da região ligados aos EUA.

As cotações do petróleo, que no momento de maior estresse, subiram mais de 9%, com o contrato do Brent tocando US$ 85, terminaram o pregão em alta inferior a 5%. Fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que Donald Trump estuda medidas para conter a escalada dos preços da commodity, insuflados pelo fechamento pelos iranianos do Estreito de Ormuz, por onde é escoada cerca de 20% da produção global. No fim da tarde, Trump disse que, se necessário, a Marinha americana escoltará embarcações pelo estreito.

Para Fonseca, a probabilidade de um “conflito mais arrastado” tende a preservar no curto prazo a atratividade do dólar como porto seguro. Ele lembra que a alta do petróleo eleva o risco inflacionário e pode reduzir o espaço para cortes de juros nos países desenvolvidos.

“Para o Brasil, o efeito é ambíguo. Temos termos de troca melhores via petróleo, mas maior pressão cambial e aumento do prêmio de risco”, afirma o economista do Grupo CPVAR, que, por ora, mantém projeção de cortes de 300 pontos-base na taxa Selic neste ano.

O Citi informou em nota que mudou seu posicionamento em relação ao real de overweight (acima da média) para neutro em razão das perdas de divisas emergentes pelas “crescentes tensões geopolíticas”. O banco aponta que, neste primeiro trimestre, houve um aumento substancial das posições “compradas” em real, com base em “um carry atrativo e dinâmicas favoráveis dos termos de troca”. Isso deixou a moeda brasileira “mais vulnerável ao recente movimento de aversão ao risco”.

O Bradesco afirmou, em relatório, que os efeitos da alta do petróleo sobre a taxa de câmbio “dependem do equilíbrio de apetite ao risco e do fluxo de capitais”. O banco pondera, contudo, que a balança comercial e a conta corrente brasileira se beneficiam da valorização da commodity. “O componente do modelo relacionado aos vetores internos pode fazer com que o real performe melhor do que as demais moedas emergentes em um cenário de manutenção prolongada do risco geopolítico”, afirma o Bradesco.

Em meio à escalada da taxa de câmbio, houve uma surpresa com anúncio pelo Banco Central de dois leilões de linha com valor de R$ 2 bilhões por volta das 13h44. A data de liquidação da venda seria 5 de março e a da recompra, no próximo dia 9. Pouco mais de 1 minuto depois, o BC cancelou as operações. A justificativa foi que houve um erro na publicação dos leilões, que estavam em ambiente de teste.

Operadores consultados pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, afirmaram que não houve impacto visível na formação da taxa de câmbio. A avaliação é a de que, por ora, o mercado à vista segue bem irrigado e sem disfuncionalidades, o que torna a possibilidade de intervenção do BC remota.

Bolsa

No que foi a sua maior queda desde o “Flávio Day” – a sessão de 5 de dezembro passado, quando caiu 4,31% com o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República -, o Ibovespa, diferentemente de segunda, não escapou nesta terça-feira, 3, do aumento da tensão geopolítica no Oriente Médio.

Em mais uma sessão volátil, chegou a ceder 9 mil pontos entre a máxima (189.602,38) e a mínima (180.518,33) desta terça, em que fechou em baixa de 3,28%, aos 183.104,87 pontos. Muito reforçado, o giro subiu para R$ 46,8 bilhões, em nível atípico para sessões sem vencimento de opções sobre o índice, mas visto algumas vezes em janeiro com o aumento do interesse estrangeiro por ativos no Brasil. Na semana e no mês, o índice da B3 recua 3,01%. No ano, limita o avanço a 13,64%.

Na ponta perdedora do Ibovespa na sessão, destaque para Pão de Açúcar (-17,78%), à frente de Yduqs (-6,99%), Assaí (-6,49%) e CSN (-6,06%). Apenas duas das 85 ações que compõem a carteira Ibovespa conseguiram avançar na sessão: Raízen (+6,15%), e Braskem (+3,24%). Petrobras perdeu força em direção ao fim do dia e fechou em baixa de 0,74% (ON) e de 0,44% (PN), após ter subido ontem mais de 4% cada, sendo responsável então pelo leve ganho do Ibovespa na sessão.

Tendo figurado na segunda entre as campeãs em dia ainda positivo para o Ibovespa, nesta terça as ações da estatal não conseguiram acompanhar de perto o desempenho do petróleo, que chegou a subir mais de 6% durante a sessão, em porcentual semelhante ao observado no dia anterior para os contratos futuros da commodity em Londres e Nova York. O Brent e o WTI se acomodaram a ganhos um pouco mais baixos no fechamento de Londres e Nova York, em torno de 4,7%.

A moderação da alta da commodity à tarde decorreu de um relato da Reuters, de que as secretarias do Tesouro e de Energia dos EUA estariam finalizando uma resposta a ser apresentada ao presidente Donald Trump para mitigar os efeitos do aumento dos custos de energia durante o conflito no Oriente Médio. O governo americano tem relutado em usar a Reserva Estratégica de Petróleo, mas as autoridades podem sinalizar, ainda na terça-feira, que estão preparadas para usá-la se os preços continuarem a subir, disse uma fonte.

Em outro desdobramento desta tarde, o presidente Trump afirmou que, se for necessário, a marinha dos EUA escoltará navios-tanques pelo Estreito de Ormuz, para garantir a segurança do transporte na passagem que bordeja o território iraniano, e que foi colocada em risco por ameaças da Guarda Revolucionária, a principal instância de poder do regime persa.

“Por enquanto, é muito cedo para falar em choque de oferta, os problemas no mercado de petróleo teriam que se estender por algo como um mês, com consequências também para a inflação global. O que se tem no momento ainda é uma correção pontual, enquanto se aguardam os desdobramentos e uma clareza maior sobre a duração desse conflito”, diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.

A aversão a risco teve efeito particular em papéis de primeira linha, que passaram por um rali nos meses de janeiro e fevereiro em razão do apetite externo desencadeado pela rotação de ativos, em especial, a partir dos Estados Unidos. O caso do Santander Brasil nesta terça-feira foi emblemático: com recuo de 2,45% das Units na sessão, passaram a acumular perda de 2,33% no ano – o primeiro dos grandes bancos a registrar baixa em 2026. No agregado das duas primeiras sessões de março, as ações do setor financeiro, o de maior peso no Ibovespa, acumulam perdas que chegam a 5,09% em Itaú PN, principal papel do segmento – que fechou em baixa de 3,35% -, e a 6,12% em BTG Unit, em baixa de 5,86% na sessão.

Principal papel do Ibovespa, Vale ON caiu 4,17%, após ter resistido relativamente bem na segunda-feira, então em leve baixa de 0,35% no fechamento. Em Nova York, os principais índices de ações encerraram o dia com perdas de 0,83% (Dow Jones), S&P 500 (-0,94%) e Nasdaq (-1,02%).

“O que vemos agora é a reação clássica de mercado a qualquer conflito bélico: choque inicial, aversão a risco, petróleo subindo, dólar se fortalecendo. Foi assim no início da guerra Rússia-Ucrânia. Naquele momento, o temor era de desorganização estrutural do mercado global de energia. Com o tempo, mesmo com o conflito em andamento, os preços se acomodaram”, diz Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. No encerramento de segunda, o dólar mostrava alta de 0,62%, então na casa de R$ 5,16, nesta terça foi buscar o nível de R$ 5,26 (+1,92% na sessão).

“Há limites estratégicos para a duração do conflito”, acrescenta Corano. “Os Estados Unidos não têm interesse em um petróleo sustentadamente elevado, o que pressionaria a inflação e a economia doméstica. E a China também se posicionou, pedindo que o Estreito de Ormuz não seja fechado pelo Irã, dado seu alto grau de dependência do petróleo iraniano. Pequim tem interesse direto na estabilidade do fluxo energético”, acrescenta.

“Com o petróleo em alta, crescem as preocupações com inflação global, o que leva os investidores a reverem expectativas de cortes de juros e a adotarem uma postura mais defensiva”, observa Jucelia Lisboa, sócia e economista da Siegen Consultoria “Em momentos como esse, normalmente o mercado reduz a exposição a ativos de risco, como ações e moedas de países emergentes, e busca proteção em ativos considerados mais seguros, como o dólar “, acrescenta.

“Curva de juros, do DI, já vinha meio pressionada desde a semana passada com o IPCA-15 de fevereiro acima do esperado, e há piora agora com a aversão a risco desde o exterior. Não se sabe até onde vai a retaliação do Irã e por quanto tempo a passagem de petróleo pelo Estreito de Ormuz ficará prejudicada ou mesmo interrompida”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

“A tendência de valorização do real deve ser interrompida pelo movimento global de ‘flight to quality’ busca por segurança, em tradução livre, onde a aversão ao risco geopolítico impulsiona o dólar como ativo de refúgio”, destaca também Eduardo Amorim, especialista da Manchester Investimentos. “Tecnicamente, a escalada do conflito eleva o prêmio de risco sobre moedas emergentes e provoca uma saída de fluxos financeiros, fazendo com que o dólar já volte a negociar acima de R$ 5,20”, diz. “Essa pressão interrompe o fluxo de carry trade que favorecia o real e estabelece um novo patamar de resistência, condicionado à duração da incerteza no cenário externo.”

Juros

Se, em um primeiro momento, o mercado de juros futuros teve reação moderada aos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a percepção de que o conflito pode se estender por um período maior e causar pressão mais duradoura nas cotações do petróleo provocou firme alta em todos os vencimentos nesta terça-feira.

As taxas futuras refletiram novos desdobramentos do conflito que elevaram temores de uma escalada da inflação no mundo, tais como o fechamento do Estreito de Ormuz, que pode comprometer a oferta global de óleo.

Embora o aumento do risco geopolítico não tenha alterado a perspectiva de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central dará início a um ciclo de flexibilização da Selic em março, a curva futura agora passou agora a mostrar um quadro mais dividido entre apostas de redução de 25 e 50 pontos-base, com ligeira vantagem do primeiro cenário.

Com as atenções voltadas para a guerra no Oriente Médio, a expansão de apenas 0,1% do PIB do quarto trimestre de 2025, na margem – que veio exatamente em linha com o esperado – e a geração de vagas formais acima do previsto em janeiro ficaram em segundo plano. Publicado hoje pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou que 112.334 empregos celetistas foram abertos no mês passado, ante expectativa de 92 mil vagas do Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,296% no ajuste anterior para 13,445%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 12,97%, vindo de 12,728% no ajuste antecedente. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,117% no ajuste de segunda para 13,360%.

O primeiro diretor-geral adjunto do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dan Katz, avaliou que a piora das tensões no Golfo pode ser bastante impactante para a economia global, por meio de diversos alcances na esfera da inflação e do crescimento. Segundo Katz, a ascensão do petróleo e do gás representa um canal de influência relevante, e a alta das taxas de juros nos mercados financeiros retrata as implicações para o comportamento dos preços.

Nos cálculos do Bradesco, considerando um repasse aos combustíveis perto de 50% caso o barril de petróleo tipo Brent se estabilize em US$ 80, o impacto no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) seria de 0,4 ponto porcentual. Em situações como essa, porém, a política monetária não deve responder a choques primários, avalia o banco.

Os efeitos sobre a inflação ainda são incertos, assim como análises sobre quanto tempo o conflito deve durar, mas os ativos precificaram a avaliação de que a tensão no Golfo não será apaziguada no curto prazo, diz Gean Lima, gestor de portfólio da Connex Capital. Deu respaldo a essa visão, segundo Lima, a afirmação do presidente dos EUA, Donald Trump, de que o Irã quer conversar, mas agora é ‘tarde demais’.

“Tivemos indicativos de que este conflito vai durar por mais tempo do que estava sendo esperado”, comentou Lima, destacando que o fechamento do Estreito de Ormuz, que responde por cerca de 20% do escoamento da oferta global de petróleo, representa também um impacto maior sobre a economia mundial.

O cenário-base da Connex permanece em corte de 50 pontos-base da Selic na reunião deste mês do Copom, mas o gestor pondera que o novo risco global no radar pode fazer com que o colegiado adote uma postura mais cautelosa neste início de ciclo, diminuindo o juro básico em 25 pontos-base.

Esta, inclusive, passou a ser a aposta majoritária do mercado para o próximo Copom, observa ele: por volta das 16h, a curva precificava nesta terça-feira, 3, 54% de chance de redução de 0,25 ponto da Selic em março, ante 46% de probabilidade de ajuste de 50 pontos-base. Já a taxa apontada para o fim deste ano estava em 12,5%, vindo de 12,36% segunda.

Estadão Conteúdo

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