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Economia

Dólar fecha quase estável, a R$ 5,2165, com cautela antes das eleições

No último pregão antes do primeiro turno da eleição presidencial, a cautela deu o tom aos negócios no mercado de câmbio

Redação Jornal de Brasília

02/10/2026 18h24

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 02 – Após trocas de sinal ao longo desta tarde, com oscilações bem contidas, o dólar encerrou a sessão desta sexta-feira, 2, praticamente estável, na casa de R$ 5,21. No último pregão antes do primeiro turno da eleição presidencial, a cautela deu o tom aos negócios no mercado de câmbio e impediu o real de pegar carona na onda global de desvalorização da moeda americana.

Dados fracos do relatório de emprego (payroll) nos EUA reforçaram as apostas de que o Federal Reserve não vai elevar a taxa básica de juros neste mês, abrindo espaço para a recuperação dos ativos de risco, como bolsas e divisas emergentes. Houve geração de 29 mil vagas em setembro, bem abaixo da mediana das Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 85 mil.

O real ensaiou uma onda de apreciação após a divulgação do payroll e desceu até a casa de R$ 5,20, com mínima de R$ 5,2006. Mas se descolou do ambiente externo ainda pela manhã e ultrapassou R$ 5,23 no início da tarde (máxima de R$ 5,2320), com ajustes de posições, segundo operadores.

Depois de rondar a estabilidade nas últimas horas da sessão, em meio à arrancada do Ibovespa, o dólar à vista terminou o dia a R$ 5,2165(-0,07%). A moeda americana acumula alta de 0,67% frente ao real na semana. Pares da divisa brasileira, como peso mexicano, peso chileno e rand sul-africano, perderam mais de 2% no período. Enquanto o dólar à vista mostrou instabilidade, o contrato do dólar futuro para dezembro operou em baixa moderada ao longo da tarde.

Para o estrategista-chefe da Monte Bravo, Rai Chicoli, a falta de fôlego do real pode ser atribuída a uma postura mais cautelosa antes da eleição, sobretudo quando se leva em conta que a moeda brasileira teve um desempenho superior ao de seus principais pares nas últimas semanas – seja pela melhora dos termos de troca, com o barril do petróleo acima de US$ 100, seja por apostas em torno da corrida presidencial.

“Quem tinha que se posicionar para o primeiro turno já se posicionou. Não vai mudar na véspera da eleição”, afirma Chicoli, ressaltando que as pesquisas mais recentes de intenção de voto trouxeram apenas alterações marginais, que não mudam as expectativas para o desfecho do primeiro turno. “Talvez o movimento da bolsa hoje [sexta-feira] seja mais do investidor local e não haja fluxo estrangeiro para ajudar o real.”

Sondagem do Datafolha, divulgada na quinta à noite, trouxe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 38% de Flávio Bolsonaro – quadro de empate técnico. Na simulação de segundo turno, o petista tem 48%, três pontos porcentuais acima do candidato do PL, que marca 45%. Ambos estão empatados dentro da margem de erro.

A Capital Economics ressalta que a perspectiva é de uma disputa bem acirrada, sem que haja um vencedor no primeiro turno, embora a casa de apostas Polymarket mostre Flávio com um ligeiro favoritismo. “Um forte desempenho de Flávio no domingo impulsionaria o real e as ações, talvez em 3% ou 4% (com base nas eleições de 2018 e 2022), e poderia levar a novas quedas nos rendimentos dos títulos em moeda local”, afirma a consultoria, em nota.

O estrategista Álvaro Vivanco, do Wells Fargo, mantém uma postura mais “neutra em relação ao resultado da eleição em si”, mas vê uma oportunidade de aumentar as posições em real, que ainda mostra um “valuation muito atrativo”, caso a taxa de câmbio caminhe para R$ 5,30. “Por outro lado, esperamos que o patamar de R$ 4,75 seja testado em caso de vitória de Bolsonaro”, afirma Vivanco.

Bolsa

No último pregão antes do primeiro turno das eleições, os investidores aproveitaram o otimismo com uma possível alternância de poder para se posicionarem no mercado de ações, levando o Ibovespa a superar a faixa dos 192 mil pontos (192 114,55 pontos), no maior nível desde 17 de abril, quando atingiu 192.888,96 pontos.

O ambiente mais propenso à tomada de risco no exterior depois de dados do mercado de trabalho mais fracos nos EUA também impulsionou os ativos de mercados emergentes, dando amparo à disparada das grandes ações da bolsa. O giro financeiro no dia foi forte, em R$ 31 bilhões, e o Ibovespa encerra a semana em alta acumulada de 4,71%. No ano, o avanço é de 19%.

O movimento veio acompanhado de forte volatilidade ao longo do dia. O sócio e especialista da Valor Investimentos, Daniel Teles, destaca que o Ibovespa chegou a subir cerca de 1,8% pela manhã, zerou os ganhos e entrou no campo negativo antes de voltar a avançar durante a tarde. “É um mercado totalmente reativo ao ‘trade’ eleitoral. O que eu vejo é o mercado confiante com um primeiro turno bem acirrado e aproveitando essa janela para se posicionar antes das eleições”, afirma.

Juros

Os juros futuros inverteram o sinal de alta para queda no meio da tarde e consolidaram firme baixa no fim do pregão desta sexta-feira, 2, que antecedeu o primeiro turno da disputa presidencial. Segundo agentes consultados pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), a melhora refletiu um ajuste de posições com a precificação de maiores chances de que Flávio Bolsonaro (PL) vença o pleito, às vésperas da decisão de domingo. A vitória da oposição é vista como um indutor de redução dos prêmios de risco associados ao quadro fiscal.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,563%, no ajuste da véspera, a 13,510%. O DI para janeiro de 2029 caiu de 13,821% a 13,690%, e o para janeiro de 2031 diminuiu a 13,920%, de 14,034%.

No cômputo semanal, porém, a curva de juros futuros ganhou inclinação, com recuo de cerca de 5 pontos-base e 15 pontos-base da taxa para janeiro de 2027 e para janeiro de 2029, pela ordem, e estabilidade na ponta longa.

Nesta sexta, as taxas apagaram sinal levemente positivo por volta das 15h, mesmo com a pressão na curva dos Treasuries. E, rumo ao fim dos negócios, renovaram mínimas e passaram a ceder ao redor de 10 pontos-base nos trechos médios e longos, movimento que, segundo um estrategista de uma grande tesouraria, não teve um gatilho específico. “É só animação com a eleição mesmo”, disse. “É o mercado ajustando pelas melhores chances de vitória de Flávio”, concorda o economista-chefe da Montebravo, Felipe Tavares.

Segundo a economista sênior para mercados emergentes da Capital Economics, Kimberley Sperrfechter, um desempenho forte de Flávio no domingo impulsionaria o real e as ações, possivelmente em 3% a 4%, tendo como base a reação dos ativos nas eleições de 2018 e 2022, e poderia levar a novas quedas nos rendimentos dos títulos soberanos locais.

“As apostas na Polymarket apontam Flávio como leve favorito”, nota Sperrfechter em relatório. Segundo a plataforma de apostas, o senador tem 55% de chances de vitória, contra 45% do presidente Lula. Publicada na noite de quinta-feira, pesquisa Datafolha não fez preço nos ativos, mostrando manutenção do cenário de empate técnico entre os dois candidatos.

Pela manhã, porém, eventos ocorridos nesta quinta impuseram cautela aos negócios. Flávio decidiu de última hora não participar de debate eleitoral na TV Globo, que cancelou o embate político. Lula já havia declarado que não compareceria, e concedeu entrevista ao Flow Podcast. O senador do PL acabou realizando uma live no mesmo horário.

Segundo a economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa, a visão do mercado ainda é de um cenário muito empatado, e a expectativa em relação à realização do debate, que poderia mudar esse quadro, acabou sendo frustrada. “Entendo que, para domingo, o mercado precifica um cenário muito apertado, mas com Lula à frente”, apontou.

Em sua avaliação, o Datafolha, assim como os demais levantamentos publicados ao longo da semana, indica acomodação dos dois principais presidenciáveis na margem – tanto da piora de Lula quanto da melhora de Flávio. “A tendência de alta do Flávio e queda do Lula perdeu força, e é exatamente essa força que determina o fôlego dos ativos”, comentou a economista.

Nos Estados Unidos, as taxas dos Treasuries tiveram nova alta após as máximas em mais de duas décadas registradas na quinta. Às 18h04, o juro da T-Note de 10 anos aumentava de 5,242% a 5,279%. As taxas chegaram a operar em terreno negativo após a publicação do payroll de setembro, que mostrou criação de apenas 29 mil empregos, quando o consenso do Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) apontava 85 mil, mas o alívio durou pouco.

Para Costa, o principal relatório de emprego dos EUA indicou um mercado de trabalho em acomodação, mas ainda condizente com atividade crescendo em ritmo sólido, o que justifica a abertura dos Treasuries, assim como a cautela que costuma anteceder finais de semana.

Estadão Conteúdo

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