Menu
Economia

Dólar fecha perto da estabilidade com quadro eleitoral no radar; Ibovespa cai à espera do Copom

Operadores afirmam que a cautela com o ambiente doméstico impediu que o real se beneficiasse do aumento do apetite por divisas emergentes

Redação Jornal de Brasília

05/08/2026 18h13

ibovespa (1)

Foto: Reprodução/ Flickr

São Paulo, 05 – Após exibir na terça-feira o pior desempenho entre as divisas mais líquidas, o real oscilou em margens estreitas nesta quarta-feira, 5, e fechou perto da estabilidade, apesar da onda global de desvalorização da moeda norte-americana. Operadores afirmam que a cautela com o ambiente doméstico impediu que o real se beneficiasse do aumento do apetite por divisas emergentes, em pregão marcado por certa estabilização dos preços do petróleo.

Além de aguardar depois do fechamento do mercado sinais do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre eventual continuidade do ciclo de calibração da taxa básica no comunicado desta quarta à noite, investidores assimilaram pesquisas sobre a corrida presidencial e a definição do candidato a vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL).

Com mínima de R$ 5,0989 e máxima de R$ 5,1342, o dólar à vista encerrou a R$ 5,1282 (-0,05%). Depois de recuo de 1,79% em julho, a moeda norte-americana acumula alta de 1,14% nos três primeiros pregões de agosto, sobretudo em razão do avanço de 0,86% na terça, quando ultrapassou R$ 5,13 e fechou no maior valor desde 13 de julho.

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, afirma que a perspectiva de reeleição do atual governo sugerida pelas pesquisas eleitorais limita o fôlego do real. “O desafio fiscal é enorme e não se espera uma mudança da política econômica em caso de reeleição. A busca por hedge deve aumentar nos próximos meses”, afirma.

Pesquisa Genial/Quaest mostrou estreitamento da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro em simulação de segundo turno, embora dentro da margem de erro. Lula oscilou de 45% para 44%, ao passo que o candidato do PL saltou de 37% para 39%. Sem conseguir atrair a ex-presidente da Caixa Daniella Marques para sua chapa, dada a neutralidade do Republicanos, Flávio anunciou nesta quarta pela manhã o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice.

“A escolha do vice de Flávio parece que não agradou muito o mercado, o que acabou limitando o movimento de queda do dólar. Há também um pouco de cautela com a espera pelo Copom”, afirma o economista Ian Lopes, da Valor Investimentos.

Para o chefe de estratégia de mercados do banco ING, Chris Turner, a principal ameaça para o real são as eleições presidenciais, uma vez que os líderes nas pesquisas eleitorais não parecem seriamente comprometidos com a austeridade fiscal. “No entanto, os investidores recebem uma remuneração substancial para manter posições em real”, afirma Turner, em nota.

Relatório ADP mostrou que o setor privado nos EUA criou 44 mil vagas em julho, abaixo das expectativas, de 75 mil. Investidores aguardam a divulgação do relatório de emprego (payroll) nesta sexta-feira, 7, para refinar as apostas para os próximos passos do Federal Reserve, o BC dos Estados Unidos.

Após o tombo desta quarta, as cotações de petróleo apresentaram oscilações mais modestas. Embora os EUA tenham removido sanções aos iranianos, houve relatos de ataques no Oriente Médio. O contrato do Brent para outubro fechou em alta de 0,11%, a US$ 79,45 o barril, mas ainda cai dois dígitos na semana.

O Citi observa que as moedas latino-americanas têm acompanhado recentemente, em “grande parte”, o comportamento dos preços do petróleo. “As oscilações nos termos de troca apoiam o desempenho do peso chileno e pesam sobre o real”, afirma o banco, em relatório.

Bolsa

Depois de começar o dia com alta firme acima de 1%, o Ibovespa acompanhou a perda de força no exterior e encerrou o dia perto da estabilidade nesta quarta-feira, com investidores adotando maior cautela antes da decisão de política monetária pelo Copom do Banco Central. O principal índice da B3 terminou o dia em baixa de 0,09%, aos 177.726,17 pontos, depois de oscilar entre os 177.690,45 pontos e 180.194,51 pontos no dia.

A ampla expectativa dos profissionais de mercado foi de um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic. No entanto, mais do que a redução em si, o que moveu o mercado foi a natureza do comunicado, segundo especialistas, depois que a autoridade monetária adotou um “tom confuso” na última decisão, em junho.

“O que o mercado está esperando é uma comunicação mais clara. Temos visto indicadores de atividade desacelerando, mas a expectativa de inflação ainda está fora da trajetória para a meta de 3%”, afirmou Mônica Araújo, economista-chefe da Investsmart XP, antes da decisão do Copom.

Para ela, no decorrer do pregão, os investidores passaram a precificar mais a redução da taxa básica de juros e preferir posições mais leves para se proteger e para evitar surpresas com a decisão.

“O comunicado da reunião passada veio um pouco confuso, e acredito que a grande expectativa é se o BC para os cortes da Selic ou se deixará em aberto”, concordou Leonardo Morales, diretor da SVN Gestão, também antes da decisão.

No exterior, o S&P 500 e o Nasdaq encerraram no campo negativo, em uma acomodação após um início de mês forte puxado pelos balanços corporativos e ainda de olho na retomada das conversas entre EUA e Irã sobre o Estreito de Ormuz. Apesar dos sinais de trégua, o ambiente ainda segue instável e trazendo volatilidade para as commodities. Por mais um dia, o petróleo encerrou em queda, abaixo dos US$ 80 por barril, contribuindo para o movimento negativo da Petrobras.

Na ponta positiva, o que ajudou a segurar uma queda mais forte do Ibovespa foi o Itaú, que entregou bons resultados, sobretudo em relação à rentabilidade do segundo trimestre, destaca Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos

O dia também foi marcado pelo noticiário político, com a pesquisa Genial/Quaest mostrando uma melhora marginal de Flávio Bolsonaro frente ao presidente Lula. A escolha do deputado Alfredo Gaspar para a chapa como vice-presidente surpreendeu o mercado, embora com impacto limitado sobre os negócios.

“Foi uma surpresa relativamente negativa para quem deseja ver o nome do Flávio como favorito, mas não é algo que está afetando tanto o humor dos mercados”, pondera Bruno Perri. “A eleição daqui a dois meses será extremamente relevante, mas a melhora da posição de Flávio na margem ainda não chegou a fazer tanto preço”, acrescenta Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.

Taxas de juros

Os juros futuros reduziram o ritmo de queda e fecharam em leve baixa nesta quarta-feira, dada a maior instabilidade nos mercados internacionais e a expectativa pelo comunicado do Copom, consolidado o consenso das apostas de corte da Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14%.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 encerrou em 13,770%, de 13,786% no ajuste do dia anterior, e a do DI para janeiro de 2028 cedeu a 13,810%, de 13,835%. A do DI para janeiro de 2029 caiu de 14,034% para 14,015%. O DI para janeiro de 2031 projetava juro de 14,185%, de 14,239% no ajuste de terça-feira.

O alívio nos prêmios de risco foi maior na primeira etapa, quando era mais firme a expectativa de avanço nas negociações de paz com o Irã e de reabertura do Estreito de Ormuz, trazendo queda aos preços do petróleo. À tarde, relatos de ataques a navios na região levaram o Brent a zerar as perdas. Além disso, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, afirmou que o país ainda não decidiu se avançará para o segundo estágio de negociações.

De todo modo, o barril permaneceu abaixo dos US$ 80, o que alivia a pressão sobre o cenário inflacionário e sobre o aperto monetário do Federal Reserve nos EUA, o que pode ajudar o Copom no processo de calibração da Selic.

Para Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, o alívio no petróleo melhora as condições para a flexibilização monetária pelo Copom, “mas a velocidade dos cortes, porém, seguirá limitada pela capacidade de a inflação convergir para a meta sem deterioração do câmbio ou das expectativas”.

A analista Laís Costa, da Empiricus, diz que o exterior ditou a dinâmica da curva pela manhã, mas à tarde o mercado ficou mais parado. Além das questões geopolíticas, um dado do mercado de trabalho americano abaixo do esperado trouxe alívio aos juros dos Treasuries, e as taxas locais acompanharam.

A pesquisa ADP mostrou que o setor privado dos Estados Unidos criou 44 mil empregos em julho, ante previsão de geração de 75 mil postos. O levantamento antecede o “payroll”, que reúne dados dos setores privado e público e será divulgado na sexta-feira.

“O número mais fraco do ADP sugere redução do ritmo de criação de vagas. Os dados de atividade nos EUA começam a ter mais peso para o mercado, dado que o Fed tem falado cada vez menos”, avalia Costa.

“Depois desse calendário pela manhã, o mercado de juros ficou sem driver, mais adequado a um comportamento pré-Copom”, comenta Na visão da economista, o mercado vai buscar entender se o colegiado deixará a porta aberta para uma continuação dos cortes da Selic no atual contexto de “evidente desaceleração do ritmo de atividade e dados de inflação abaixo do esperado”.

As questões internas ficaram em segundo plano para o mercado de juros, embora alguns players tenham mencionado certa frustração com o anúncio do nome do vice na chapa do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, o que teria contribuído para a perda de fôlego nos DIs. “Chapa muito puro sangue, deu uma decepcionada”, avalia um profissional. Flávio dizia querer uma mulher para compor sua chapa, mas, em meio a dificuldades em fechar alianças para a disputa presidencial, acabou anunciando como candidato a vice o deputado federal Alfredo Gaspar.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado