FOLHAPRESS)
O dólar reverteu os ganhos da manhã desta sexta-feira (6) e fechou em queda de 0,9%, cotado a R$ 5,239.
Ainda que o conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, tenha seguido no radar dos investidores, a moeda norte-americana perdeu força em meio à divulgação do relatório “payroll” dos Estados Unidos.
A desvalorização foi global, com o índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de seis moedas fortes, apresentando queda de 0,1%, a 98,94 pontos.
Nos mercados acionários, porém, a sessão foi de aversão ao risco. No Brasil, o Ibovespa caiu 0,6%, a 179.364 pontos, apesar da forte disparada dos papéis da Petrobras.
O principal índice da Bolsa brasileira acumulou queda de 5% na semana, a maior perda semanal desde junho de 2022. O dólar, por sua vez, somou alta de 2%.
O relatório payroll surpreendeu negativamente, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, mas os efeitos dos dados foram “sobrepostos pelo aumento do risco geopolítico”, que passou a ser a principal variável para o desempenho dos mercados acionários.
Os números do emprego dos Estados Unidos indicaram fechamento de 92 mil vagas, ante expectativa de criação de 59 mil. Além disso, houve uma revisão dos dados do mês de janeiro. Em vez de 130 mil vagas, como reportado anteriormente, foram criadas 126 mil. A taxa de desemprego subiu para 4,4% em fevereiro, ante 4,3% em janeiro.
Os dados exercem pressão sobre o dólar por elevarem temores de que a economia norte-americana está desacelerando. Isso pode reforçar o coro favorável a mais cortes de juros por parte do Fed (Federal Reserve), banco central dos EUA, o que desvaloriza a moeda americana.
“Esse ambiente cria um desafio relevante para o Fed e retoma um debate que vem ganhando força desde 2025: o aumento das incertezas em torno da economia e do dólar”, diz Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Por outro lado, o conflito no Oriente Médio não demonstra sinais de arrefecimento e acirrou preocupações com possíveis interrupções na oferta de petróleo na região do Golfo.
“O cenário permanece marcado por elevada incerteza. A escalada do conflito envolvendo o Irã, com potencial impacto sobre preços de energia e inflação global, adiciona um novo elemento de risco ao ambiente macro, deixando o Fed diante de um quadro mais complexo”, diz Shahini, da Nomad.
O preço do petróleo disparou mais de 10% nesta sexta, ultrapassando a marca de US$ 90 por barril. É o maior valor durante uma sessão desde 29 de setembro de 2023, quando chegou a US$ 96,26.
Em resposta aos temores sobre oferta, a aversão ao risco tomou os índices globais. O Euro STOXX 600, referência na União Europeia, caiu 1,1%. Nos EUA, os três maiores índices também fecharam em baixa, com Nasdaq, Dow Jones e S&P 500 em perdas de mais de 1% cada.
A disparada do petróleo representa um risco de repique inflacionário. No Brasil, distribuidoras e refinarias começaram a repassar a alta de custos aos clientes.
O Irã responde por 3% da produção global da commodity, mas detém ainda mais influência sobre o mercado de energia por causa de sua posição estratégica às margens do estreito de Hormuz, via por onde passam 20% de todo petróleo e gás do mundo.
Os temores sobre a oferta da commodity se agravam conforme a campanha contra o Irã se intensifica. Israel disse que 50 de seus caças destruíram o que havia sobrado do bunker de Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irã, morto no último sábado (28). Foram lançadas cerca de cem bombas no local, que estava sendo usado por autoridades iranianas.
Na noite de quinta, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que “o poder de fogo sobre o Irã está prestes a aumentar dramaticamente”.
Em paralelo, Trump afirmou que poderia enviar a Marinha para escoltar petroleiros pelo estreito de Hormuz. A retórica, porém, foi contestada pela Guarda Revolucionária do Irã, que disse que o país controla a passagem pelo canal. “Atualmente, o estreito de Hormuz está sob controle total da Marinha da República Islâmica”, disse na quarta.
O Qatar ainda suspendeu a produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
O conflito, que tem ganhado cada vez mais contornos de guerra regional, respinga também em empresas do mercado de energia. Duas refinarias de petróleo na China e na Índia chegaram a fechar suas unidades de petróleo bruto após a interrupção no abastecimento, já que ambos os países dependem de importações do Oriente Médio.
As movimentações valorizaram empresas ligadas ao setor na Bolsa brasileira, como Prio e Brava, em alta de 4% cada. O destaque do dia, porém, é a Petrobras, que disparou 3% após divulgar o resultado do último trimestre do ano passado, também embalada pela valorização do barril.
Uma das empresas de maior peso no Ibovespa, a estatal divulgou lucro líquido de R$ 110,1 bilhões em 2025 -alta de 200,8% no comparativo anual. O resultado foi sustentado por aumentos de produção, vendas e exportações e maior eficiência operacional, e a despeito de uma queda dos preços do petróleo ante 2024, para uma média de US$ 70 por barril, de acordo com o balanço.