São Paulo, 06 – Após o tombo de mais de 4% na segunda-feira, no auge da euforia do mercado financeiro com a dianteira do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições presidenciais, o dólar voltou a recuar nesta terça-feira, 6, embora de forma bem mais modesta, e fechou abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez desde meados de maio.
Além da expectativa de redução dos prêmios de risco diante da possibilidade de vitória da oposição no segundo turno da corrida presidencial, o real se beneficiou nesta terça do ambiente mais favorável às moedas emergentes, com recuo das taxas dos Treasuries em meio à perda de fôlego dos preços do petróleo.
A moeda brasileira, que na segunda-feira exibiu, de longe, o melhor desempenho entre as principais divisas globais, avançou nesta terça menos que pares como o peso mexicano e o rand sul-africano. Operadores afirmam que um ajuste natural de posições limitou o ímpeto do real nesta terça-feira, mas que não há mudança na tendência de apreciação.
Pela manhã, o dólar chegou a romper o piso de R$ 4,95, com mínima de R$ 4,9456. Depois de rondar os R$ 4,98 ao longo da tarde, terminou o dia em queda de 0,52%, a R$ 4,9756 – menor valor de fechamento desde 12 de maio (R$ 4,8954). A moeda norte-americana recuou 4,62% nos dois últimos pregões. No ano, as perdas ultrapassam 9%, o que faz do real a segunda divisa com melhor desempenho em 2026, atrás apenas do peso colombiano.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, atribui a apreciação do real à continuidade da redução dos prêmios de risco embutidos na taxa de câmbio, cujo principal gatilho é a perspectiva de uma reforma fiscal em eventual governo de Flávio Bolsonaro. Derrotados no primeiro turno, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) já anunciaram apoio ao candidato do PL, que busca atrair também partidos do Centrão, como o Republicanos.
“Depois da queda expressiva ontem, era até esperado que houvesse uma realização, com uma pequena alta do dólar hoje. Não é o aconteceu. Há espaço para mais apreciação do real, embora de forma mais lenta e modesta”, afirma Galhardo, ressaltando que, apesar do Congresso mais à direita, uma reforma fiscal abrangente como a esperada pelo mercado, com mudança de pisos constitucionais, exigirá “grande habilidade política”, o que Flávio ainda não demonstrou.
Para o analista de câmbio Norman Liebke, do banco alemão Commerzbank, o grau de apreciação do real na segunda-feira surpreendeu, apesar da dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Ele pondera que o “otimismo inicial dos participantes do mercado deve ser visto com cautela”, dada a dificuldade política de adotar uma agenda fiscal restritiva.
“Um parlamento nominalmente mais conservador não é garantia de mudanças. O bloco da direita, fora do PL, permanece fragmentado. E sempre há o risco de que iniciativas pró-mercado deixem de ser prioridade à medida que a pressão política aumenta”, afirma o analista, em relatório enviado a clientes.
Lá fora, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – recuava 0,31% perto do fim da tarde, aos 101,848 pontos, graças, em grande parte, à recuperação do euro, castigado nas sessões anteriores pelas preocupações fiscais na França. O Dollar Index já sobe quase 0,40% neste início de mês e avança mais de 3,6% no ano.
Galhardo, da Análise Econômica, afirma que, apesar da queda dos yields dos Treasuries nesta terça, o ambiente externo é de juros mais elevados nos países desenvolvidos, em especial nos Estados Unidos, o que tende a limitar o espaço para uma apreciação mais aguda da moeda brasileira, mesmo com a queda do prêmio de risco local.
“A economia americana ainda está muito forte, apesar de algum sinal de desaceleração no mercado de trabalho. Um novo aumento de juros nos EUA está a caminho, o que não é positivo para divisas emergentes”, afirma o economista.
Bolsa
Depois do forte rali registrado pelos ativos após o primeiro turno das eleições, os investidores aproveitaram para embolsar alguns lucros, levando o Ibovespa a uma baixa de 0,52% nesta terça-feira. O índice se manteve, porém, acima dos 200 mil pontos (205.835,29 pontos) e com giro financeiro ainda superior à média, de R$ 43 bilhões. Em apenas quatro pregões de outubro, a alta do Ibovespa já é de 10,46%; no ano, de 27,75%
Apesar da acomodação do mercado no dia, os movimentos foram bem pouco expressivos vis-à-vis a performance de segunda-feira entre os setores. O setor financeiro (IFNC) caiu 0,58%, mas puxado principalmente por Banco do Brasil, que recuou mais de 6%, enquanto Itaú, Bradesco e Itaúsa seguiram avançando.
Já o setor de utilities (UTIL: +0,16%), elétrico (IEEX: +0,04%), varejo e consumo (ICON: +0,81%), imobiliário (IMOB: +2,53%) e small caps (SMLL: +1,83%) esboçaram força para subir um pouco mais.
Isso sugere que o mercado segue posicionado para uma potencial continuidade do rali conforme o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ganhe ainda mais força até o segundo turno. Depois de um desempenho do senador no primeiro turno muito melhor do que mostravam as pesquisas eleitorais até então, o mercado seguirá observando o “trade eleitoral”, segundo o analista da AGF, Pedro Galdi.
Os investidores têm grande expectativa de que uma alternância de poder venha acompanhada de austeridade fiscal, o que abre espaço para um ambiente de juros menores – efeito favorável sobretudo para as companhias cíclicas domésticas.
“Normalmente, após um movimento muito forte de alta, o mercado tende a embolsar parte do lucro. É normal alguns ativos caírem sem nenhuma notícia aparente”, afirma o chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, Gabriel Magno.
Profissionais de mercado ponderam que o otimismo pode ter prazo de validade. Segundo o analista de mercados da Ebury, Diego Barnuevo, caso a vitória de Bolsonaro no segundo turno seja confirmada, a atenção se voltará para a composição do gabinete e, sobretudo, para os anúncios na área fiscal, “que até o momento têm sido notavelmente vagos”.
Sem isso, uma eventual decepção dos investidores poderia interromper a forte alta dos ativos locais.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 encontraram espaço nesta terça-feira, 6, para prolongar um pouco mais o rali observado na segunda-feira, quando derreteram mais de um ponto porcentual na ponta média e longa. A inesperada liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições sobre o presidente Lula tem levado mais players a abrirem posições aplicadas, visando uma redução do risco associada à questão fiscal. Agentes alertam, contudo, que as incertezas sobre as contas públicas ainda impedem uma queima maior da “gordura” nos contratos de Depósito Interfinanceiro (Dis).
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu levemente, de 13,41% no ajuste da véspera para 13,428%. O DI para janeiro de 2029 caiu a 12,445%, vindo de 12,591%. O DI para janeiro de 2031 anotou baixa de 12,653% a 12,560%.
Embora as atenções dos investidores sigam concentradas no ambiente doméstico, a moderação da alta do petróleo e o consequente fechamento da curva dos Treasuries observados na sessão deram algum suporte à renda fixa local. Referência para a Petrobras, o barril do Brent para dezembro fechou com modesto avanço de 0,26%, em US$ 100,58, sob um jogo de forças entre as tensões crescentes no Oriente Médio e uma oferta global maior da commodity.
Por aqui, a gestora de renda fixa da Tivio Capital, Isabela Fukase, afirma que a euforia de segunda-feira seguiu ditando a curva de juros futuros, ainda que em menor intensidade, diante da surpresa positiva do mercado com a votação obtida por Flávio, de 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do incumbente. “Não era o cenário-base de ninguém. Só uma pesquisa mostrava isso, o restante não, e a surpresa levou a um rali nos ativos. Hoje segue esse movimento”, disse.
Fukase observa, por outro lado, que as taxas parecem ter encontrado uma resistência para ceder mais do que o nível atual, de cerca de 12,50%. Em sua avaliação, esse piso está relacionado à percepção de que ainda há dúvidas sobre um ajuste fiscal mais austero, mesmo se houver alternância de poder em 2027. “Por mais que o mercado precifique 70% a 80% de chance de Flávio ganhar, ainda há um ceticismo sobre o que ele vai entregar no ano que vem. E só vamos ver a curva de juros fechando estruturalmente depois que houver um ajuste fiscal”.
Ela destaca que, embora também tenham mostrado boa performance na segunda, as taxas das Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) fecharam menos do que os DIs, o que reforça que ainda há uma cautela dos investidores, a despeito do maior otimismo. “O juro real fechou entre 40 e 50 pontos-base. Foi um movimento forte, mas pode cair mais à medida que Flávio entregar um ajuste mais forte.”
Até esta segunda, houve uma reprecificação muito rápida de um cenário que não estava totalmente nos preços, afirma o analista de renda fixa da Manchester Investimentos, Gustavo Danilo. Mas, daqui para frente, a persistência da queda dos juros vai depender mais “de confirmação”. Segundo ele, pesquisas do segundo turno, sinalizações sobre política econômica e fiscal e os próximos dados de inflação passam a ter um peso maior agora.
“O próprio mercado já aumentou bastante a probabilidade de um novo corte da Selic na próxima reunião, mas o Banco Central ainda vem reforçando uma postura cautelosa e dependente dos dados”, disse. No fim desta tarde, a curva futura apontava que a Selic vai encerrar este ano em 13,25%, segundo cálculos do banco Bmg – 0,50 ponto, portanto, abaixo do nível atual. Para 2027, a Selic terminal está precificada em 12,15%.
Estadão Conteúdo