São Paulo, 05 – Após tocar R$ 5,45 pela manhã, o dólar perdeu força à tarde e encerrou a sessão desta segunda-feira, 5, em queda moderada, na casa de R$ 5,40. O real parece ter se beneficiado do enfraquecimento global da moeda americana e da melhora do apetite ao risco no exterior, com alta firme das bolsas em Nova York, ao longo da segunda etapa de negócios.
Além de dados fracos do setor industrial no EUA, divulgados no início da tarde, ganhou força entre analistas a leitura de que a captura de Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, pelos Estados Unidos no último sábado poderá provocar um efeito deflacionário sobre a economia global, abrindo espaço para uma rodada de alívio monetário.
A despeito da alta de mais de 1,50% das cotações do petróleo nesta segunda, a perspectiva é a de que a commodity perca valor no médio prazo com o aumento da produção venezuelana, na esteira de retirada de embargos e do retorno dos investimentos de petrolíferas americanas no país caribenho, observa o economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa.
“O clima de incerteza provocado pelos acontecimentos no fim de semana deixou o mercado na defensiva no início do dia. Mas tivemos ao longo da tarde um movimento de ‘risk on’ com o mercado reavaliando as consequências da intervenção americana na Venezuela”, afirma Costa.
Com mínima a R$ 5,3958, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 0,37%, a R$ 5,4055 – menor valor de fechamento desde o último dia 11 (R$ 5,4044). Após subir 2,89% em dezembro, o dólar já acumula queda de 1,52% nos dois primeiros pregões de janeiro.
Apesar do bom humor dos mercados ao longo da tarde, picos de aversão ao risco não estão descartados diante de uma eventual escalada das tensões geopolíticas. Embora tenha condenado a ação americana, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que deseja trabalhar “junto” com os EUA e que busca “relações respeitosas”.
As declarações vieram após Trump afirmar que Delcy teria “um destino pior” que o de Maduro se não colaborassem com os EUA. O presidente americano também atacou verbalmente o presidente colombiano, Gustavo Petro, e deixou em aberto a possibilidade de uma operação americana na Colômbia.
“No curtíssimo prazo, o exterior tende a se preponderando para o câmbio. Se não houver desdobramento negativo do lado geopolítico com essa intervenção nos EUA na Venezuela, os fatores domésticos, com as perspectivas para a taxa de juros e a eleição presidencial, devem voltar a fazer mais preço no câmbio”, afirma o economista-chefe da corretora Monte Bravo.
Lá fora, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – operava em leve baixa no fim da tarde, na casa dos 98,260 pontos, perto das mínimas do dia, após máxima aos 98,861 pontos pela manhã.
Entre indicadores, destaque para a queda de 48,2 em novembro para 47,9 em dezembro do índice de atividade industrial (PMI, na sigla em inglês) dos EUA, contrariando as expectativas de analistas consultados pela FactSet, que previam alta a 48,7. Leituras abaixo de 50 pontos indicam contração da atividade.
“O movimento de queda da moeda americana ganhou força definitiva após a divulgação do índice de atividade industrial nos EUA abaixo do esperado”, afirma Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, acrescentando que o real acompanhou o movimento de baixa do dólar no exterior.
As atenções dos investidores se voltam nos próximos dias à divulgação dados de emprego nos EUA referentes a dezembro: o relatório ADP na quarta-feira, 7, e o relatório mensal de emprego (payroll) na sexta-feira, 9. Sinais de deterioração do mercado de trabalho podem dar força à perspectiva de mais cortes de juros pelo Federal Reserve neste primeiro trimestre, após redução acumulada de 75 pontos-base em 2025.
Bolsa
Mesmo com a contribuição negativa de Petrobras (ON -1,67%, PN -1,66%) na contramão do avanço do petróleo em Londres e Nova York, o Ibovespa ficou perto de retomar em fechamento a linha dos 162 mil pontos nesta abertura de semana, em alta de 0,83%, aos 161.869,76 pontos. No agregado de duas sessões, sobe 0,46% neste início de 2026. O giro financeiro desta segunda-feira foi a R$ 22,5 bilhões.
Na sessão, o desempenho de Petrobras foi mitigado pelo avanço de Vale ON, a principal ação do Ibovespa, em avanço de 1,02% no fechamento. O dia também foi positivo para o setor financeiro, com destaque para Bradesco (ON +3,39%; PN +4,23%, máxima do dia no fechamento) e Itaú (PN +1,46%), entre as maiores instituições Na ponta ganhadora do Ibovespa, as construtoras MRV (+6,09%), Cyrela (+5,47%) e Direcional (+5,14%). No lado oposto, C&A (-15,71%), Brava (-5,76%) e Lojas Renner (-2,99%).
“Petrobras ficou para trás, nesta segunda-feira, 5, mesmo em dia de alta para o petróleo. A percepção é de que, se houver reabertura da Venezuela para as empresas americanas, haverá mais competição regional, e oferta, o que afeta o setor no Brasil”, diz Ian Lopes, economista da Valor Investimentos.
“Embora ainda haja muita incerteza sobre como a transição para fora do chavismo se desenrolará, acreditamos que o impacto no mercado de quaisquer notícias venezuelanas permanecerá limitado”, avalia Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury, destacando, na agenda da semana, a divulgação de dados oficiais sobre o mercado de trabalho americano, na sexta-feira, referente a dezembro.”Será crucial, já que muitas dúvidas foram levantadas sobre a qualidade do relatório anterior devido à paralisação do governo federal dos EUA, entre outubro e novembro”, acrescenta.
No horizonte mais amplo, “a transição da Venezuela pode vir a ser como um microcosmo de um realinhamento global mais amplo, ao qual os investidores talvez precisem se adaptar ativamente”, apontam em nota os analistas Alex Veroude, Lucas Klein e Seth Meyer, da Janus Henderson. “É improvável que a mudança política na Venezuela provoque uma reprecificação mais ampla do mercado no curto prazo”, acrescentam. No entanto, apontam os analistas, as implicações para o fornecimento de energia, bem como os efeitos para os títulos soberanos de emergentes, assim como o prosseguimento de tensões geopolíticas e da diversificação global da cadeia de suprimentos, exigem atenção contínua dos investidores.
“A movimentação geopolítica na Venezuela impacta pouquíssimo o mercado acionário brasileiro. É muito mais movimentação geopolítica em relação ao petróleo”, resume Pedro Moreira, sócio da One Investimentos.
Juros
Sem dados e notícias domésticas relevantes na primeira sessão após a operação militar americana na Venezuela que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, o mercado brasileiro de juros futuros seguiu a dinâmica global de alívio na renda fixa em boa parte do pregão, terminando o dia praticamente de lado ante os ajustes anteriores.
Em uma típica reação de busca por segurança, títulos dos Treasuries foram mais procurados, o que levou à queda dos rendimentos e exerceu influência benigna sobre a curva local. O dólar também recuou em relação a uma cesta de moedas, incluindo o real.
Segundo agentes, a percepção é que a intervenção dos Estados Unidos em território venezuelano tende a ampliar a oferta global de petróleo, o que tem impacto desinflacionário. No Brasil, os preços da gasolina já estavam acima do praticado no mercado internacional antes do conflito, o que abriria espaço para um reajuste negativo por parte da Petrobras. Assim, após um início de pregão mais cauteloso, a tendência observada ao longo do dia foi de declínio dos vencimentos intermediários e longos, migrando para relativa estabilidade na etapa final da sessão. Cabe ressaltar também que, com a liquidez reduzida nos negócios, as oscilações foram ampliadas.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2027 oscilou de 13,699% no ajuste de sexta-feira para 13,700%. O DI para janeiro de 2029 caiu de 13,053% no ajuste a 13,015%. O DI para janeiro de 2031 marcou 13,335%, vindo de 13,322% no ajuste.
“Hoje [segunda-feira, 05] tudo ficou na conta do petróleo”, aponta Tiago Hansen, diretor de gestão e economista da Alphawave Capital. “Uma oferta maior ajudaria no controle da inflação mundial, que tem como consequência fazer os juros globais caírem”, disse. Os contratos do petróleo tipo Brent e WTI registram ligeira alta nesta segunda, mas o mercado mira um cenário de prazo mais longo, afirma Hansen.
Economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano aponta que os preços internos da gasolina praticados pela Petrobras estão cerca de 10% superiores ao preço de paridade de importação (PPI), o que coloca em discussão um possível corte pela estatal. “As commodities em geral subiram um pouco, mas o dólar perdendo força dissolve um pouco essa alta”, disse.
Serrano menciona que o movimento nesta segunda foi de busca por segurança, o que aumentou a procura por ativos reais, como commodities, assim como por títulos soberanos americanos e a divisa do país. “O real também teve bom desempenho ante o dólar”, acrescenta.
Para o economista, que mantém março como perspectiva para o primeiro corte da Selic, a intervenção militar americana na Venezuela e seus desdobramentos não vão mudar a estratégia do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Segundo Serrano, o evento adiciona volatilidade ao ambiente externo, já incerto para o Copom por causa das políticas tarifárias, mas não altera a essência das preocupações do BC. “Essa parte internacional, no nosso entendimento, é menor no balanço de riscos em relação a questões domésticas”.
Em relatório a clientes divulgado nesta segunda, o UBS avalia que a tensão na Venezuela deve ter impacto limitado sobre os ativos dos principais mercados da América Latina, inclusive o Brasil. “O Brasil é uma economia grande, que tem a China como seu principal parceiro comercial e cujo relacionamento com os EUA tem melhorado nos últimos meses”, diz o banco, mencionando que, em novembro, o governo americano removeu tarifas sobre a carne bovina e o café brasileiros. Já em dezembro, foram retiradas sanções no âmbito da Lei Magnitsky sobre autoridades locais.
Estadão Conteúdo