São Paulo, 02 – O dólar apresentou leve recuo frente ao real nesta terça-feira, 2, em sintonia com o comportamento da moeda americana em relação às divisas emergentes, mas manteve-se acima da linha de R$ 5 no fechamento. Apesar das incertezas em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã, houve melhora do apetite por risco nos mercados globais. A provável entrada de recursos de estrangeiros para a bolsa doméstica, em dia de avanço de mais de 1% do Ibovespa, e a alta dos preços do petróleo podem ter contribuído para dar suporte ao real.
Operadores ressaltam que a nova ameaça comercial americana ao Brasil ficou em segundo plano, embora possa ter impacto eleitoral mais à frente. O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) recomendou a imposição, a partir de 15 de julho, de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, citando, entre outros pontos, suposta concorrência desleal decorrente das transações bancárias por meio do PIX.
Com mínima de R$ 5,0005 e máxima de R$ 5,0231, o dólar à vista terminou o dia cotado a R$ 5,0095, em queda de 0,26%. A moeda americana recua 0,66% nos dois primeiros pregões de junho, após valorização de 1,82% em maio. No ano, as perdas são de 8,74%. O real mantém o melhor desempenho em 2026 no universo das divisas mais líquidas, considerando economias desenvolvidas e emergentes
“O real está valorizando um pouco em linha com as outras moedas emergentes, com as taxas de juros lá fora andando de lado”, afirma o diretor de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, que vê a taxa de câmbio oscilando entre R$ 4,90 e R$ 5,10. “O otimismo com a moeda ficou para trás. O quadro fiscal está muito ruim e deve piorar até o fim do ano. O real não desvaloriza porque o ‘carrego’ é muito alto.”
As cotações do petróleo subiram diante da ausência de sinais concretos de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã que possam levar a uma reabertura do Estreito de Ormuz. O contrato do Brent para agosto fechou em alta de 1,07%, a US$ 96 por barril.
À tarde, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou, em publicação na Truth Social, que as tratativas com Teerã seguem em curso, contrariando informações recentes da mídia iraniana de que as comunicações entre os dois países haviam sido interrompidas. Mais cedo, o Irã informou que ainda não concluiu a análise da proposta americana para extensão do acordo de cessar-fogo, segundo a agência semioficial iraniana Mehr
A equipe econômica do C6 Bank espera valorização do dólar na comparação com o real até o final do ano, mas em ritmo menor do que na estimativa anterior, argumentando que, desde o início do conflito no Oriente Médio, a moeda brasileira exibe desempenho superior ao de outras divisas emergentes – “possivelmente” em razão da “capacidade de produção de petróleo” do Brasil em “um contexto de aumento da cotação do barril”.
“Em um horizonte mais longo, acreditamos que o aumento da dívida pública brasileira pode voltar a pressionar o câmbio, mas, no curto prazo, a visão mais favorável sobre o Brasil no contexto do conflito no Oriente Médio prevaleceu. Por isso, ajustamos para baixo nossa projeção para o dólar, que passou de R$ 5,50 para R$ 5,20 ao fim de 2026 e de R$ 5,80 para R$ 5,50 ao fim de 2027.”
Referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY rondava a estabilidade no fim da tarde, na casa dos 99,200 pontos, após máxima aos 99,329 pontos. Em nota, o banco ING afirma que a faixa entre 99,000 e 99,500 continua sendo uma “zona de conforto” para o DXY, em um ambiente macroeconômico favorável ao dólar, que pode ser reforçado pela agenda de indicadores nos Estados Unidos ao longo desta semana.
O relatório Jolts revelou que a abertura de postos de trabalho nos EUA subiu para 7,618 milhões em abril, acima do esperado por analistas (6,8 milhões). Nesta quarta, 3, será divulgado o relatório ADP, com números da criação de vagas no setor privado em maio. Na sexta-feira, 5, sai o relatório de emprego (payroll) de maio, o que pode mexer com as apostas em torno da condução da política monetária pelo Federal Reserve.
Bolsa
Apesar do ruído de peso na relação EUA-Brasil, com ameaça de imposição de novo tarifaço, o Ibovespa teve um dia de recuperação técnica após cinco sessões em baixa que o mantiveram nos menores níveis desde janeiro. Nesta sexta-feira, com apetite por risco no exterior – o que estendeu a série de recordes em Nova York -, o índice fechou em alta de 1,16%, aos 174.197,10 pontos, entre mínima de 172.198,54 e máxima de 174.894,05 pontos Na semana, sobe 0,24%, colocando o ganho do ano a 8,11%. O giro financeiro ficou em R$ 22,7 bilhões nesta terça-feira.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, determinou que os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Márcio Elias Rosa, encabecem as negociações com a Casa Branca, depois que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) divulgou relatório que promete nova rodada de aumento de tarifas a produtos brasileiros no mês que vem. Conforme fontes, as orientações foram para que as tratativas se deem em nível técnico, sem que haja contaminação política.
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, disse que o governo brasileiro recebeu com “indignação” a “injusta” recomendação do USTR para imposição de tarifa adicional de 25%, a partir do próximo mês, a produtos brasileiros. “Recomendação é injusta porque cita o Pix, que é patrimônio nacional”, acrescentou Alckmin.
O presidente Lula afirmou, também nesta terça-feira, que espera um telefonema do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que possa explicar a proposta do USTR de aplicar uma tarifa geral de 25%, sob a alegação de que o Brasil adota práticas que oneram ou restringem o comércio norte-americano. Lula disse também que os Estados Unidos anunciaram de forma “intempestiva” a taxação, medida que, segundo ele, foi baseada em uma “mentira”
Por sua vez, o presidente dos Estados Unidos elogiou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, ao comentar publicamente, nesta terça, o encontro que manteve com o parlamentar brasileiro na Casa Branca na semana passada. Em publicação na Truth Social, Trump afirmou que foi “muito agradável” receber Flávio no Salão Oval e o descreveu como “um jovem inteligente que ama muito seu País, o Brasil”.
Em evento mais cedo, Lula havia responsabilizado o clã Bolsonaro pela nova taxação, e se referiu aos filhos de Jair Bolsonaro como “traidores”. No mesmo discurso, o presidente brasileiro defendeu também que a exploração de terras raras seja tratada como tema de soberania nacional, e afirmou que o Brasil não permitirá que esses recursos “sejam levados como levaram nosso ouro”.
Em outro desdobramento nesta terça-feira, Flávio Bolsonaro disse ter enviado uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, expressando preocupação com as tarifas dos EUA ao Brasil. Com o argumento de que novas tarifas infligiriam prejuízo ao povo brasileiro, ele teria pedido, na carta, para que não imponham as taxas.
Apesar do duro tom político que marcou o dia, após uma decisão que se conheceu nesta madrugada, os ativos brasileiros foram bem nesta terça-feira. Além do Ibovespa em alta, o dólar caiu a R$ 5,00 e a curva do DI também chegou a retroceder, em dia favorável ao apetite por risco no exterior.
Entre as blue chips na B3, apenas Petrobras destoou, em baixa de 0,62% na ON e de 0,53% na PN, apesar da moderada progressão dos futuros do petróleo em Londres e Nova York. Destaque para a alta de 4,04% em Vale ON, principal papel do Ibovespa, e para ganhos de até 1,54% em Bradesco PN, entre os maiores bancos. Na ponta ganhadora do Ibovespa, CSN (+8,85%), Usiminas (+8,57%) e Gerdau (+6,53%). No lado oposto, Marcopolo (-2,78%), Magazine Luiza (-2,41%) e WEG (-2,33%).
“A possibilidade de o Brasil ser tarifado em 25% pela administração Trump opera menos como um choque uniforme de comércio e mais como um choque de incerteza com assimetria setorial, cuja intensidade final dependerá do escopo, das exceções e da possibilidade de negociação política”, avalia Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos. “O mercado tende a precificar primeiro o risco de compressão de margens e a queda de volumes nas exportações mais expostas, e depois o efeito indireto sobre o câmbio, juros, inflação e múltiplos acionários no Brasil.”
Para além da mais recente ameaça de tarifaço, a “recuperação de hoje foi tracionada por bancos e, em especial, pelo setor de commodities”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos. “Notícias vão e vem a toda hora, mas o mercado volta a comprar a ideia de solução para o conflito do Oriente Médio, e se mantém a percepção, nas últimas pesquisas, de que a candidatura de oposição mostra ainda sustentação na disputa presidencial de outubro, no Brasil.”
Juros
Após subir em bloco com a reprecificação na trajetória esperada para a Selic na segunda, a curva de juros futuros ganhou inclinação nesta terça-feira, 2. Para profissionais de renda fixa e economistas ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o movimento ainda refletiu o aumento das apostas em uma interrupção do ciclo de calibração da Selic após a reunião deste mês do Comitê de Política Monetária (Copom), mas não somente. Os contratos mais distantes também incorporaram prêmios maiores, devido ao risco trazido pela ameaça dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% ao Brasil.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 14,175% no ajuste anterior a 14,16%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 14,015%, de 13,98% no ajuste de segunda. O DI para janeiro de 2031 subiu de 13,96% no ajuste a 14,035%.
“Acho que a inclinação reflete um pouco da digestão de ganhar força o cenário de o Banco Central parar mesmo os cortes em agosto”, afirmou um gestor de renda fixa de uma das maiores assets do mercado, sob anonimato. Isso porque, com apenas mais uma redução de 0,25 ponto do juro básico no radar, há um limite para que as taxas curtas avancem, o que acaba resultando em abertura maior dos juros longos em momentos de estresse. Pela precificação da curva futura, a Selic vai encerrar 2026 em 14,25%.
Na mesma linha, Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, avalia que a dinâmica observada no mercado de juros refletiu a continuidade das movimentações registradas no pregão anterior. Em sua visão, as taxas ainda foram influenciadas pelas revisões para cima das projeções para a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e para a Selic realizadas por importantes instituições financeiras.
“Esse cenário tem levado a uma recalibração de posicionamentos, com redução da expectativa de retorno nas estratégias aplicadas em juros”, disse. Segundo Lima, os últimos dados de atividade econômica vieram mais fortes do que o previsto, ao mesmo tempo em que a inflação segue apresentando uma composição menos favorável, marcada pela deterioração dos núcleos e dos preços de serviços.
“Além disso, mesmo que de forma gradual, as expectativas de inflação continuam se afastando da meta de 3%, reforçando a percepção de um ambiente mais desafiador para a condução da política monetária”, ressaltou o profissional.
Em meio a um pano de fundo já adverso para o mercado local de renda fixa, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) anunciou nesta madrugada uma proposta para aplicar tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 15 de julho, com exceções, no âmbito de investigação da Seção 301.
Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal aponta que a notícia não é exatamente uma novidade, mas não é positiva, uma vez que as primeiras reações do governo brasileiro à medida foram agressivas. “O clima com essa notícia não ficou muito bom”, afirmou.
A nova tarifa poderia, ainda, diminuir a competitividade do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, o favorito do mercado, uma vez que uma ala do PT já começou a relacionar a proposição da sobretaxa ao encontro de Flávio com o presidente Donald Trump, acrescenta Leal. “Isso aumenta a percepção de risco, devido à possibilidade de o governo usar a reciprocidade, por exemplo. Em um ano eleitoral, essas bravatas ficam mais prováveis, sendo que o Brasil é o elo fraco da discussão”, comentou.
Estadão Conteúdo