SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O dólar recua nesta quarta-feira (1º), diante da expectativa de fim da guerra no Irã, o que impulsiona a desvalorização da moeda norte-americana e fortalece ativos de risco.
Às 13h15, a moeda americana caía 0,47%, a R$ 5,155, em linha com o movimento no exterior. Lá fora, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, recuava 0,45%, a 99,44 pontos.
No mesmo horário, a Bolsa subia 0,41%, aos 188.232 pontos, apesar da pressão das ações da Petrobras, que recuavam mais de 3% acompanhando a queda do petróleo.
O movimento já havia impactado o pregão da última terça-feira (31), quando o dólar fechou em queda de 1,25%, cotado a R$ 5,180, e a Bolsa subiu 2,71%, a 187.461 pontos.
Os investidores repercutem falas do presidente norte-americano, Donald Trump, na véspera e ao longo do pregão.
Nesta manhã, Trump afirmou que o Irã pediu um cessar-fogo na guerra. Segundo o republicano, a proposta será analisada apenas quando o estreito de Hormuz, que está praticamente fechado desde o início do conflito, for reaberto por Teerã.
“O novo regime do Irã, muito menos radicalizado e muito mais inteligente do que seus antecessores, acabou de pedir aos Estados Unidos um cessar-fogo!”, escreveu Trump na rede social Truth.
“Vamos considerar isso quando o estreito de Hormuz estiver aberto, livre e desobstruído. Até lá, estamos reduzindo o Irã a nada ou, como dizem, de volta à idade da pedra”, afirmou.
A declaração de Trump é mais contundente do que a da véspera. Na noite de terça, o republicano afirmou que os EUA podem encerrar seus ataques militares contra o Irã em duas ou três semanas, mesmo sem que um acordo com Teerã seja firmado.
“Vamos sair muito em breve”, disse Trump a repórteres na Casa Branca em relação à guerra.
A informação de que os EUA topariam sair do conflito sem um acordo entre os países já havia sido noticiada pelo Wall Street Journal na véspera.
Segundo a publicação, que ouviu assessores próximos ao presidente, a decisão ocorreria mesmo com Teerã mantendo o controle do estreito de Hormuz, via por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural consumidos no mundo.
A Casa Branca informou posteriormente que Trump fará um pronunciamento à nação “para fornecer uma importante atualização sobre o Irã” nesta quarta (1º). O discurso está marcado para às 22h (horário de Brasília).
Para Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, o bom-humor com a geopolítica é decisivo para o pregão. “A menor tensão no Irã tende a aliviar a moeda americana e ajuda no desempenho do Ibovespa, enquanto uma escalada nos conflitos volta a pressionar o câmbio, os juros futuros e ações mais sensíveis a petróleo”, diz.
O conflito também vem causando turbulências no mercado de petróleo, fortemente afetado pela interrupção no estreito. Na máxima desde o começo da guerra, a commodity chegou a US$ 119 por barril, após ataques a instalações energéticas no Oriente Médio.
A expectativa por um cessar-fogo anima investidores. O contrato de junho do barril Brent, referência global, recua 2,04%, a US$ 101,85, por volta das 12h40. O contrato de maio do barril WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, cai 1,51%, a US$ 99,80, no mesmo horário.
A queda do petróleo impacta a Bolsa, com as ações preferenciais da Petrobras caindo 3,18%, a R$ 47,13, por volta das 12h40.
Segundo Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, a expectativa do fim do conflito anima analistas. “Marca uma inversão recente, já que a escalada das tensões vinha fortalecendo a moeda americana, diante da busca por proteção. O ambiente doméstico também segue ajudando, por conta do diferencial de juros com os EUA ainda elevado.”
A guerra no Oriente Médio tem influenciado decisões de política monetária ao redor do mundo. O tema foi citado tanto pelo Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) quanto pelo Banco Central do Brasil nas decisões deste mês, diante do risco de pressão inflacionária global.
Na segunda, o presidente do BC (Banco Central), Gabriel Galípolo, abordou o tema. Ele afirmou que a manutenção da taxa em patamares elevados criou uma “gordura” que permitiu que o colegiado iniciasse o ciclo de afrouxamento na reunião deste mês mesmo em meio à disrupção econômica causada pela guerra no Irã.
Esse mesmo fator, disse ele, possibilita que o Copom aguarde os próximos desenrolares do conflito para decidir sobre o rumo dos juros.
“Agora, mais do que nunca, temos de separar o ruído do sinal. Isso será ainda mais importante para guiar as reações que o BC deve ter. O BC sempre vai continuar agindo de forma serena e parcimoniosa”, afirmou ele, também reafirmando que é “normal” que a autarquia esteja mais inclinada para o lado conservador.
O cenário também elevou a procura por ativos de segurança, como o dólar e a renda fixa, e contribuiu para perdas nas Bolsas ao longo de março.
Isso porque, em momentos de incerteza, costuma ocorrer o movimento chamado de fuga para a qualidade. Os investidores priorizam emissores considerados mais seguros e ativos mais líquidos, como a moeda norte-americana.
Há preocupação de que, caso o petróleo continue em alta em razão do conflito, a inflação global seja pressionada e, consequentemente, bancos centrais sejam obrigados a manter as taxas de juros elevadas o que favorece ativos de renda fixa.
No Brasil, o Ibovespa encerrou março com queda de 0,70%, enquanto o dólar acumulou alta de 0,90% no período.