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Economia

Dólar cai a R$ 5,17, menor valor desde maio de 2024, após derrubada de tarifas; Bolsa bate recorde

Na semana, o dólar acumulou queda de 1,03%, e a Bolsa, alta de 2,18%; No ano, a moeda recua 5,69%, enquanto o Ibovespa avança 18,25%

Redação Jornal de Brasília

20/02/2026 19h04

Foto: Reprodução

MATHEUS DOS SANTOS
FOLHAPRESS

O dólar fechou em queda de 0,99%, cotado a R$ 5,1754, e renovou a mínima em quase dois anos, após a Suprema Corte dos EUA derrubar as tarifas globais impostas por Donald Trump.

A moeda norte-americana se desvalorizou ao longo de todo o pregão, em meio à divulgação de dados mistos da economia americana —com o PIB crescendo menos do que o esperado, e a inflação mais. No início da tarde, a divisa intensificou a queda com a decisão do tribunal, movimento que favoreceu ativos de mercados emergentes, como o real e o Ibovespa.

A última vez em que o dólar esteve nesse patamar foi em 28 de maio de 2024, há quase 21 meses, quando encerrou o dia a R$ 5,160. Na mínima desta sexta, a moeda chegou a R$ 5,173.

Também impulsionada pela decisão, a Bolsa de Valores brasileira encerrou o dia pela primeira vez acima dos 190 mil pontos, com alta de 1,06%, a 190.534 pontos. No pico do pregão, o Ibovespa chegou a 190.726 pontos, um novo marco intradiário.

Na semana, o dólar acumulou queda de 1,03%, e a Bolsa, alta de 2,18%. No ano, a moeda recua 5,69%, enquanto o Ibovespa avança 18,25%.

No começo da tarde desta sexta-feira, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que as tarifas impostas pelo presidente americano Donald Trump contra diversos países são ilegais. A decisão foi tomada por seis votos a três.

O julgamento tem como pano de fundo um debate jurídico iniciado em novembro do ano passado, que envolve a legalidade das tarifas.

Trump se apoiou na IEEPA —Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional— para aplicar as sobretaxas a todos os países sem aprovação do Congresso. Os juízes da Suprema Corte discordaram que a lei de 1977, criada para situações de emergência, de fato concede ao presidente esse poder.

A derrota representa um duro golpe econômico e político a uma das iniciativas mais emblemáticas do segundo mandato de Trump. Além de perder capital político, os EUA podem ser obrigados a devolver mais de US$ 175 bilhões (R$ 912 bilhões) em arrecadação tarifária, segundo cálculo de economistas do Penn-Wharton Budget Model a pedido da Reuters.

No exterior, a decisão impactou Bolsas americanas e europeias. Nos EUA, o Dow Jones subiu 0,47%, o S&P 500 ganhou 0,60% e o Nasdaq Composite avançou 0,90% ao longo do dia. Na Europa, o destaque foi o índice STOXX 600, que fechou em alta de 0,84%.

Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, os mercados reagiram de forma positiva, diante da menor incerteza jurídica e da redução de custos para as companhias listadas. “As tarifas não resultaram em choques inflacionários em um primeiro momento, mas podem pesar sobre o crescimento [de empresas] —e removê-las pode melhorar a produtividade.”

Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, afirma que, para países emergentes, a decisão reduz o risco de retaliações em cadeia. “Favorece fluxos para moedas locais em um cenário de dólar mais fraco e para ativos de risco, como o Ibovespa, ao melhorar o apetite global por commodities”.

/A divulgação de dados econômicos dos EUA também esteve no foco do pregão. O PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 1,4% no último trimestre, informou o Departamento de Comércio nesta sexta-feira (20). Economistas consultados pela Reuters previam uma expansão de 3,0%.

Em contrapartida, o núcleo da inflação nos Estados Unidos acelerou mais do que o esperado em dezembro. O índice PCE, métrica de inflação favorita do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), subiu 0,4% em dezembro, ante uma previsão de alta de 0,3%.

Nos 12 meses até dezembro, o núcleo do índice avançou 3,0%, de 2,8% em novembro.

“O PIB americano cresceu abaixo do esperado, sinalizando um enfraquecimento da economia, em parte influenciado pelas paralisações do governo. Esse cenário contribuiu para o enfraquecimento do dólar e para a melhora no fluxo de capital para países emergentes”, diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos

Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, a retirada do tarifaço somada aos dados divulgados melhorou o apetite por ativos emergentes. “Para mercados emergentes a combinação é construtiva. Desaceleração nos EUA e menor tensão comercial tendem a favorecer fluxo para ativos de maior risco”.

No Brasil, a agenda foi esvaziada de indicadores. O destaque ficou para dois leilões de linha (venda de dólares com compromisso de recompra) do BC (Banco Central) no valor total de US$ 2 bilhões, para rolagem do vencimento de 3 de março. As recompras pelo BC serão em 2 de junho e 2 de julho.

Os leilões são intervenções do BC (Banco Central) no câmbio. Na prática, eles servem para aumentar a quantidade de dólares disponíveis para os investidores, seguindo a lei da oferta e demanda. Ou seja, quanto mais moeda puder ser comprada, menor vai ser a cotação dela.

Nos últimos meses, o Brasil tem se beneficiado de um fluxo de investidores estrangeiros no mercado brasileiro. O comportamento impacta tanto o dólar quanto a Bolsa de Valores brasileira.

A entrada de investidores estrangeiros no país deriva de um movimento de diversificação de carteiras em escala global, reflexo, entre outros fatores, dos temores instalados pela condução geopolítica do governo Donald Trump.

A manutenção dos juros brasileiros a 15% —o maior em quase duas décadas— também beneficia o fluxo de capital e preserva a atratividade das operações de carry trade.

Nessa operação, investidores captam recursos em economias com juros mais baixos, como os Estados Unidos, e aplicam em ativos de países com taxas mais elevadas, como o Brasil, buscando ganhar com o diferencial de juros, o que tende a favorecer o real.

Segundo André Valério, economista sênior do Inter, a apreciação recente da moeda decorre do fluxo internacional, impulsionado principalmente pela valorização da Bolsa. “A taxa [de juros] deve permanecer elevada por boa parte do ano. Dificilmente veremos uma depreciação significativa do real por divergências na política monetária. O principal risco segue sendo doméstico, especialmente nas frentes fiscal e eleitoral.”

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