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Economia

Dólar cai 1,52% e fecha a R$ 5,16 após fala de Trump sobre guerra

Com mínima de 5,1601, o dólar à vista terminou o pregão em baixa de 1,52%, a R$ 5,1641

Redação Jornal de Brasília

09/03/2026 18h35

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 09 – Já em queda firme em relação ao real ao longo da tarde, o dólar mergulhou no mercado doméstico na última hora de negócios desta segunda-feira, 9, com a melhora do apetite ao risco no exterior, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que a guerra contra o Irã está perto do fim.

Com mínima de 5,1601, o dólar à vista terminou o pregão em baixa de 1,52%, a R$ 5,1641 – menor valor de fechamento desde 27 de fevereiro (R$ 5,1340), antes dos ataques iniciais ao Irã.

Foi a segunda sessão consecutiva de forte queda da moeda norte-americana em relação ao real. A divisa ainda acumula alta de 0,59% nos seis primeiros pregões de março, após queda de 2,16%. No ano, o dólar apresenta desvalorização de 5,92%.

Em entrevista por telefone à rede de televisão CBS, Trump disse que os EUA estão “bem adiantados” na estimativa inicial de que o conflito contra o Irã seria encerrado em um período de quatro a cinco semanas. “Eu acredito que a guerra está bem completa. Eles não possuem marinha, comunicações ou Força Aérea”, disse.

Principal termômetro do humor dos investidores em relação ao conflito no Oriente Médio, os preços do petróleo experimentaram oscilações agudas. Após encerrarem a sessão regular em alta de 4,3% (WTI) e 6,8% (Brent), inverteram o sinal e passaram a cair no pregão eletrônico. A despeito do refresco no fim do dia, a commodity ainda exibe ganho superior a 20% no mês e avança quase 50% no ano.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY, que operava em leve alta, também mudou de direção. Quando o mercado local de câmbio fechou, o Dollar Index recuava 0,12%, aos 98,865 pontos, com mínima aos 99,695 pontos.

O real já brilhava antes da mudança de humor lá fora, exibindo de longe o melhor desempenho entre as poucas divisas emergentes e de países exportadores de commodities. A avaliação é que a moeda brasileira era beneficiada pela mudança no patamar dos preços do petróleo com o conflito no Oriente Médio.

O economista Robin Brooks, Brookings Institute, destaca que o real apresentou nos últimos dois dias desempenho superior ao de todas as outras divisas emergentes. Segundo Brooks, que é ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), a dinâmica recente dos preços do petróleo representa um “choque positivo enorme” para o Brasil e outros exportadores da commodity.

“Esse comportamento tem relação com o que aconteceu após a invasão da Ucrânia pela Rússia. É um movimento similar nos termos de troca. É o momento ideal para o real”, afirmou Brooks, em post na rede social ‘X’.

Pela manhã, o dólar chegou a se aproximar de R$ 5,30, ao registrar máxima de R$ 5,2864. A depreciação do real se deu na esteira de um aumento expressivo da aversão ao risco no exterior

As cotações do petróleo se aproximaram de US$ 120 o barril diante de temores de um prolongamento da guerra, com manutenção do fechamento parcial do Estreito de Ormuz, após a escolha de Mojtaba Khamenei como líder supremo do Irã. Filho do aiatolá Ali Khamenei, morto por bombardeio conjunto dos EUA e de Israel ao Irã, Mojtaba é visto como parte da linha-dura do regime.

Antes das declarações de Trump de que o fim da guerra está próximo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse que não há espaço para discutir um cessar-fogo enquanto os ataques ao país continuarem. Mais cedo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a ofensiva militar contra o Irã tem como objetivo enfraquecer a capacidade militar de Teerã, especialmente o arsenal de mísseis balísticos.

O diretor de portfólio da Oryx Capital, Luiz Arthur Hotz Fioreze, ressalta que há uma defasagem temporal entre a alta do petróleo e o aumento das exportações brasileiras, dado que demora certo tempo para que os novos preços sejam “internalizados nos contratos de exportação importação” – e para que o aumento de receita em dólar se reflita no mercado cambial

“A correlação entre a valorização do petróleo e a do real não é instantânea. Pesquisas indicam que o efeito de choques no preço do petróleo sobre o câmbio pode apresentar um ‘lag’ de aproximadamente 2 a 3 semanas”, afirma Fioreze.

Bolsa

Com petróleo em torno ou acima de US$ 100 por barril, as preocupações sobre a inflação global – e o correspondente efeito sobre a trajetória dos juros globais, a começar pelos dos EUA – permanecem sobre a mesa nesta semana que antecede a deliberação do Copom sobre a Selic, em 18 de março. Assim, mais uma vez, a princípio, o dia foi de cautela e de retração no apetite por risco, em reversão da tendência que se estabeleceu em meados de janeiro e foi interrompida pelo ataque ao Irã, iniciado em 28 de fevereiro por Estados Unidos e Israel.

Contudo, em direção ao fechamento da B3, novas declarações do presidente dos Estados Unidos foram recebidas com euforia no mercado global, que tirou o petróleo do positivo e o fez mergulhar em direção a uma queda de 9% nos contratos futuros do WTI, em Nova York. Em Nova York, os três índices de ações firmaram alta com os comentários, buscando máxima do dia para o Nasdaq. No fechamento, Dow Jones +0,50%, S&P 500 +0,83%, Nasdaq +1,38%.

Mais cedo, na mínima desta segunda-feira, o Ibovespa tinha resvalado para os 177.636,63 pontos, em piso que correspondeu ao menor nível intradia desde 23 de janeiro, então na casa dos 175,5 mil pontos durante aquela sessão. Considerando a mínima da sessão desta segunda, a retração do Ibovespa em relação à máxima história intradia de 192,6 mil pontos, de 25 de fevereiro, chegou a 15 mil pontos. Nesta segunda, o índice da B3 lutou e parecia que já conseguiria encerrar a sessão em leve alta, na casa de 179,5 mil pontos, tendo chegado a 180.174,13 pontos, até que as declarações de Trump fizeram ligar o turbo no apetite dos investidores, na reta final.

Dessa forma, após os comentários de Trump, o Ibovespa foi buscar máxima do dia bem perto dos 182 mil pontos, aos 181.952,23 pontos. Reforçado em direção ao fechamento, o giro foi a R$ 37,6 bilhões nesta segunda-feira. No mês, o Ibovespa ainda recua 4,17%, limitando o ganho acumulado no ano a 12,28% – na última sessão de fevereiro, que antecedeu o ataque ao Irã, o avanço estava em 17,17% em 2026. No fechamento desta segunda, mostrava alta de 0,86%, aos 180.915,36 pontos, na sessão.

“Você tinha uma narrativa muito forte de que haveria uma sobreoferta grande de petróleo neste ano”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. “Se imaginava que fosse ser negociado abaixo dos US$ 60 durante um bom período.”

“Na abertura do mercado, a gente viu o petróleo extremamente agressivo, subindo quase 20%”, aponta Pedro Moreira, sócio da ONE Investimentos, acrescentando que o “spike” – alta acentuada – decorreu da interpretação, pelos participantes do mercado, de que a escolha do filho de Ali Khamenei, morto no ataque do fim de fevereiro, para substituí-lo como Líder Supremo do Irã reforça a narrativa de resiliência ou mesmo de endurecimento do regime após o início do conflito, o que pode resultar em nova concentração de poder no país.

“O mercado voltava a projetar um conflito com duração mais longa, começando a visualizar a questão da oferta global do petróleo. E a gente já via alguns países se movimentando para começar a usar reservas estratégicas”, diz Moreira.

Também para Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, a nomeação de Mojtaba Khamenei como sucessor do pai foi interpretada como continuidade da “linha-dura do regime”, sem um viés de afrouxamento que conduzisse as partes à mesa de negociação, e a princípio sem perspectiva de resolução rápida na transição de liderança: diferentemente do que se viu no início do ano na Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro por forças especiais dos EUA.

“Ao longo do dia os preços do petróleo tiveram moderação, a princípio logo após notícias de que o G7 discute liberar reservas estratégicas para compensar eventuais interrupções de oferta e também de que a Arábia Saudita estaria ofertando petróleo no mercado à vista”, acrescenta Praça, referindo-se a desdobramentos que levaram as cotações da commodity a se afastar dos maiores níveis desde 2022, mesmo antes dos comentários de Trump no período da tarde.

Nas máximas da sessão, os barris do WTI e do Brent chegaram aos US$ 119, maior nível desde junho de 2022, depois de países árabes do Golfo terem reduzido a produção devido ao fechamento do Estreito de Ormuz por ameaças iranianas. Em Nova York, o contrato do WTI para abril fechou em alta de 4,3% (US$ 3,87), a US$ 94,77 por barril. E, em Londres, o Brent para maio subiu 6,8% (US$ 6,27), a US$ 98,96.

Nesse contexto de forte pressão sobre um insumo ainda essencial à economia global, dentre as principais ações de primeira linha na B3 apenas as de Petrobras conseguiam escapar do campo negativo na sessão, mais cedo, com a ON em alta moderada a 2,12% e a PN, de 2,49%, no fechamento.

Tal desaceleração nos papéis da estatal, contudo, foi mais do que compensada pela virada em outros carros-chefes da B3, como Vale (ON +0,51%) e em parte dos bancos, com destaque para Itaú (PN +0,54%) no fechamento. Na ponta ganhadora do índice, Azzas (+5,38%), Eneva (+4,98%) e CPFL (+3,73%). No lado oposto, MRV (-7,85%), Pão de Açúcar (-5,21%) e C&A (-3,81%).

Taxas de juros

Com investidores ansiosos por sinais que deem alguma previsibilidade para o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, as breves declarações do presidente norte-americano, de que a guerra pode terminar em breve e está quase completa, irrigaram o mercado de otimismo. As falas, que ocorreram por volta das 16h30, provocaram queda livre do dólar, das cotações de petróleo, dos retornos dos Treasuries e deram alívio à curva de juros.

Na primeira etapa do pregão, os juros curtos chegaram a avançar quase 15 pontos-base, refletindo um cenário menos convicto para um corte da Selic em março. Os juros longos, por sua vez, já subiam menos na sessão com ajuda do dólar comportado e do ambiente global de menor aversão ao risco. Por volta das 16h20, porém – pouco antes das falas de Trump – as taxas pararam de ser atualizadas. A B3 informou ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que, “por razões de ordem técnica”, a negociação dos contratos futuros de DI1 estavam “indisponíveis”, sem entrar em maiores detalhes.

Após normalização, a dinâmica era de forte queda dos DIs. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2027 recuou de 13,652% no ajuste de sexta-feira para 13,555%. O DI para janeiro de 2029 cedeu de 13,265% no ajuste anterior a 13,13%. O DI para janeiro de 2031 caiu para 13,46%, vindo de 13,648% no ajuste.

Até o início da tarde, o salto do barril do petróleo na sessão, que chegou a operar acima de US$ 100, em seu maior patamar desde junho de 2022, aumentava a probabilidade implícita na curva futura de um corte de apenas 25 pontos-base na reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. A chance de um corte de 50 pontos-base minguava.

“Eu acredito que a guerra está bem completa. Eles não possuem Marinha, comunicações ou Força Aérea”, disse o republicano por telefone à CBS News. De acordo com Trump, os EUA estão “bem adiantados” em sua estimativa inicial de duração de guerra, de 4 a 5 semanas. As falas trouxeram alento após um fluxo de notícias bastante negativo sobre a situação no Oriente Médio, como o fechamento no Estreito de Ormuz, o anúncio da nomeação de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto no conflito, como líder supremo do Irã, e redução da produção de óleo em países da região.

Depois da entrevista do líder norte-americano, a redução da Selic apontada pela curva futura em março aumentou a 32 pontos-base, vindo de 28 pontos-base por volta das 15h30, segundo cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG. A taxa Selic projetada para o final de 2026 caiu de 13,10% para 12,90%. Serrano continua prevendo que o BC vai diminuir a Selic em 0,5 ponto este mês, mas pode mudar a estimativa dependendo dos dados econômicos a serem divulgados esta semana, com destaque para o IPCA de fevereiro, e de como vão ficar as cotações do petróleo.

“Acho que a convicção de um corte de 50 pontos-base na próxima reunião ficou maior, ainda mais se de fato os anúncios que Trump fizer após o fechamento do mercado reforçarem a tendência de queda do preço do petróleo”, afirmou André Muller, economista-chefe da AZ Quest, que também prevê uma redução desta magnitude para a Selic em março.

Segundo Muller, mesmo antes dos novos prognósticos de Trump sobre o fim do conflito, a moderação da escalada do petróleo e a valorização do real ao longo do dia retiraram pressão da parte mais longa da curva. Já na parte curta, a volatilidade nas cotações da commodity energética deixaram o mercado sem parâmetro neste momento, disse. “Hoje ainda há pouca clareza, mas em tese é um choque que vai ser temporário”, avaliou.

Estadão Conteúdo

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