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Economia

Dólar avança 1,28% com exterior após alta do petróleo e dados fortes nos EUA

O real, que costuma ser mais castigado que seus pares em picos de aversão ao risco, apresentou perdas inferiores nesta quarta

Redação Jornal de Brasília

23/09/2026 18h25

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Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 23 – O dólar acentuou os ganhos frente ao real ao longo da tarde da quarta-feira, 23, alinhado à onda de valorização da moeda norte-americana no exterior. A retomada da trajetória de alta do petróleo, na esteira da frustração nas negociações entre EUA e Irã, e dados fortes da economia dos EUA impulsionaram o retorno dos Treasuries, abalando as divisas emergentes.

O real, que costuma ser mais castigado que seus pares em picos de aversão ao risco, apresentou perdas inferiores nesta quarta às de outras divisas latino-americanas. Analistas ponderam que a melhora dos termos de troca com o avanço do petróleo mitiga parte das pressões sobre a moeda brasileira, que ganhou fôlego nas últimas semanas com o acirramento da corrida presidencial.

Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada pela manhã confirmou o quadro de empate técnico entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em eventual segundo turno.

Em alta firme desde a abertura dos negócios, o dólar rompeu o teto de R$ 5,15 no fim da manhã e registrou máxima de R$ 5,1760 à tarde. Terminou o dia com avanço de 1,28%, a R$ 5,1682 – maior valor de fechamento desde 31 de agosto (R$ 5,1801). A moeda norte-americana ainda recua frente ao real no mês (0,23%), após valorização de 2,16% em agosto. No ano, as perdas são de 5,84%.

“O que mais impactou o dólar hoje foram os dados de atividade nos EUA, além da alta do petróleo, com o retorno das incertezas no conflito no Oriente Médio”, afirma o especialista em câmbio Nicolas Gomes, da Manchester Investimentos. “Os números mostram que a economia dos EUA segue aquecida, reforçando a tese da pressão inflacionária. Sem um guidance claro como havia com o último presidente do Federal Reserve, os dados econômicos ganham ainda mais peso na formação das expectativas.”

Pesquisa preliminar da S&P Global mostrou que o índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) composto – que agrega os setores de serviços e indústria – subiu em setembro mais do que as expectativas e atingiu o maior nível em 62 meses. Após cinco sessões consecutivas de baixa, coroadas na terça com a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre conversas “muito positivas” com o Irã, o petróleo voltou a subir com força após a ausência de progresso nas negociações.

O contrato do Brent para novembro fechou em alta de 2,84%, a US$ 98,12, e subia mais de 4% no pregão eletrônico, acima de US$ 100 Notícias de que o governo americano estaria elaborando um plano para proibir as exportações de diesel dos EUA por 90 dias, informação refutada pela Casa Branca, contribuíram para ampliar a aversão ao risco nos mercados ao longo da tarde.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY superou os 101,000 pontos e operava na casa de 101,100 pontos perto do fim da tarde, em alta de 0,50%, após máxima aos 101,231 pontos. Trata-se dos maiores níveis desde fins de julho.

Para o economista sênior da Nomad, Vitor Kayo, os números do PMI reforçam a leitura de que a economia americana segue “resiliente” após o Federal Reserve ter elevado a taxa de juros. “O Fed afirmou que a alta veio em um momento de economia forte e mercado de trabalho consistente com pleno emprego, reforçando que o combate à inflação segue sendo a prioridade”, afirma Kayo.

As taxas dos Treasuries subiram em bloco com a combinação de choque de energia e sinais de economia aquecida. O rendimento da T-note de 10 anos tocou o maior nível desde julho de 2007, e o do T-bond de 30 anos atingiu o pico em 22 anos. Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que as chances de uma alta de 0,50 ponto porcentual da taxa básica americana até o fim do ano se tornaram majoritárias.

Bolsa

Na hora final do pregão desta quarta-feira, 23, o Ibovespa acelerou as perdas e se acomodou na faixa dos 185 mil pontos, em resposta a uma volta da cautela no mercado com o petróleo novamente em alta, o fortalecimento da economia norte-americana e em meio às expectativas para as eleições.

No fim do dia, o principal índice da B3 caiu 0,86%, aos 185 814,09 pontos, depois de tocar a mínima de 185.676,38 pontos durante a tarde. O giro financeiro do dia foi de R$ 20 bilhões. Mesmo com a baixa desta quarta, o Ibovespa ainda acumula ganho de 4,73% no mês.

Negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), o petróleo Brent para dezembro fechou em alta de 2,84%, a US$ 98,12 o barril, impulsionando a Petrobras, que subiu quase 3% no dia. Havia grande expectativa do mercado para um avanço nas negociações entre EUA e Irã a respeito do fim da guerra no Oriente Médio, mas, sem novos passos nessa direção, o avanço da commodity reacendeu os receios sobre um movimento inflacionário no mundo.

“A base para a queda do preço do petróleo estava sustentada por expectativas frágeis de um próximo acordo entre EUA e Irã, que não se confirmou”, afirma Pedro Galdi, analista de investimentos da AGF Investimentos.

A isso se somaram os índices dos gerentes de compras (PMIs, em inglês) do setor de serviços e da indústria dos EUA, que vieram mais fortes do que o esperado e nos mais altos níveis desde 2022 “Hoje o mercado está mais pressionado pelo ambiente externo, com a alta dos Treasuries após dados fortes da economia americana, elevando as apostas em juros mais altos nos EUA”, diz Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos.

Para Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, a alta que o Ibovespa chegou a ter no começo do dia “tinha pouca convicção”, pautado apenas pelo avanço da Petrobras. Isso porque, além do ambiente externo desfavorável a ativos de risco, aspectos políticos domésticos voltaram a pesar na decisão dos investidores.

“A nova pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou o presidente Lula voltando à frente de Flávio Bolsonaro numericamente, ainda em empate técnico, e o mercado reagiu cobrando mais prêmio”, afirma o especialista. “O que está em jogo não é o nome de quem vai ganhar. É a trajetória da dívida. Enquanto não houver um sinal claro de compromisso com as contas públicas, o investidor vai continuar exigindo juros mais altos para financiar o país.”

Juros

Os juros futuros negociados na B3 fecharam em firme alta nesta quarta-feira, 23, seguindo a escalada dos Treasuries e o fortalecimento global do dólar. Dados mais fortes da maior economia do mundo ampliaram apostas de que o Federal Reserve (Fed) deve promover mais duas doses de aperto monetário daqui até o final do ano. Ao mesmo tempo, o petróleo voltou a subir após confirmações de que as conversas de terça-feira entre Estados Unidos e Irã não tiveram resultados concretos, mantendo o cenário de impasse no conflito e, consequentemente, na normalização da oferta da commodity.

Por aqui, uma agenda econômica esvaziada e a ausência de novidades no front eleitoral, com manutenção do empate técnico entre os dois principais candidatos nas pesquisas mais recentes, não deram suporte para que o viés aplicador observado nas últimas sessões tivesse continuidade hoje.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu levemente, de 13,53% no ajuste da véspera para 13,555%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 13,795%, vindo de 13,67% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 aumentou de 13,864% para 13,985%.

Às 18h01, o rendimento da T-Note de dois anos disparava de 4,747% a 4,895%, e o juro da T-Note de dez anos saltava de 4,970% a 5,115%. A curva americana acentuou o ritmo de elevação ao longo da tarde, reagindo à igual movimento do petróleo, devido ao aumento das tensões entre Washington e Teerã e à ausência de progresso nas conversas entre os dois lados.

Na tarde desta quarta, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a reunião de terça com autoridades iranianas foi “positiva”, mas sem avanço nas negociações. E o barril do Brent para dezembro, que serve de referência para a Petrobras, fechou cotado a US$ 98,12, com alta de quase 3%, mas operava acima de US$ no pregão eletrônico.

Dando mais impulso aos títulos soberanos americanos, os índices gerais de compras (PMIs, na sigla em inglês) preliminares dos serviços e da indústria do país, publicados mais cedo, não só subiram, contrariando perspectivas do mercado, como também atingiram níveis mais altos desde 2022.

“O movimento na curva americana foi muito expressivo. Os PMIs vieram bastante acima do previsto e, não isoladamente, complementam um quadro de inflação pressionada nos Estados Unidos, o que se junta à alta do petróleo”, afirma o economista do BV Carlos Lopes. Em sua visão, o deslocamento para cima da curva de juros local nesta quarta pode ser “quase totalmente” creditado ao ambiente externo.

Embora haja, no mercado, várias estimativas de que o fluxo de navegação no estreito de Ormuz – por onde escoa um quinto do petróleo global – tenha mostrado alguma recuperação nos últimos meses, qualquer percepção de que o fluxo pode ser interrompido ainda afeta as cotações da commodity energética, diz Lopes.

Em entrevista a um podcast publicada nesta quarta, o presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou que o BC americano pode precisar tratar o atual choque de energia como uma fonte de inflação persistente, em vez de esperar que ele se dissipe por conta própria em breve.

Para Carl B. Weinberg, economista-chefe da High Frequency Economics, mesmo que o Irã anuncie o desbloqueio total de Ormuz amanhã, a redução dos estoques globais e os danos causados à infraestrutura do setor petrolífero na região do Golfo Pérsico indicam que a oferta seguirá limitada.

No cenário doméstico, a pesquisa Atlas/Bloomberg, publicada antes da abertura dos negócios, mostrou que o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seguem tecnicamente empatados em eventual segundo turno, mas com ligeira vantagem do petista, que aparece com 47,7% das intenções de voto, contra 47,4% de Flávio.

Estadão Conteúdo

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