SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O dólar abriu em leve alta nesta sexta-feira (19) com os investidores acompanhando a operação da Polícia Federal que cumpre mandados de busca e apreensão contra os deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL do Rio de Janeiro e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O objetivo da operação é aprofundar investigações sobre desvios de recursos públicos de cotas parlamentares, de acordo com a corporação. Em um endereço ligado a Sóstenes, que é líder do PL na Câmara dos Deputados, a PF apreendeu cerca de R$ 430 mil em espécie.
Às 9h13, a moeda norte-americana subia 0,14%, cotada a R$ 5,5319, acompanhando a tendência de outros países. Na quinta-feira (18), o dólar fechou próximo da estabilidade, com leve alta de 0,04% e cotado a R$ 5,524. O movimento refletiu a atualização das projeções do Banco Central para o PIB (Produto Interno Bruto) e a inflação nos próximos anos, além do cenário eleitoral de 2026 no radar dos investidores.
O mercado também reagiu a dados de inflação dos Estados Unidos abaixo do esperado e a declarações Gabriel Galípolo, presidente do BC, ao longo do dia.
A Bolsa também encerrou o pregão em alta, avançando 0,37%, aos 157.923 pontos, impulsionada principalmente pelas ações do Santander.
Nesta quinta, o Banco Central divulgou o Relatório de Política Monetária. No documento, a autarquia projetou uma atividade econômica mais forte do que a prevista anteriormente para este (2,3%, ante 2% anteriormente) e para o próximo ano (1,6%, era 1,5).
Ainda de acordo com o relátorio, a inflação brasileira deverá atingir o centro da meta de 3% apenas no primeiro trimestre de 2028. A autarquia estimou que a inflação no país estará em 3,2% e 3,1 no terceiro e quarto trimestre de 2027, respectivamente. A meta, de 3%, seria alcançada no começo de 2028.
Os dados estão relacionados com a expectativa de corte de juros. Na ata da última reunião do Banco Central, divulgada na terça, o colegiado do BC afirmou que a estratégia de alta da Selic por período bastante prolongado é adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.
Nesta quinta, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a autoridade monetária não tomou uma decisão sobre um possível corte de juros na próxima reunião sobre o tema, em pouco mais de um mês. Segundo ele, a escolha vai depender da análise de dados.
“As projeções do BC afetam o preço do mercado, já que todos aguardam o início de cortes na Selic, e qual seria o tamanho e duração de um ciclo de cortes”, diz Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil. Segundo ele, o relatório diminuiu a sensação de urgência com cortes de juros.
Analistas também veem impacto dos dados de inflação dos EUA no pregão. O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos (CPI, na sigla em inglês) subiu 2,7% em novembro na base anual, informou o Departamento do Trabalho nesta quinta. Economistas consultados pela Reuters previam alta de 3,1%.
Segundo Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, o dado revela uma trajetória de inflexão dos preços. “O número reforça a leitura de que a inflação segue em um caminho consistente de redução. Mesmo com o Fed já tendo promovido o 4º corte de juros, esse movimento sustenta a tese de que a trajetória de afrouxamento monetário pode continuar”.
De acordo com a ferramenta FedWatch, entretanto, a maioria dos analistas projeta que os juros se mantenham no atual patamar de 3,5% e 3,75% (71,2%). Um corte de 0,25 ponto percentual é estimado por 28,8%.
Reduções nos juros dos EUA costumam ser uma boa notícia para os mercados globais e o oposto também é verdadeiro. Como a economia norte-americana é vista como a mais sólida do mundo, os títulos do Tesouro americana são um investimento praticamente livre de risco.
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O cenário eleitoral brasileiro também esteve no radar dos investidores. Nesta manhã, uma pesquisa sobre as eleições de 2026 foi divulgada pela Bloomberg/AtlasIntel.
O levantamento indicou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém a liderança de intenções de voto na eleição presidencial de 2026. O senador Flávio Bolsonaro (PL) tem desempenho melhor que o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) nas simulações de primeiro turno.
No cenário em que tanto Flávio quanto Tarcísio aparecem como candidatos, Lula lidera com 47,9% das intenções de voto, enquanto o senador soma 21,3% e o governador de São Paulo tem 15%.
Em cenários de segundo turno, o governador se mostra mais competitivo. Tarcísio marca 45%, enquanto o filho do ex-presidente registra 41% em ambos os cenários, Lula vence.
Além disso, em entrevista ao Valor, o presidente da federação União Brasil-Progressistas, senador Ciro Nogueira (PP), afirmou que o nome de Tarcísio não está sepultado.
“A leitura de que a pré-candidatura presidencial ainda está em aberto favoreceu uma melhora marginal do humor, permitindo recuperação do Ibovespa em direção às máximas do dia, enquanto câmbio e curva de juros passaram a devolver ganhos”, disse Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Segundo Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, o arranjo eleitoral continua impactando nos preços. “O famoso ‘Tarcísio trade’ afeta o preço da Bolsa”.
Uma eventual vitória do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) nas eleições de 2026, na análise do mercado, destravaria uma valorização ainda mais acentuada para a Bolsa e uma depreciação maior do dólar. É para esse cenário que os investidores vinham se posicionando, em operações que vinham sendo apelidadas de “Tarcísio Trade”.
Tarcísio teria uma agenda mais avessa a aumentar os gastos públicos, o que daria mais previsibilidade sobre os rumos da economia. O aumento das despesas poderia, por exemplo, forçar uma manutenção da taxa Selic em patamares elevados, já que teria o potencial de afetar a dinâmica da inflação.
A movimentação deste mês é, na visão de Alison Correia, analista de investimentos e co-fundador da Dom Investimentos, também de realização de lucros. “Não podemos esquecer que a Bolsa chegou a se valorizar quase 35% nesse ano. É bastante coisa. Qualquer tipo de incerteza, ainda mais nessa época do ano, leva o investidor a colocar dinheiro no bolso”, afirma.
Pesa, ainda, a antecipação das remessas de dividendos ao exterior. As mudanças no Imposto de Renda, que entram em vigor em 2026, aceleraram a distribuição de lucros aos sócios e acionistas de grandes empresas neste fim de ano, em um esforço para garantir a isenção dos rendimentos antes que a alíquota mínima para contribuintes de alta renda entre em vigor.