SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O dólar abriu em leve alta nesta quinta-feira (28), acompanhando o avanço da moeda norte-americana ante outras divisas de países emergentes, após EUA e Irã voltarem a se atacar no Oriente Médio, colocando em dúvida um possível acordo de paz.
Às 9h10, a moeda norte-americana subia 0,24%, cotada a R$ 5,0736. Na quarta-feira (27), o dólar fechou em alta de 0,67%, cotado a R$ 5,061, enquanto a Bolsa recuou 0,47%, aos 175.744 pontos.
Durante o pregão, investidores adotaram uma postura mais cautelosa diante das incertezas envolvendo as negociações no Oriente Médio. O pregão foi marcado por relatos conflitantes de EUA e Irã sobre possíveis avanços no conflito, o que gerou uma maior aversão ao risco.
O bloco das petrolíferas, incluindo a Petrobras, foi impactado pelo alívio nos preços da commodity, que recuou em meio às negociações no Oriente Médio. Por volta das 17h, o barril Brent, referência mundial, recuava 4,66%, a US$ 95,01. O barril WTI, utilizado nos EUA, caía 4,80%, a US$ 89,37.
As indefinições, contudo, limitaram a animação. “Mesmo com a queda do petróleo e com sinais pontuais de avanço diplomático, o mercado segue sensível ao risco de prolongamento do conflito, o que ainda mantém demanda por proteção”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Segundo a agência Reuters, a TV estatal do Irã disse que um esboço de um acordo entre o país e os Estados Unidos foi firmado.
Conforme o documento, o Irã restauraria o transporte comercial pelo estreito de Hormuz aos níveis anteriores à guerra no prazo de um mês, enquanto os Estados Unidos retirariam as forças militares das proximidades do Irã e suspenderiam o bloqueio naval.
A informação foi negada pela Casa Branca, que chamou a reportagem de uma “fabricação completa”. O presidente norte-americano, Donald Trump, ainda disse não estar satisfeito com as condições apresentadas pelo Teerã.
“O Irã está muito determinado, eles querem muito fechar um acordo. Até agora eles não chegaram lá… não estamos satisfeitos com isso, mas estaremos. Ou isso, ou teremos que terminar o trabalho”, disse.
Na segunda-feira (25), os EUA bombardearam o sul do Irã à noite. Segundo o Pentágono, os ataques foram preventivos para proteger soldados.
“Os bombardeios tiveram como alvo lançadores de mísseis e barcos que tentavam depositar minas no mar”, disse o Comando Militar Central dos EUA, responsável pelas operações no Oriente Médio.
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que os ataques representam uma violação do cessar-fogo entre os países. A Guarda Revolucionária do país defendeu seu direito à retaliação e abateu um drone americano.
O vaivém nebuloso das negociações mantém o mercado em estado de alerta para quaisquer sinalizações mais contundentes sobre um possível acordo ou um acirramento do conflito.
A guerra tem elevado as cotações do petróleo e adicionado incertezas às cadeias globais de insumos (gasolina e diesel, por exemplo), que podem forçar um repique inflacionário global.
O conflito já tem afetado as decisões de política monetária do Brasil e dos Estados Unidos. Em abril, o Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano) manteve a taxa de juros entre 3,5% e 3,75% pela terceira reunião consecutiva, citando incertezas com a guerra.No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) reduziu a Selic para 14,5% ao ano, mas evitou sinalizar cortes futuros.
Os resultados do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) acima do esperado também estiveram no radar.
A inflação medida pelo IPCA-15 desacelerou a 0,62% em maio, após marcar 0,89% em abril, apontam dados divulgados nesta quarta pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A variação de maio ficou acima da mediana das projeções do mercado financeiro, de 0,57%, segundo a Bloomberg.
Em 12 meses, o IPCA-15 passou a acumular alta de 4,64%, acima do avanço de 4,37% até abril. Assim, o índice superou o teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central), o que não ocorria desde outubro do ano passado.
O IPCA-15 é divulgado antes e tem uma composição semelhante à do IPCA. Por essas razões, sinaliza uma tendência para o segundo indicador. Uma das diferenças entre os dois é o período de coleta dos preços.
O resultado da inflação reforçou a percepção de que os juros podem permanecer elevados por mais tempo no Brasil, o que tende a favorecer o real. O cenário externo volátil, porém, seguiu pressionando os mercados e limitou os ganhos da moeda brasileira.
Para Leonel de Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, os dados mostram uma pressão inflacionária disseminada no Brasil.
“As pressões de preços dos itens energéticos, causadas pelo fechamento do estreito de Hormuz e pela preocupação com a oferta global de petróleo, têm se expandido para além dos itens relacionados à energia. Isso revela um desafio inflacionário para o Banco Central”.
André Valerio, economista sênior do Banco Inter, também destaca que o cenário reforça preocupações do BC. “A desaceleração do IPCA-15 é bem-vinda, mas não é suficiente para trazer maior tranquilidade ao Copom. O contexto é muito influenciado pelos choques de oferta da guerra e do clima, situação que deve continuar nos próximos meses com a elevada probabilidade de um El Niño forte”.