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Economia

Depósitos do Master no BC somavam menos de 1% do exigido no dia da liquidação

Essa deterioração escalou ao longo de 2025, com o descumprimento sistemático da exigência, em valores cada vez maiores

Redação Jornal de Brasília

03/02/2026 0h02

banco masterr

Foto: Divulgação

NATHALIA GARCIA E ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Na data de sua liquidação, em novembro de 2025, o Banco Master mantinha no Banco Central depósitos de apenas R$ 22,9 milhões, cifra que representa menos de 1% do montante de R$ 2,537 bilhões exigido pelo regulador ao conglomerado de Daniel Vorcaro.


Essa deterioração escalou ao longo de 2025, com o descumprimento sistemático da exigência, em valores cada vez maiores, do recolhimento dos depósitos compulsórios. Foram registrados, a partir de novembro de 2024, diversos episódios de insuficiência, conforme relato feito pelo BC ao TCU (Tribunal de Contas da União).


O Master chegou a pedir, em 8 de maio de 2025, dispensa temporária do recolhimento compulsório sobre os depósitos à vista e a prazo, mas a demanda foi rejeitada pelo BC sob a justificativa de falta de amparo legal e regulamentar.


Segundo documento encaminhado à corte de contas, o BC alertou os dirigentes do Master de que essa situação poderia levar à aplicação de medidas preventivas visando assegurar a estabilidade do sistema financeiro nacional.


A norma prevê, em casos como esse, a ida de representantes da instituição ao BC, formalizada em um documento chamado termo de comparecimento, e a apresentação de um plano a ser executado em um prazo de até seis meses. De acordo com um membro do BC, ouvido sob condição de anonimato, foram feitas mais de 30 comunicações do órgão com alertas para corrigir o problema.


A exigência formal foi determinada pelo BC um ano antes da efetiva liquidação do Master, em novembro de 2024, ainda na gestão de Roberto Campos Neto. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pela reportagem.


A atuação do banco de Vorcaro entrou na mira da autoridade monetária meses antes devido a queixas de banqueiros com relação ao plano de negócios do Master, baseado excessivamente em captações cobertas pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), e à composição de ativos em precatórios (dívidas decorrentes de sentenças judiciais), supostamente supervalorizados.


Em uma das frentes de apuração naquele ano, segundo duas pessoas com conhecimento nas discussões, Campos Neto impulsionou a realização de uma auditoria externa, conduzida por uma empresa especializada em precatórios. O cenário que demandava investigação foi desenhado pelos técnicos do BC. O relatório produzido, contudo, não indicou irregularidades.


Outra frente de trabalho se debruçou, a partir de fevereiro de 2024, sobre CRIs (certificados de recebíveis imobiliários) e carteiras de crédito estruturadas pelo Master para empresas de desenvolvimento de projetos. Chamou a atenção do BC a realização de operações com empresas desconhecidas -o que não era o caso até 2023. Os primeiros indícios de irregularidades foram observados em setembro de 2024, segundo um dos interlocutores.


Mas o aprofundamento só foi possível mais tarde, resultando no mapeamento dos supostos desvios de R$ 11,5 bilhões em fundos de investimentos administrados pela Reag, com suspeitas de terem sido usados em operações fraudulentas atribuídas ao Banco Master. Como mostrou a Folha de S. Paulo, certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) alimentavam o esquema. Do total levantado, cerca de R$ 5 bilhões correspondiam a CRIs e R$ 6 bilhões a operações de crédito.


Parte das informações foi obtida pelos técnicos do BC graças a um convênio com a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2021, para remessa de dados sobre cotistas de fundos de investimento.


Segundo a norma, administradores de fundos e instituições financeiras que atuem como distribuidores de cotas devem remeter mensalmente ao BC informações relativas aos cotistas e aos respectivos fundos de investimento. Dado o grande volume de informações, a equipe da autoridade monetária é auxiliada por recursos de inteligência artificial. O convênio, contudo, possui limitações e se restringe a fins de estabilidade financeira.


O BC não conseguiu identificar as fraudes ainda em 2024. Até aquele momento, o diagnóstico ficou restrito à insuficiência de capital. Os detalhes da supervisão do Master feita pelo BC, nos últimos anos, estão sendo escrutinados para averiguar se a autoridade monetária poderia ter agido diferente ao identificar problemas na atuação do banco de Vorcaro e decretado a liquidação mais cedo.


Em depoimento à Polícia Federal em dezembro de 2025, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, afirmou que a crise de liquidez do Master era muito clara e que estava em curso um processo administrativo pela deficiência no recolhimento do compulsório.


“A pergunta central é como alguém que não tinha liquidez poderia gerar tanto crédito nesta magnitude para ceder ao BRB [Banco de Brasília]? […] Isso, obviamente, como supervisores, levanta um alerta”, afirmou.


No documento enviado ao TCU, o BC disse que, no primeiro semestre de 2024, realizou um acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez do Master e determinou a adoção de providências, bem como a apresentação de plano de contingência.


Segundo a autoridade monetária, no segundo semestre de 2024, houve frustração das captações institucionais previstas no plano de negócios. Somente R$ 2 bilhões de um total de R$ 15 bilhões previstos foram efetivamente captados.


Ainda assim, o Master manteve a contratação de operações estruturadas de longo prazo e reduzida liquidez. Mas, a partir de novembro de 2024, o banco não conseguiu mais rolar a totalidade de obrigações vencidas captadas via plataformas de investimento.


Após receber a advertência do BC quanto à falta de liquidez, o Master tomou providências como cessão de carteiras e interrupção da concessão de operações de crédito corporativo. Além disso, iniciou a busca de instituições financeiras interessadas em eventual reorganização societária, com alienação parcial ou total de entidades do conglomerado.


Em 8 de abril de 2025, o BC informou ao Master que as ações adotadas até aquela data eram insuficientes para mitigar o risco de liquidez do grupo, indicando a incapacidade do banco de honrar com o recolhimento dos depósitos compulsórios.


Uma semana depois, o Master procurou o FGC, que aceitou fornecer assistência financeira de curto prazo à instituição. O banco de Vorcaro realizou captações garantidas pelo fundo de R$ 90,2 milhões até 1º de outubro de 2025. Nesse período, o FGC prestou assistência de liquidez de R$ 4,3 bilhões.


Em maio do ano passado, começaram as tratativas para venda de ativos pessoais de Vorcaro ao BTG, o que possibilitou a entrada de R$ 954 milhões no conglomerado. Dois meses depois, foram colocadas à venda ações da seguradora Kovr, o que rendeu outros R$ 418,6 milhões.


Em agosto, o BC aprovou a transferência do controle societário do Banco Voiter para Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master. No mês seguinte, registrou a alienação do Itaminas Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia por R$ 401 milhões.


Em 4 de setembro, foi firmado um novo termo de comparecimento entre o Master e o BC, com a exigência de recomposição da liquidez do banco em até dois dias úteis. Esse prazo acabou prorrogado até 30 de setembro após a entrada de recursos da venda da Kovr e da prorrogação da assistência do FGC até 1º de outubro.


No mesmo mês, o BC rejeitaria a compra do Master pelo BRB -transação que englobava R$ 23 bilhões em ativos. A avaliação do caso durou cerca de cinco meses.


O Master apresentou então um novo plano, que se sustentava na prorrogação da assistência financeira do FGC até dezembro de 2026. No entanto, as últimas negociações com o fundo resultaram na extensão daquela linha apenas para o Will Bank.


“A busca de solução de menor custo para a sociedade sempre esteve na pauta de todas as ações do BCB [Banco Central do Brasil], fosse sob a forma de solução negociada de mercado ou de saída organizada, fosse por meio da redução gradual das atividades e da interrupção de captações para prevenir o aumento de prejuízos potenciais aos credores”, justificou o BC ao TCU.


A autoridade monetária disse ainda que tratativas para sanar a situação do Master, tais como a negociação com o BRB e a venda de ativos próprios do controlador para recomposição do caixa do conglomerado, não produziram o efeito esperado. Uma vez esgotadas as alternativas, optou por decretar a liquidação do Master.


LINHA DO TEMPO

  • Fevereiro de 2024: BC analisa CRIs (certificados de recebíveis imobiliários) e carteiras de crédito estruturadas pelo Master para empresas para desenvolvimento de projetos.
  • Abril de 2024: Campos Neto impulsiona a realização de uma auditoria externa no Master, conduzida por uma empresa especializada em precatórios. Não são identificadas fraudes.
  • Novembro de 2024: Master se compromete, em termo de comparecimento, a tomar providências como cessão de carteiras e interrupção da concessão de operações de crédito corporativo. Além disso, inicia a busca de instituições financeiras interessadas em eventual reorganização societária, com alienação parcial ou total de entidades do conglomerado.
  • 28 de março de 2025: BRB anuncia aquisição do Banco Master; operação depende de aval do Banco Central.
  • 8 de abril de 2025: BC informa ao Master que as ações adotadas eram insuficientes para mitigar o risco de liquidez do grupo, indicando a incapacidade do banco de honrar o recolhimento dos depósitos compulsórios.
  • 15 de abril de 2025: Master solicita assistência financeira de liquidez ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
  • Maio de 2025: início das tratativas para venda de ativos pessoais de Vorcaro ao BTG, o que possibilitou a entrada de R$ 954 milhões no conglomerado.
  • Julho de 2025: início das tratativas para venda de ações da seguradora Kovr, o que rendeu outros R$ 418,6 milhões.
  • Agosto de 2025: BC aprova a transferência do controle societário do Banco Voiter para Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master.
  • Setembro de 2025: registro da alienação do Itaminas Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia por R$ 401 milhões.
  • 4 de setembro de 2025: Master e BC firmam novo termo de comparecimento, com a exigência de recomposição da liquidez do banco em até dois dias úteis. Esse prazo acaba prorrogado até 30 de setembro.
  • 3 de setembro de 2025: BC rejeita a compra do Master pelo BRB.
  • 18 de novembro de 2025: BC decreta liquidação do Banco Master.

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