NATHALIA GARCIA
FOLHAPRESS
O déficit nas contas externas do Brasil somou US$ 68,8 bilhões no ano passado, o equivalente a 3,02% do PIB (Produto Interno Bruto), e atingiu o pior resultado nominal desde 2014, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (26).
Um ano antes, o resultado foi deficitário em US$ 66,2 bilhões, correspondente a 3,03% do PIB. Houve um aumento anual do saldo negativo de 3,9%. O rombo de 2025 foi o pior para um ano fechado desde 2014, quando o déficit em transações correntes somou US$ 110,5 bilhões (4,5% do PIB). A série histórica do BC tem início em 1995.
O resultado das transações correntes é composto pelo desempenho da balança comercial (importações e das exportações de mercadorias), serviços (gastos de brasileiros com transportes, seguros e viagens, por exemplo) e rendas (como lucros e dividendos remetidos do Brasil para o exterior e outros fatores).
De acordo com o BC, o aumento de US$ 2,6 bilhões no rombo de 2025 deve-se à redução de US$ 5,9 bilhões no superávit da balança comercial, parcialmente compensado pela redução no déficit de serviços (US$ 2,2 bilhões), e pelo aumento no superávit de renda secundária (US$ 1 bilhão). O déficit em renda primária, por sua vez, manteve-se no patamar observado em 2024.
Fernando Rocha, chefe departamento de Estatísticas do BC, destaca que o país teve um aumento na corrente de comércio tanto na balança comercial de bens quanto na balança comercial de serviços.
A entrada de investimentos diretos no país foi superior ao déficit das contas externas, financiando o saldo negativo das transações. No ano passado, os investimentos diretos totalizaram US$ 77,7 bilhões (3,41% do PIB), ante US$ 74,1 bilhões (3,39% do PIB) em 2024, o que representa um aumento de 4,8%.
“A gente teve, para o ano fechado, resultados equivalentes: déficits de 3% do PIB em 2025 e 2024 considerando as transações correntes, e ingressos líquidos de IDP [investimento direto no país] de 3,4% do PIB em 2025 e 2024. Isso mostra que a gente passou o ano de 2025 com valores de IDP e transações correntes bastante similares”, afirma Rocha.
“A diferença entre eles é de 0,4 ponto percentual do PIB, que dá cerca de US$ 8,9 bilhões. Reafirma uma situação de contas externas do país bastante sólida e com déficit de transações correntes inteiramente financiado pelos fluxos de investimento direto no país”, acrescenta.
O técnico do BC ressalta que os investimentos em portfólio no país e em títulos de renda fixa feitos por investidores estrangeiros também foram fontes de financiamento externo em 2025.
No caso dos investimentos estrangeiros em carteira, houve acúmulo de US$ 15,3 bilhões no ano passado.
Em 2024, essa rubrica tinha registrado saída de cerca de US$ 5 bilhões. “Uma virada de US$ 20 bilhões de ingressos líquidos dessa modalidade no país, mostrando a sua condição de fonte complementar de financiamento das transações correntes em 2025”, diz Rocha.
O BC projetava para 2025 déficit em transações correntes de US$ 76 bilhões (3,3% do PIB) e previsão de entrada líquida em investimento direto no país de US$ 75 bilhões (3,3% do PIB). Os dados constam no relatório trimestral de política monetária divulgado em dezembro.
Para 2026, a autoridade monetária projeta déficit em transações correntes de US$ 60 bilhões, com ingresso líquido de investimentos diretos no país estimado em US$ 70 bilhões.
No caso das viagens internacionais, os gastos de brasileiros no exterior tiverem crescimento em 2025 e somaram US$ 21,7 bilhões. Um ano antes, as despesas totalizaram US$ 19,7 bilhões. No ano passado, o déficit nessa modalidade atingiu R$ 13,9 bilhões, o maior valor nominal desde 2014, quando o país sediou a Copa do Mundo e foi registrado saldo negativo de US$ 18,7 bilhões.
As estatísticas mostram também que houve fuga de dólares do país em 2025. O fluxo negativo foi de US$ 31,95 bilhões no ano passado. Essa foi a segunda maior saída líquida anual de dólares na série histórica do BC, iniciada em 1982. O resultado só perde para o fluxo registrado em 2019, de US$ 44,768 bilhões.
Pela via financeira, o Brasil registrou a saída de US$ 81 bilhões, também a segunda maior da história em termos nominais. Em 2024, o fluxo negativo por esse canal foi de US$ 87,6 bilhões.
O fluxo financeiro está relacionado à entrada e à saída de dólares no mercado de capitais, com operações referentes a, por exemplo, investimentos em títulos, remessas de lucros e dividendos no exterior e investimentos estrangeiros diretos.