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Economia

Crescimento acima do potencial, inflação alta e juros elevados: entenda os desequilíbrios do Brasil

Na leitura dos analistas, por trás dessa combinação perversa está o aumento do número de medidas que acabam estimulando a economia

Redação Jornal de Brasília

15/06/2026 6h15

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Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Os números recentes da economia brasileira mostram que o País tem acumulado uma série de desequilíbrios. O Brasil cresce além do seu potencial, turbinado por vários incentivos fiscais; a inflação está acima do teto da meta, com as projeções para os próximos anos subindo; e a taxa básica de juros (Selic) pode parar de cair em breve.

Na leitura dos analistas, por trás dessa combinação perversa está o aumento do número de medidas que acabam estimulando a economia, o que leva o Brasil a crescer acima da sua capacidade, piorando o cenário de inflação e, consequentemente, de juros. Tudo isso num cenário internacional que se tornou mais difícil nos últimos meses.

Os especialistas chamam a atenção para o fato de que esse modelo está próximo do fim: 2027 será decisivo para o País endereçar a questão das contas públicas, reduzindo o espaço para estímulos.

“Eu brinco que o Brasil tem um equilíbrio imaginário”, afirma Luis Otávio Leal, economista-chefe e sócio da G5 Partners. “Temos uma economia que cresce entre 2% e 3%, uma taxa de desemprego na mínima histórica e crescimento da renda muito forte nos últimos anos. Também temos uma inflação que diverge da meta e uma taxa de juros extremamente elevada, o que leva a um endividamento das famílias e das empresas. Esse pseudoequilíbrio não é sustentável.”

Em meio ao cenário eleitoral competitivo, o governo Lula adotou uma série de políticas para tentar alavancar a popularidade da atual gestão. São várias as medidas em curso que têm estimulado a economia, como, por exemplo, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o Gás do Povo e o novo Desenrola. Juntas, as medidas anunciadas desde o ano passado já somam R$ 212 bilhões — o equivalente a 1,7% do PIB, segundo cálculos da Tendências Consultoria.

“Isso acaba jogando a economia num estado de crescimento mais artificial”, diz Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria. “Mesmo com a taxa de juros elevada, a economia brasileira ainda mostra uma resiliência.”

Mais do que as medidas de curto prazo, o Brasil ainda lida com um Orçamento engessado e com o aumento das chamadas despesas obrigatórias, como as da Previdência e as do Benefício de Prestação Continuada (BPC), sobretudo pela volta da política de valorização real (acima da inflação) do salário mínimo.

“Temos programas que são meritórios e fazem sentido, mas alguns deles dão um incentivo adicional à demanda”, afirma Alessandra.

Procurado, o Ministério da Fazenda aponta que a atribuição de que a economia brasileira opera acima do seu potencial por causa dos “estímulos fiscais recentes não reflete integralmente o quadro observado”. Em nota, a Pasta informou que “o Impulso Estrutural do Gasto (IEG) foi contracionista ao longo de quatro trimestres seguidos, entre meados de 2024 e o primeiro semestre de 2025, o que aponta para uma política fiscal que tem atuado no sentido de reduzir pressões sobre a demanda agregada, e não de ampliá-las.”

Trajetória da dívida preocupa

A trajetória da dívida brasileira em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) é monitorada de perto pelos investidores, pois ela se tornou elevada para uma economia emergente, como é o caso do Brasil. Com uma percepção de risco maior, os investidores cobram um retorno maior para comprar títulos do Tesouro, como ocorreu nas últimas semanas.

Hoje, o cenário é agravado porque não há uma sinalização de que esse aumento será controlado no curto prazo. Nas projeções dos analistas consultados pelo Banco Central, a dívida bruta deve chegar a 99,40% do PIB em 2035.

“A situação fiscal brasileira deteriora-se em velocidade preocupante. Desde o início do atual governo, a dívida bruta cresceu quase nove pontos porcentuais do PIB, dos quais cerca de cinco pontos se concentraram apenas nos últimos 12 meses”, afirma Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management. “O arcabouço fiscal vigente mostrou-se insuficiente para estabilizar a dívida, mesmo que em patamar elevado.”

“À medida que retornarmos ao padrão estrutural de crescimento de cerca de 1,5% ao ano, com as desacelerações cíclicas que caracterizam a volatilidade do nosso PIB, o quadro fiscal ficará ainda mais desafiador”, acrescenta.

O Congresso também tem tido a sua parcela de responsabilidade na deterioração fiscal do País, com a aprovação de uma série de pautas-bomba, piorando o quadro das contas públicas. Um cálculo dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento mostrou que nove proposições que tramitam no Congresso podem ter um impacto fiscal estimado em R$ 111 bilhões por ano.

Na quarta-feira, 10, o Senado aprovou o projeto que prevê a renegociação de dívidas rurais com uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. No mesmo dia, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, por votação simbólica, uma Proposta de Emenda à Constituição que trata de regras para a contratação e aposentadoria das carreiras dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE).

“O problema central não é apenas o nível atual da dívida, mas a percepção crescente de que o País perdeu a capacidade política de controlar o crescimento das despesas obrigatórias. E o custo desse descontrole já se anuncia: mais inflação, menos crescimento e juros longos que não cedem”, afirma Solange. “Esse ambiente restringe severamente o Banco Central.”

Sobre a fragilidade apontada em relação ao arcabouço fiscal, a Fazenda argumenta que a regra foi concebida “para assegurar a sustentabilidade da dívida pública com ajuste gradual e previsível.” O ministério ainda destaca que “as expectativas de mercado convergem para o início da apuração de superávits primários no início da década de 2030″ e que o “governo avalia, contudo, que há condições para que essa estabilização ocorra antes desse horizonte.”

Cenário externo complica ainda mais a situação do País

Esses sinais preocupantes com a economia brasileira se avolumaram num momento de piora do cenário internacional, diante da disparada do preço do petróleo e do aumento da inflação global, o que levou os principais bancos centrais do mundo a mudarem o rumo da política de juros. Na quinta-feira, 11, o Banco Central Europeu (BCE) elevou a taxa de juros em 0,25 ponto porcentual. Por ora, há uma expectativa relevante por parte do mercado de que o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) também possa subir os juros neste ano.

Juros mais altos em economias consideradas mais seguras tendem a tirar recursos de países emergentes, como é o caso do Brasil.

“Para economias emergentes, isso significa um mundo com dólar menos fraco e investidores muito mais seletivos, em que fragilidades domésticas são penalizadas com mais rapidez. O Brasil não poderá contar com condições externas favoráveis para compensar erros de política econômica por muito mais tempo”, afirma Solange.

Na quarta-feira, 17, será a vez do Comitê de Política Monetária (Copom) anunciar a sua decisão para a Selic, atualmente em 14,50% ao ano. A expectativa majoritária é de um corte de 0,25 ponto porcentual. Mas o que o mercado vai querer saber mesmo é quais serão os próximos passos da autoridade monetária.

“O cenário externo não ajuda. Mas eu acho que a situação da inflação no Brasil, nesse momento, tem pouco a ver com a guerra. Mesmo que não houvesse a guerra, teríamos um cenário de inflação desafiador”, afirma Leal.

“A guerra torna o clima mais pesado. Talvez, se o clima estivesse melhor, o mercado poderia ter um pouco mais de paciência com o cenário inflacionário, e a gente poderia ter avançado um pouco mais com o corte de juros”, diz.

Ao longo do ano, o mercado foi revisando para cima as suas previsões para a Selic diante da piora do cenário de inflação. Parte do mercado avalia que a taxa básica de juros pode encerrar o ano no patamar de 14% — ela terminou 2025 em 15%. Na pesquisa Focus, divulgada semanalmente pelo Banco Central, a projeção mais recente é de que os juros encerrem o ano em 13,50%. Em janeiro, a expectativa era de que pudessem recuar para o patamar 12,25% em 2026.

“Agora, a gente entra no momento de desaceleração da economia, um movimento que estamos vivenciando desde o ano passado. É um crescimento que começou a deixar de ser mais orgânico e passou a vir mais de uma pressão de demanda, especialmente uma demanda causada pelo regime fiscal e que, na verdade, trouxe um processo inflacionário mais preocupante de novo”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Em 2026, os economistas consultados pela pesquisa do BC estimam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar o ano em 5,11% — acima da meta (3%) e do teto (4,5%). No início do ano, a expectativa era de 4,06%. Além dos estímulos fiscais, a inflação brasileira sente o impacto do aumento da cotação do petróleo e ainda lida com o risco do super El Niño.

Os números de inflação também estão maiores para os anos seguintes e, portanto, se afastando do centro da meta.

“É uma economia que já estava em desaceleração e que traz uma ideia de que, chegando em 2027, vai ser necessário um ajuste fiscal mais significativo. Há uma percepção de um risco muito grande que vem pela questão fiscal e será necessário, de alguma forma, passar por um ajuste mais significativo no ano que vem”, diz Vale.

Na nota enviada ao Estadão, a Fazenda avalia que os “dados disponíveis não sustentam a tese de desancoragem estrutural das expectativas de inflação”. A Pasta também diz que “há, de fato, revisões altistas nas projeções de curto prazo, refletindo um processo de acomodação de cenários diante de choques recentes”, mas “esse fenômeno é distinto, porém, de uma desancoragem estrutural das expectativas.”

Sobre a trajetória da Selic, o ministério afirma que “o próprio mercado, via Focus, já projeta a Selic se estabilizando em 10,00% ao longo de 2028 e 2029, o que indica que, uma vez superado o choque imediato, a expectativa é de convergência a um patamar mais moderado.”

Estadão Conteúdo

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