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Economia

Credcesta, do Master, é irregular, omite juros e contratos serão cancelados, diz presidente do INSS

O produto, criado em 2018 por Augusto Lima, que viria a se tornar sócio de Daniel Vorcaro no Master, se expandiu por 24 estados e 176 municípios, com foco em servidores públicos nas esferas estaduais e municipais.

Redação Jornal de Brasília

02/03/2026 23h31

gilberto waller júnior inss (1)

Luis Macedo/Câmara dos Deputados

VINICIUS SASSINE
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESSS)

O presidente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), Gilberto Waller Júnior, afirmou à reportagem que o Credcesta, operado pelo Master nos últimos anos e um dos motores do crescimento do banco antes da derrocada, é um cartão de benefício consignado com operação irregular, sem amparo legal e com possibilidade de incidência de juros sobre juros nos contratos firmados.


O produto, criado em 2018 por Augusto Lima, que viria a se tornar sócio de Daniel Vorcaro no Master, se expandiu por 24 estados e 176 municípios, com foco em servidores públicos nas esferas estaduais e municipais.


Em 2022, o modelo foi levado ao INSS, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Uma MP (medida provisória) permitiu que a modalidade de crédito consignado fosse contratada por aposentados e pensionistas.


Por meio de um acordo de cooperação técnica com o governo federal, entre setembro de 2020 e setembro de 2025, o Master operou em todas as linhas de consignados do INSS.
A partir de uma análise dos contratos firmados pelo banco, Waller Júnior afirma ter constatado que a lógica do Credcesta é fazer a migração de uma modalidade de crédito para outra, o que é irregular e ilegal, de acordo com o presidente do INSS.


“Quando se faz um [contrato de] Credcesta, ele começa com o empréstimo pessoal. Havendo margem, esse crédito pessoal migra para o crédito consignado. Na visão do INSS, isso é irregular”, disse o presidente. “Nosso aposentado e pensionista têm de assinar um crédito consignado do INSS com todas as cláusulas e informações específicas.”


Em nota, a defesa de Vorcaro afirmou que o Master respeitou as normas e procedimentos do INSS.
“O banco sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”, disse.


O Banco Central, responsável pelo processo de liquidação, não respondeu aos questionamentos da reportagem.


Esses contratos do Credcesta serão cancelados, segundo Waller Júnior, a partir da constatação de que os termos contratuais adotados são nebulosos –sem clareza, por exemplo, sobre a taxa de juros que predomina e que é cobrada do beneficiário, a partir da migração de uma modalidade de crédito para outra.


“Quando vai ser feito um consignado, tem de ser um contrato específico, com a taxa de juro, custo efetivo e demonstração de que não há nenhum custo adicional naquele contrato”, disse o presidente do INSS.


Segundo Waller Júnior, quando se migra de um contrato a outro, podem incidir juros sobre juros, uma vez que se deixa o empréstimo pessoal, com taxa mais alta, para um consignado com menor taxa. “Não há como comprovar que, nessa migração, aquela taxa de juros mais alta foi retirada. Essa migração aparenta muito mais uma forma de proteção ao crédito do Master.”


Os cancelamentos serão informados à Justiça Federal no DF, uma vez que uma decisão judicial obrigou que os descontos dos empréstimos consignados, que haviam sido bloqueados pelo INSS, sejam depositados em uma conta judicial, como forma de preservar ativos após a liquidação do Master. A liquidação foi decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.


O INSS permite três modalidades de crédito que podem ser descontadas nas aposentadorias.


O mais antigo é o empréstimo consignado tradicional, que tem valor e prazo definidos, com descontos de parcelas fixas. Já o cartão de crédito consignado permite saques em dinheiro, e o valor mínimo é descontado mensalmente da aposentadoria; o restante da dívida cai no rotativo, e aumenta, se não for quitado.


Benefício consignado, opção em que o Credcesta se encaixa, vai além. Permite saques, cai no rotativo, mas prevê taxas de juros menores e conta com serviços adicionais, como cartão de compras, desconto em farmácia e auxílio-funeral.


Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo em 13 de fevereiro mostrou que documentos do INSS -elaborados a partir de dados extraídos pela Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social)- registram uma explosão de contratos do Credcesta.


As operações, conforme os dados compilados pelo INSS, saltaram de 104,8 mil contratos em 2022 para 2,75 milhões de contratos em 2024, um aumento de mais de 2.500% num intervalo de dois anos.
Em 2025, o Master encerrou o ano com 324.849 contratos ativos relacionados a crédito e benefício consignado, conforme o INSS.


O próprio instituto aponta falhas e verifica se esses contratos são regulares. O MPF (Ministério Público Federal) no DF, que investiga os consignados do Master por meio de um inquérito civil público, afirma que o salto exponencial se deu “sem explicação econômica-empresarial evidente”.


Executivos que atuam no setor consideram difícil que o Master tenha conseguido chegar a 2,75 milhões de contratos na modalidade de benefício consignado.


Uma possibilidade para esse número, conforme o presidente do INSS, é a consolidação de diversos contratos de empréstimo num crédito único, do Credcesta. Esse tipo de migração, segundo ele, não está autorizado pelo INSS e só poderia ser feito com um contrato específico de refinanciamento, devidamente autorizado, com clareza sobre valor, taxa de juros e parcelas cobradas.


“Fizeram um contrato guarda-chuva. Qualquer coisa migrava de um para outro”, disse Waller Júnior.


O INSS detectou ainda que o Master não subia os contratos para a plataforma da Dataprev, o que impedia uma análise sobre a regularidade da contratação. “Essa análise de regularidade nunca tinha sido feita. A gente começou a fazer esse trabalho em junho [de 2025], quando cheguei aqui [para o cargo de presidente do INSS]”, afirmou o presidente da autarquia.


Waller Júnior é procurador federal e foi nomeado pelo presidente Lula (PT) em meio à crise no INSS –o ex-presidente do órgão Alessandro Stefanutto foi preso pela PF, em novembro, em razão da suspeita de participação no esquema de fraudes e descontos indevidos em aposentadorias e pensões.


Os contratos só foram informados à Dataprev, segundo o atual presidente do INSS, no momento em que o Master tentou garantir a continuidade do acordo de cooperação técnica para operação do consignado. Esse acordo deixou de ser renovado em setembro de 2025. “Quando eles subiram os contratos, a gente verificou a fragilidade”, afirmou Waller Júnior.


Todos esses fatores dificultaram a fiscalização do Credcesta, disse. “A nossa maior preocupação agora é devolver o dinheiro para os aposentados, de forma que eles não fiquem no prejuízo. E vamos verificar se ocorreu fraude ou não para poder apurar via lei de responsabilização de pessoa jurídica.”

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