IDIANA TOMAZELLI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Os Correios preparam uma nova consulta aos bancos para contratar um segundo empréstimo e financiar seu plano de reestruturação, mas o valor pleiteado será menor do que os R$ 8 bilhões planejados inicialmente.
Segundo integrantes da companhia, o novo pedido de crédito deve ficar entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões. A operação também terá garantia da União, que honrará os pagamentos em caso de inadimplência.
Interlocutores que acompanham o tema afirmam que alguns dos custos projetados não se concretizaram, assim como houve melhora no fluxo de caixa previsto para os próximos meses, a partir de iniciativas que não haviam sido incluídas no planejamento financeiro da estatal.
A negociação de valores em atraso com fornecedores, por exemplo, saiu melhor que o esperado. O comando dos Correios aprovou uma regra interna pela qual credores que dessem desconto de 100% de juros e multas teriam prioridade nos pagamentos. Com isso, 97% dos contratos com valores em aberto já foram negociados, e houve uma economia de R$ 260 milhões em relação ao estimado.
A empresa também conseguiu parcelar o pagamento de cerca de R$ 700 milhões em sentenças judiciais, com três meses de carência e outros nove meses para o efetivo repasse dos valores. Embora não haja desconto envolvido, a medida alivia o fluxo de caixa da companhia.
Na avaliação da companhia, essas medidas ajudam a reduzir a necessidade de captação de recursos por meio do empréstimo. A recuperação de receitas, por sua vez, ainda não deu o efeito esperado, mas há a expectativa de melhora nos próximos 12 meses a partir da retomada de rotas de entrega de parceiros estratégicos.
Por outro lado, técnicos do governo reconhecem que, em tratativas informais conduzidas nas últimas semanas, os bancos sinalizaram pouco apetite em atender integralmente ao pleito inicial de R$ 8 bilhões extras. Por isso, a redução do valor também é uma forma de se adequar ao interesse do mercado na operação.
No fim de 2025, um grupo formado pelos cinco maiores bancos do país -Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander- concedeu um primeiro crédito de R$ 12 bilhões aos Correios. Há uma avaliação entre participantes da primeira operação de que o interesse dessas instituições numa segunda rodada pode ser reduzido ou até nulo.
A Caixa, por exemplo, tem dado sinalização de que só entrará na nova rodada caso seja necessário e em sindicato com outros bancos, dividindo a responsabilidade com os demais interessados. Outras instituições também devem cobrar os primeiros resultados do plano de reestruturação para decidir se entram ou não na operação.
No ano passado, os Correios chegaram a negociar o empréstimo com BTG Pactual, ABC Brasil, Citibank e JP Morgan, mas a operação foi rejeitada pelo Tesouro Nacional devido à taxa de juros, considerada elevada para um contrato com garantia soberana (que resulta em risco quase nulo de perdas para os bancos).
A consulta a ser lançada esta semana é uma forma de a empresa testar o apetite dos bancos e dimensionar quanto exatamente as instituições estão dispostas a emprestar na nova rodada. A companhia pretende fazer uma nova projeção de seu fluxo de caixa no mês de maio, o que pode interferir no valor a ser captado no mercado.
O foco dos Correios se voltou novamente à operação de crédito diante da sinalização do Ministério da Fazenda de que um aporte de recursos na companhia deve ficar para 2027.
O contrato do primeiro empréstimo de R$ 12 bilhões obrigou a Fazenda a se comprometer com um aporte de pelo menos R$ 6 bilhões até o ano que vem. Para os Correios, seria melhor se a injeção de recursos ocorresse ainda neste ano, mas o governo pretende empurrar para 2027 diante da falta de espaço no Orçamento em ano eleitoral.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, a empresa tenta levantar os recursos necessários até junho de 2026, em uma tentativa de afastar o risco de uma nova crise em pleno período eleitoral, o que teria reflexos negativos para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No fim do ano passado, com a demora na efetivação do empréstimo, os Correios precisaram remanejar recursos internos para conseguir pagar em dia o 13º salário dos empregados. Já o Ministério da Fazenda teve que entrar no circuito e chamar uma reunião com executivos dos bancos privados para pedir que entrassem na operação.
A consulta sobre a nova operação deve ser lançada em meio a uma reestruturação na diretoria-executiva dos Correios.
O comando da empresa decidiu trocar mais dois diretores: o de Operações, Sérgio Kennedy Soares Freitas, e a diretora Econômico-Financeira, Loiane Bezerra de Macedo.
Segundo interlocutores, os substitutos serão de perfil técnico e ainda terão seus nomes submetidos a comitês internos da companhia, que é chefiada por Emmanoel Rondon.
A indicação de Kennedy era atribuída ao Podemos. Sua saída chegou a ser planejada no fim do ano passado, mas a mudança acabou sendo suspensa após integrantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva reclamarem do nome escolhido para substituí-lo.
Na ocasião, o cotado era José Marcos Gomes, que havia sido superintendente dos Correios em São Paulo durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), o que foi considerado um laço indesejado pelo Executivo.
Já Macedo era funcionária da Caixa Econômica Federal, onde atuou por 18 anos antes de assumir a diretoria nos Correios. Ela foi nomeada pelo antecessor de Rondon, Fabiano Silva dos Santos, e mantida no cargo após a mudança de gestão.
Reconduzidos ao posto no fim do ano passado, Kennedy e Macedo tinham mandato até 6 de agosto de 2027 -ou seja, serão destituídos antes do fim do período programado.
No fim de janeiro de 2026, deixou o cargo o diretor de Administração, José Rorício Aguiar de Vasconcelos Junior, cuja indicação era atribuída ao deputado Juscelino Filho (União Brasil-MA), ex-ministro das Comunicações -pasta à qual os Correios são vinculados.
A diretoria de Administração cuida da gestão de contratos. Até agora, o cargo de Rorício ainda não foi preenchido. Por enquanto, quem assumiu as atribuições foi o diretor de Negócios, Hilton Rogério Maia Cardoso, também ligado ao União Brasil.
Interlocutores relatam que Juscelino Filho tenta manter influência sobre a escolha do novo diretor de Administração da companhia. Procurado por meio de sua assessoria, o deputado não respondeu.