Cláudio Caxito e Gustavo Henrique Braga
claudio.caxito@jornaldebrasilia.com.br e gustavo.braga@jornaldebrasilia.com.br
Nesta entrevista concedida ao Jornal de Brasília, o embaixador no Brasil da Coreia do Sul, Kyonglim Choi, reafirmou os interesses em comum que os dois países enquadrados no grupo dos emergentes podem defender em conjunto nas negociações travadas com a comunidade internacional. Entre os tópicos abordados estão as reformas no Fundo Monetário Internacional (FMI) e na Organização das Nações Unidas (ONU), com destaque para a pretensão brasileira de conquistar um assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU. Para se ter uma
ideia, o maior parceiro comercial da Coreia do Sul na America Latina, atualmente, é o Brasil. Nos últimos 15 anos, os fluxos comerciais quase quintuplicaram, até US$ 9 bilhões, no ano passado. Além disso, Choi explicou o interesse de empresas sul-coreanas em investir aqui, inclusive com participação do projeto de criação de um trem de alta velocidade que ligará o Rio a São Paulo. O embaixador reafirmou, ainda, a postura sul-coreana quanto ao uso da tecnologia nuclear para fins pacíficos, bem como sobre as relações com a vizinha do Norte.
Como o sr. avalia as relações entre Brasil e Coreia do Sul?
A Coreia e o Brasil celebraram, no ano passado, 50 anos do estabelecimento de relações diplomáticas. Ao longo deste meio século, pôde ser verificado um grande desenvolvimento no relacionamento bilateral nas áreas da política, economia e cultura. Ambos os países têm um grande espaço para mútua cooperação, pois fazem parte do grupo dos países emergentes que representam relevante importância no cenário internacional. Assim, penso que a relação entre os dois países continuará a expandir.
O maior parceiro comercial da Coreia do Sul na America Latina é o Brasil. Nos últimos 15 anos, os fluxos comerciais quase quintuplicaram, até US$ 9 bilhões, no ano passado. A que se deve esse crescimento, na sua opinião?
Nos últimos 15 anos, o volume do comercial internacional da Coreia cresceu 3.5 vezes. Em relação ao Brasil, o crescimento quintuplicado, o que demonstra que, com o Brasil, houve um crescimento mais acelerado. Essa aceleração vem a provar que, se antes a grande distância geográfica era um elemento desmotivador para as relações entre a Ásia e a América Latina, o desenvolvimento na área de telecomunicações e nos modais de transportes bem como a globalização econômica, essas regiões estão num processo de aproximação cada vez
maior, ocorrendo o mesmo fenômeno na área de comércio exterior. Em especial, considerando que o Brasil e a Coreia são países que apresentaram um crescimento bastante rápido de suas economias, é possível afirmar que, para estes países, a necessidade de se buscar uma melhor eficácia da complementaridade industrial, por meio daampliação do intercâmbio comercial, é, comparativamente, maior que em relação a outros países da América Latina.
Quais os principais investimentos sul-coreanos no Brasil e como eles podem ser ampliados?
As indústrias coreanas têm trazido investimentos em diversos setores econômicos do Brasil. Notadamente, produtos como os aparelhos de TV e celular, entre outros, representam o advento desses investimentos.
Mas, o setor de semicondutores, área de necessidade do Brasil, tem demonstrado movimentações mais visíveis. Investimentos em setores considerados prioritários para o Brasil como o da indústria automobilística, do aço e estaleiros também estão sendo ampliados continuamente pelas empresas coreanas. Se procurarmos a causa desse dinamismo dos investimentos, verificaremos que as empresas coreanas esforçam-se incessantemente em aprimorar suas tecnologias e desenvolver novos produtos que reflitam as exigências de seu público-consumidor. E acredito que essa peculiaridade vai atrair o consumidor brasileiro também. O Brasil, sendo o quinto maior país em área territorial e em contingente populacional no mundo, não detém apenas um gigantesco mercado consumidor com grande poder de absorção.
Sendo limítrofe de dez países do continente sul-americano, é também o centro econômico dessa região. Por isso, o Brasil continua sendo um grande atrativo para as empresas coreanas, que enxergam grande possibilidade de sucesso em seus investimentos no país.
Em que setores as empresas brasileiras podem conseguir espaço para investir na Coreia do Sul nos próximos anos?
Os investimentos brasileiros na Coreia são ainda muito ínfimos se comparados aos números de investimentos coreanos no Brasil. No entanto, considerando que a Coreia é a 13ª maior economia mundial, representa também um grande mercado consumidor, com potencial para crescer ainda mais. Assim, tem-se a expectativa de que o Brasil passe a demonstrar maior interesse em levar seus investimentos à Coreia.A depender do esforço das empresas brasileiras, são vários os setores a serem explorados para se investir na Coreia. Mas, penso que o ideal seja investir em setores onde a indústria brasileira apresenta seus pontos fortes. Especificamente, áreas do biocombustível, distribuição de petróleo, processamento de alimentos e produtos agrícolas e setor aeroespacial são alguns exemplos de possibilidades de investimentos.
Empresas sul-coreanas estariam interessadas em participar da licitação da construção do trem de alta velocidade que ligará o Rio a São Paulo. Como seria essa participação?
O consórcio coreano está envolvido nesse projeto com grande interesse desde 2006. Temos conhecimento de que o Brasil tem como um dos objetivos do projeto trazer tecnologia estrangeira para, posteriormente, desenvolver sua própria tecnologia. A Coreia é um exemplo único de um país que, não detendo tecnologia para transportes
em alta velocidade, introduziu tecnologia estrangeira, com o qual vem operando de forma bem-sucedida o sistema de trem de alta velocidade e, posteriormente, baseado nessa tecnologia estrangeira, desenvolveu sua
própria tecnologia. Além disso, as empresas coreanas têm participado de grandes projetos em países do Oriente Médio, onde elas têm sido avaliadas positivamente em função dos custos sensatos e curtos prazos de construção que apresentam. Tenho a expectativa de que, com a aplicação de sua técnica de construção, a Coreia possa contribuir, entre outras formas, na redução do tempo de construção. A Coreia, ao transmitir sua experiência e sua tecnologia, possa contribuir para o desenvolvimento da infraestrutura em transporte ferroviário no Brasil.
O sr. acha que Brasil e Coreia do Sul podem unir forças na defesa da reestruturação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, durante a próxima reunião do G-20, em novembro, na Coreia do
Sul?
A Reunião de Cúpula do G-20 a ser realizado no próximo mês de novembro tem, em si, um grande significado: a institucionalização do G-20, uma organização que se iniciou como uma Cúpula de 20 países, formada à parte dos membros do G-8, e que depois passou a ser indicada como sendo o Fórum para a Cooperação Econômica Internacional. Tem como um dos principais assuntos a reestruturação de cotas do FMI, prevista inicialmente para janeiro de 2011, mas que foi antecipada para ser discutida e concluída em novembro, durante a Reunião de Cúpula em Seul, para o qual se espera estreita cooperação entre a Coreia e o Brasil.
Que outros pontos em comum o senhor destacaria entre os dois países na âmbito do G-20?
Ambos os países querem, como saída alternativa para o desequilíbrio da economia mundial, o crescimento sustentável e equilibrado, a reestruturação de organizações financeiras, tais como o FMI e o Banco Mundial e o aprimoramento de regulamentações financeiras, entre outros assuntos centrais do G-20. Essas seriam as questões de grande interesse de todos. Além disso, o problema relativo ao desenvolvimento também poderá ser um assunto em comum aos dois países emergentes que apresentaram, nos últimos anos, um acelerado crescimento econômico.
Qual a opinião da Coreia sobre a pretensão do Brasil de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU?
Não há divergência de posicionamento entre os dois países no tocante ao princípio defendido de que há uma necessidade de reestruturação do Conselho de Segurança da ONU, para que se torne mais representativo, eficaz e democrático. Apenas, no que se refere ao procedimento para essa reformulação, a Coreia defende que a ampliação de seus assentos seja eletiva, o que seria um método que fará com que o Conselho de Segurança se torne um organismo mais responsável e representativo.
Assim como o Brasil, seu país é a favor da eliminação total das armas atômicas no mundo?
Após o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter declarado, em abril de 2009, durante um discurso em Praga, que defende um mundo sem armas nucleares, a realização da Primeira Cúpula de Segurança Nuclear, em abril deste ano, é um marco inicial significativo. Em 2012, deverá ser realizada a Segunda Cúpula de Segurança Nuclear, prevista para ser sediada em Seul. A Coreia é um país que possui e opera 20 usinas nucleares e, considerada a 6ª potência mundial em energia nuclear, exporta seu modelo de usinas para diversos países. Ainda assim, está limitando as atividades nucleares exclusivamente para fins pacíficos, como faz o Brasil. Além do mais, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte haviam acordado, em fevereiro de 1992, pela desnuclearização da
Península da Coreia, por meio de uma Declaração Conjunta entre os dois países. Mas, posteriormente, ao se retirar do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e desenvolver armas nucleares, a Coreia do Norte não somente violou esse acordo como também vem se opondo aos esforços da comunidade internacional nos processos de
desnuclearização. A Coreia do Norte precisa abandonar imediatamente os projetos de desenvolver armas nucleares.
Há alguma possibilidade de a Coreia do Norte ser convidada a participar da Cúpula Nuclear que será realizada em território sul-coreano?
A Coreia do Norte e o Irã não foram convidados a participar da Cúpula de Segurança Nuclear realizada em Washington, em abril deste ano. Mas o presidente Lee Myung-bak considerou que a Coreia do Norte poderá ser
convidada para participar da reunião em 2012, caso demonstre claramente vontade de querer abrir mão de armas nucleares, participando das reuniões hexapartites de 2011 e 2012 e volte a aderir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
Na sua opinião, o Brasil poderia ajudar de alguma forma na retomada das negociações de paz entre as Coreias?
A Coreia do Sul, juntamente com os Estados Unidos, a China, o Japão e a Rússia têm se esforçado para solucionar, por meio das reuniões hexapartites e com a Coreia do Norte, os problemas nucleares do país norte-coreano. Mas, a Coreia do Norte, ao lançar mísseis de longa distância e realizar testes nucleares em abril e maio do ano passado, respectivamente, rejeitou as negociações das reuniões hexapartites. Recentemente, a Coreia tem argumentado que dará prioridade para as reuniões de negociação de acordo de paz entre os países envolvidos no Tratado de Cessar-Fogo durante a Guerra da Coreia e, em relação ao reinício das reuniões hexapartites, defendeu como premissa a remoção das sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU. Contudo, a ideia de negociar prioritariamente um tratado de paz suscita uma preocupação de que a Coreia do Norte intencione deixar para trás a discussão sobre a desnuclearização. Assim, se as negociações hexapartites forem retomadas e houver um avanço na desnuclearização da Coreia do Norte, um acordo sobre um regime de paz poderá ser acordado em um Fórum próprio para a ocasião, conforme estabelece a Declaração Conjunta acordada em de 19 de setembro de 2005, no âmbito da reunião hexapartite. O Brasil estabeleceu, no ano passado, a sua embaixada na Coreia do Norte, fortalecendo o diálogo com esse país. Temos expectativas de que o Brasil possa persuadir o governo norte-coreano a retomar as negociações hexapartites e abrir mão das armas nucleares.