Num momento de escalada da guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos, as exportações brasileiras para a Argentina têm crescido de forma acelerada e trazido algum alívio para a balança comercial do País. No primeiro semestre, elas somaram US$ 9,120 bilhões, um crescimento de 55,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A Argentina passou a oferecer uma combinação bastante positiva para o exportador brasileiro. Depois dos choques promovidos pelo presidente argentino Javier Milei, que provocaram uma dura recessão, a economia do país cresceu de forma acelerada. O câmbio também se valorizou, o que estimula e torna mais barata a compra de produtos de outros países.
No primeiro trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina cresceu 5,8% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Em relação aos três meses imediatamente anteriores, a alta foi de 0,8%.
Entre janeiro e junho, segundo dados do Ministério da Indústria, Desenvolvimento, Comércio e Serviços (Mdic), os argentinos responderam por 5,5% das exportações do Brasil – atrás da China (28,7%) e dos Estados Unidos (12,1%).
“O peso está extremamente valorizado. O grosso do comércio é no setor automotivo. Não estamos exportando produtos diferentes. A diferença é que agora está muito mais interessante para as empresas venderem o carro brasileiro na Argentina, que sai muito mais barato”, afirma Lia Valls Pereira, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre).
Os números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ilustram bem o bom momento das vendas brasileiras e deixam evidente como as exportações foram um motor importante para o setor no primeiro semestre.
De acordo com a Anfavea, a produção de veículos somou 1,227 milhão de unidades nos primeiros seis meses do ano, o que representa um crescimento de 88.782 unidades em relação ao período de janeiro a junho de 2024. No mesmo período, o volume exportado aumentou em 98.850 unidades, de 165.299 para 264.149.
“Ou seja, as exportações tiveram contribuição fundamental para o desempenho da indústria neste ano”, afirma Andrea Serra, diretora tributária e de comércio exterior da Anfavea.
Até agora, nos primeiros seis meses deste ano, a participação da Argentina nas exportações de veículos brasileiros é de 60%, o patamar mais alto desde 2018, quando alcançou 68%. Em 2024, foi de 34%.
“Historicamente, a Argentina sempre desempenhou um papel relevante como um dos principais destinos das exportações brasileiras de veículos”, afirma Andrea. “Considerando o desempenho expressivo no primeiro semestre, a expectativa é de que a fatia da Argentina nas exportações brasileiras de veículos se mantenha elevada em 2025.”
Além dos produtos ligados à indústria automobilística, os produtos químicos e alimentícios também são importantes na pauta de exportação do Brasil para a Argentina.
A recuperação da Argentina – e os desafios
Ao assumir o governo da Argentina, em dezembro de 2023, Javier Milei adotou uma dura política fiscal e promoveu a desvalorização do peso, para reduzir a diferença entre o câmbio paralelo e o oficial, que praticamente desapareceu depois de ter superado o patamar de 150%. O choque produziu uma recessão brutal no País, levou ao aumento da pobreza, agora em queda, e houve um aumento da inflação inicial. No entanto, ajudou, num primeiro momento, a economia argentina a não ter problemas no setor externo.
“No começo do ano passado, havia um câmbio hiper desvalorizado, contraindo as importações, porque elas eram caríssimas, e estimulando as exportações. E você tinha um nível de atividade muito deprimido por causa da recessão econômica e, consequentemente, gerando saldos de exportações”, diz o economista Fabio Giambiagi.
Nos meses seguintes, o quadro argentino começou a mudar: embora o governo de Milei tenha promovido uma desvalorização nominal do peso, a inflação avançava em ritmo ainda maior, o que resultou numa valorização do câmbio real.
“A competitividade cambial caiu quase 40% em termos reais, atingindo um piso em janeiro de 2025. Esse fator, somado à extraordinária recuperação econômica, fez com que as importações chegassem a valores recordes no primeiro trimestre deste ano, reduzindo significativamente o superávit comercial”, afirma Dante Sica, ex-ministro da Produção e do Trabalho e sócio fundador da consultoria Abeceb.
A falta de dólares na Argentina voltou ao radar do governo, o que fez com que o governo passasse a lançar mão de várias medidas para tentar contornar o problema. Uma delas flexibilizou os controles financeiros e permitiu que os argentinos “tirassem os dólares do colchão”. Vivendo décadas de instabilidade econômica, se tornou comum entre os argentinos a prática de guardar dinheiro em casa. O novo plano de Milei prometeu isentar os argentinos de qualquer punição por dinheiro não declarado anteriormente.
“Que há uma recuperação é um fato inegável. O que não quer dizer que não haja problemas. Os problemas claramente estão localizados no setor externo”, afirma Giambiagi. “O que está acontecendo este ano é exatamente o espelho oposto do que aconteceu no ano passado.”
Em abril, o governo de Milei acertou mais um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Com duração de 48 meses, prevê um empréstimo de US$ 20 bilhões. De imediato, US$ 12 bilhões foram liberados pelo órgão. Em troca, o governo de Milei anunciou uma flexibilização nas regras cambiais do país.
“Todo mundo sabe que esse câmbio como está é um problema, porque o custo de vida do argentino está absolutamente alto”, afirma Lia.
Com os empréstimos do Fundo e de outros organismos internacionais, as reservas argentinas somam US$ 40 bilhões.
“Apesar dos ruídos de curto prazo de uma economia que está aprendendo a flutuar, não vemos condições para que ocorram choques ou mudanças dramáticas no cenário (como um salto abrupto do câmbio)”, afirma Dante. “Isso porque, hoje, os ruídos – ao contrário do que ocorria no passado – acontecem dentro de um quadro macroeconômico muito mais sólido.”
Estadão Conteúdo