Rio e São Paulo, 09 – Sob pressão de aumentos nas passagens aéreas e no transporte por aplicativo, a inflação oficial no País acelerou de 0,18% em novembro para 0,33% em dezembro, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da aceleração, a alta de dezembro foi a mais branda para o mês desde 2018. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses arrefeceu pelo terceiro mês consecutivo e fechou 2025 em 4,26%.
Assim, o IPCA do ano ficou abaixo do teto de tolerância (de 4,5%) da meta de inflação, de 3,0%, perseguida pelo Banco Central. Foi também a menor inflação anual desde 2018, quando o IPCA subiu 3,75%.
Para o Bank of America (BofA), trata-se de um desfecho positivo, “já que nos momentos mais pessimistas do ano o consenso via a inflação fechando o ano acima de 5,5%”, afirmou em relatório do BofA, reafirmando sua expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC inicie o ciclo de flexibilização na taxa básica de juros, a Selic, a partir deste mês, com um corte de 0,50 ponto porcentual.
RITMO LENTO
Apesar de as previsões feitas pelo mercado financeiro indicarem que a inflação continuará desacelerando em ritmo lento ao longo deste ano, o IPCA não deve recuar a ponto de atingir o centro da meta de 3%, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)
O último Boletim Focus do Banco Central mostra que o mercado espera que a inflação oficial medida pelo IPCA fique em 4,06% em 2026. E o próprio BC projeta inflação de 3,5% para este ano, conforme comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom).
A perspectiva de retomada da alta de preços dos alimentos, fator primordial para que o IPCA de 2025 ficasse em 4,26% e abaixo do teto da meta (4,5%), será um dos focos de pressão inflacionária para 2026, concordam economistas ouvidos pelo Estadão.
“Os alimentos foram os que mais contribuíram para essa taxa contida (do IPCA). Alimentação realmente foi o principal fator para essa taxa menor do IPCA de 2025”, declarou avaliou Fernando Gonçalves, economista do IBGE ao apresentar ontem o dados do IPCA.
Além dos alimentos, apontam os economistas, a resistência dos preços de serviços, que continuaram a trajetória de alta ao longo de 2025 mesmo com o choque de juros, põe mais incerteza no quadro inflacionário para este ano.
“Em 2026, poderemos ter uma inflação mais baixa, mas com uma inversão dos atores em relação a 2025”, prevê o economista André Braz, coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembrando que as boas safras em 2025 tiveram mais influência em levar a inflação para dentro do intervalo de tolerância, do que a ação da política monetária. “Aí está a fragilidade para este ano”, diz.
Entre os fatores de risco Para uma retomada de preços dos alimentos neste ano, Braz aponta os problemas climáticos, safras menores e a carne bovina ainda sofrendo os impactos do ciclo de baixa oferta da pecuária de corte. “Teve uma oferta de produtos alimentícios maior, o que ocorreu o ano todo”, lembrou Gonçalves, ao falar do IPCA de 2025. “A maior oferta de alimentos também contribuiu para segurar a inflação. Os alimentos têm o maior peso no orçamento das famílias. Então isso também ajudou a segurar o IPCA.”
Flávio Serrano, economista-chefe do Bmg, também prevê uma reversão nos preços dos alimentos em relação a 2025, mas vê outro ponto de risco para inflação deste ano: o preço dos serviços. A inflação de serviços subiu de 4,70% em 2024 para perto de 6% em 2025, aceleração que segundo ele foi impulsionada pela demanda doméstica forte, mercado de trabalho aquecido, transferências diretas do governo e o pagamento dos precatórios
Mas, com a desaceleração do ritmo de atividade esperada para 2026 por causa do juros em 15%, maior marca em 20 anos, a perspectiva é de que o mercado de trabalho arrefeça, o desemprego cresça e os preços dos serviços percam fôlego. “O cenário é de acomodação da inflação de serviços em função de uma acomodação do mercado de trabalho, mas o risco é não acomodar”, diz Serrano, que espera que a inflação de serviços volte neste ano para o patamar de 2024, entre 4% e 5%.
CÂMBIO E ELEIÇÕES
Já para a economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, a inflação de serviços deve responder com altas mais moderadas neste ano em razão da subida dos juros básicos nos últimos meses. O fator de risco maior para a inflação deste ano, em sua visão, é o preço dos alimentos. Além do clima, ela aponta o câmbio como um vetor que pode afetar as cotações das commodities agropecuárias e, por tabela, o preço dos alimentos. “O câmbio pode trazer volatilidade para os preços e, no melhor dos mundos, não ajudar a inflação de alimentos, porque nesse ano certamente ajudou”, diz Marcela, lembrando que 2026 é ano eleitoral e, portanto, com perspectiva de sobe e desce do dólar, de acordo com o cenário de risco político.
Estadão Conteúdo