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Economia

Com restrições para entrar nos EUA, papel sulfite da China invade mercado brasileiro

Com vendas praticamente travadas aos EUA, China e Indonésia passaram a despejar no Brasil o excedente do que pretendiam vender aos norte-americanos

Redação Jornal de Brasília

29/07/2026 12h17

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Foto: Araquém Alcântara/Divulgação

ANDRÉ BORGES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

As barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos à China e aos demais países asiáticos têm mexido diretamente com a indústria brasileira do papel, que agora sofre com a entrada desenfreada da produção asiática.

Com vendas praticamente travadas aos EUA, China e Indonésia passaram a despejar no Brasil o excedente do que pretendiam vender aos norte-americanos.

Com um preço que chega ao consumidor mais baixo do que o produto nacional, o mercado brasileiro -autossuficiente e um dos líderes globais- vive uma inundação inédita do papel sulfite asiático, o que acabou levando o setor a pedir medidas urgentes ao governo Lula (PT), como dobrar a alíquota de importação desses produtos.

O pleito, conforme informações obtidas pela reportagem, partiu da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), instituição que representa cerca de 50 grandes produtores de papel e celulose do país.

Na semana passada, a entidade acionou a Secretaria de Comércio Exterior, ligada ao Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio), para pedir que a alíquota atual do imposto de importação aplicada ao chamado papel “cutsize”, categoria das tradicionais folhas A3 e A4 usadas em todo o mundo, suba de 16% para 30%, limite permitido na Tarifa Externa Comum do Mercosul.

“O cenário internacional de papéis cutsize tem observado movimento convergente de fechamento de mercados estrangeiros, o que tem redirecionado a oferta asiática excedente para destinos ‘mais abertos’, notadamente o Brasil”, diz a Ibá, em seu pedido.

Entre janeiro e maio deste ano, segundo dados oficiais reunidos pela Ibá, as importações do papel cresceram 160% sobre o mesmo período do ano passado, saltando de 3,3 milhões para 8,5 milhões de quilos. Em valor, as compras externas cresceram 123%, de US$ 2,9 milhões para US$ 6,3 milhões.

Por trás da importação do papel asiático está a queda no preço do produto estrangeiro, que saiu de US$ 0,90 para US$ 0,77 por quilo, uma redução de 14%. Segundo a Ibá, os preços dos papéis importados chegam a ficar entre R$ 7 e R$ 35 abaixo de marcas produzidas no Brasil.

“O cenário atual é de crescente preocupação das produtoras domésticas desses papéis cutsize, que têm sido afetadas negativamente pelo aumento exponencial recente do volume de importações no Brasil a preços injustificadamente agressivos”, afirma a instituição.

Historicamente, o consumo brasileiro desse tipo de papel foi abastecido quase integralmente pela produção nacional. O Brasil é conhecido como um dos maiores produtores mundiais de celulose e papel e exporta boa parte de sua produção.

A dimensão da produção nacional, agora fustigada pelo sulfite chinês, dá uma ideia do que está em jogo. Hoje, a capacidade instalada das fábricas brasileiras equivale a 143% do consumo doméstico, ou seja, a indústria teria capacidade para produzir 43% a mais do que o mercado interno consome. Há, portanto, capacidade ociosa.

“Os danos já sentidos pelas produtoras domésticas desse produto, aliados ao risco de desinvestimentos no país dessas produtoras, justificam a concessão urgente de medida de elevação do imposto de importação”, argumenta a Ibá.

A reportagem questionou o Mdic sobre o assunto, mas não teve retorno até a publicação deste texto.

Normalmente, esse tipo de pedido é submetido à análise de comissões dentro da pasta, para verificar se deve ou não ser atendido.

Os dados do setor mostram que, enquanto as importações aceleram, as exportações brasileiras de papel têm perdido força. Entre janeiro e maio de 2025 o Brasil exportou cerca de 150 milhões de quilos de papel. Esse volume caiu para 129 milhões de quilos no mesmo período deste ano.

Para a Ibá, as empresas brasileiras enfrentam uma pressão dupla, com maior dificuldade para vender no exterior e, ao mesmo tempo, perda de participação no próprio mercado doméstico.

O diretor internacional da Ibá, José Carlos da Fonseca Júnior, confirmou o pedido. “Nessa desordem do sistema internacional, a China passa a buscar outros mercados porque perdeu o mercado americano. A Europa passa a se movimentar em busca de outros países também”, disse.

Ele admite que produtos feitos à base de celulose brasileira exportada para a China acabam, a certa altura, voltando para o consumo brasileiro a preços menores que o nacional.

“O Brasil é o maior exportador mundial de celulose, o sexto maior produtor de papéis para embalagem e exportou mais de US$ 15 bilhões em produtos em 2025. Nunca dependemos de protecionismo. Ao contrário, a gente foi à luta conquistar mercado, mas recorremos agora, porque o cutsize é um fenômeno recente, que passou a chegar ao país a preços abaixo até da nossa própria competitividade local aqui.”

Fonseca Júnior diz que o papel-cartão, produto usado em embalagens de medicamentos, alimentos e produtos de higiene, também foi alvo de pedido similar feito pelo setor em junho.

A Ibá já havia recorrido à Camex em 2024, para pedir proteção ao papel-cartão. Na ocasião, queria elevar a tarifa de importação de 12,5% para 25%. O governo autorizou um aumento para 16%.

Essa tarifa anual, que chegou a ser renovada uma vez, vence em outubro. No novo pleito, a Ibá diz que o cenário se agravou e solicita aumento para 35%. “Começamos a testemunhar uma entrada a preços que claramente refletem uma estrutura sem transparência, muito opaca”.

Os Estados Unidos mantêm direitos antidumping e medidas compensatórias sobre papéis produzidos na China e na Indonésia, além de impor uma sobretaxa adicional de 25% ao papel chinês. O USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) também abriu investigações neste ano sobre o excesso de capacidade industrial chinesa e suas práticas comerciais no setor.

A indústria do papel não é a primeira a pedir ao governo que duplique o imposto de importação para se proteger das exportações da China, mesmo que por motivos distintos.

Além do papel, o aumento nas importações de botijões de gás de cozinha vindos da China, um movimento impulsionado pela criação do programa federal Gás do Povo, desembocou numa guerra comercial entre fabricantes nacionais e distribuidoras que trazem o produto do exterior, como revelou a Folha de S. Paulo.

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