ANDRÉ BORGES
FOLHAPRESS
Clientes que foram afetados pelo pedido de recuperação judicial da holding financeira Fictor, empresa que chegou a anunciar a compra do Banco Master, decidiram montar uma associação para tentar evitar um prejuízo estimado em R$ 4 bilhões.
A entidade foi criada nesta semana, em São Paulo, e já soma cerca de 300 clientes, segundo informações obtidas pela reportagem. A situação da Fictor pode prejudicar mais de 13 mil contribuintes, que não estão cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), como ocorre no caso da liquidação do Master, e podem perder mais dinheiro com a recuperação judicial solicitada pelos controladores da empresa.
A Fictor foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou até a publicação deste texto.
A ACFictor (Associação de Credores da Fictor Invest) pretende atuar de forma coordenada e estratégica na defesa dos direitos dos credores.
“A ACFictor surge da necessidade de organização porque, isoladamente, os credores ficam em posição extremamente frágil, com pouco acesso a informações, baixo poder de influência e alto risco de aceitar condições prejudiciais”, disse Otávio Barbuio, presidente da associação e credor. “A atuação coletiva muda completamente essa relação de forças.”
O pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor envolve ao menos 13.041 credores. Desse total, 11.549 são pessoas físicas, com créditos que somam cerca de R$ 2,54 bilhões.
Muitos desses investidores foram atraídos por estruturas de investimento através de Sociedades em Conta de Participação (SCPs) que prometiam rentabilidades elevadas, em alguns casos chegando a 2% ao mês, patamar significativamente acima da média da renda fixa tradicional.
Segundo a associação, a situação se agravou após uma série de medidas adotadas pela Fictor Invest, como o encerramento unilateral das SCPs, com a conversão forçada daqueles que eram considerados investidores em credores com a subsequente inclusão desse grupo no processo de recuperação judicial.
“Na prática, isso reduziu drasticamente o poder de reação individual dos investidores e concentrou os conflitos dentro do ambiente da recuperação judicial”, disse Barbuio.
Entre as principais medidas da associação estão a contestação de aspectos do plano de recuperação, a apuração de responsabilidades de administradores e a adoção de medidas de bloqueio patrimonial.
Na madrugada desta sexta-feira, clientes da Fictor foram surpreendidos com emails enviados pela Fictor, com “distrato” de seus contratos. A Folha teve acesso a um desses documentos.
Nele, a Fictor diz que “este Distrato do Instrumento Particular Constitutivo de Sociedade em Conta de Participação (“Distrato”) é celebrado em 12 de janeiro de 2026″, apesar do envio na madrugada de 6 de fevereiro.
Ao tratar da “dissolução” do contrato, a empresa diz ainda que ambas as partes, “na melhor forma de direito, formalizam a dissolução da SCP, extinguindo o Contrato, sendo seus efeitos retroativos à data de 01/02/2026, momento de recebimento da Notificação de Distrato anteriormente enviada”.
Clientes ouvidos pela reportagem receberam a primeira mensagem sobre o fim do contrato na madrugada de terça-feira (3), dois dias depois de a Fictor protocolar, no domingo (1º), seu pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), com uma dívida de R$ 4,2 bilhões.
A Fictor vinha recebendo uma série de questionamentos judiciais nas últimas semanas por problemas de pagamento de dividendos a clientes. No último dia 27, o TJ-SP já havia determinado o bloqueio de R$ 150 milhões da conta da companhia, após um cliente que faz a intermediação de pagamentos com cartões de crédito empresariais alegar que a companhia retirou dinheiro de uma conta de garantia.