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Economia

Cavalera reabre loja de rua em São Paulo em busca de retomar seu lugar na moda

Cavalera trouxe frescor para a moda brasileira antes da explosão da internet e das redes sociais.

Redação Jornal de Brasília

07/07/2026 11h45

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Foto: Gabo Morales/Folhapress

JOÃO PERASSOLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Era uma visão comum nas ruas de São Paulo entre o final dos anos 1990 e meados da década de 2010 uma águia de duas cabeças estampada em camisetas, moletons e bonés. O logotipo da Cavalera, à época a mais importante marca de moda de rua brasileira, vestia jovens e recém-chegados à idade adulta ligados à pulsação da cidade.

Com uma pegada rock’n’roll e estampas irreverentes a exemplo de uma mulher seminua numa camiseta da rua Augusta ou capas de discos em que o nome da banda era substituído pelo da marca, a Cavalera trouxe frescor para a moda brasileira antes da explosão da internet e das redes sociais.

A grife cresceu bastante, teve lojas em diversos shoppings e uma na rua de luxo Oscar Freire, mas fechou todos os pontos de venda em 2021, num momento em que sua influência na moda e sua preferência entre os consumidores estava em queda. Suas camisetas divertidas não interessavam mais aos jovens, que se voltaram para novas marcas nacionais de streetwear.

Agora, a Cavalera ensaia uma volta à cena com a abertura de uma loja no bairro de Pinheiros. Isto depois de desfilar uma vez em 2024 e, discretamente, manter uma arara de roupas dentro da barbearia da marca na Vila Madalena. Sim, dá para encontrar as camisetas que faziam a cabeça da galera no ponto de venda recém-inaugurado na rua Fernão Dias, mas o foco é outro.

Nos cabides estão peças com mais design, confeccionadas em tecidos encorpados, em cores sólidas como preto, branco e cinza, sem ou com pouca estampa. A atenção está no corte e no caimento das camisetas, moletons, jaquetas e calças de alfaiataria, todas com pegada minimalista. Sai a estridência do vestuário adolescente, entra a vontade de se vestir com mais sobriedade.

Alberto Hiar, o dono e diretor criativo da marca, diz que queria propor algo novo. “O homem é muito básico, não tem tanta novidade. Você vai numa loja e parece que aquela camisa está há 300 anos na mesma vitrine. Ele tem medo de ser arrojado”, afirma, ao comentar por que criou a linha que chama de caviar, feita com tecidos importados da Turquia e da China e preços que podem ultrapassar os três dígitos.

Como os tecidos da nova coleção são grossos, as peças podem receber costuras e detalhes avantajados que malhas mais finas não aguentam, além de ficarem estruturadas no corpo. É um tipo de roupa que o mercado brasileiro ainda não consome tanto, argumenta Hiar, acrescentando que tem produzido uma tiragem baixa, entre dez e 20 unidades, de cada uma das peças novas.

Na coleção caviar a loja da Cavalera oferece, por exemplo, uma camiseta de manga curta com fechos nas mangas, um colete com dobraduras na parte da frente e uma jaqueta de couro estilo motoqueiro de aspecto desgastada. A parte comercial —e de preços bem mais acessíveis— conta com calças jeans e camisetas estampadas da banda Charlie Brown Jr., além de uma linha da Copa do Mundo.

Se pode ser desafiador vestir uma gramatura mais grossa no calor do Brasil, é fato que o streetwear local tem se voltado, há alguns anos, para roupas mais pesadas, a exemplo das camisetas da Pace e da Carnan, que caíram no gosto dos paulistanos antenados em moda —e aparentemente não tão preocupados com o conforto térmico.

Nesta nova fase, o desafio da Cavalera é manter o interesse do público num cenário mais competitivo do que quando a marca surgiu, há mais de três décadas, impulsionada pela cultura do skate e pelo sobrenome do ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera, que foi sócio no começo. Atualmente, o streetwear brasileiro tem nomes de peso, como a Piet, e etiquetas com clientela cativa, mas sem loja própria, a exemplo de Egho e Quadro Creations.

Afora a moda descolada, a Cavalera fez história com suas apresentações em lugares incomuns, como uma em que os modelos desfilaram nas margens do poluído rio Tietê, vistos por convidados dentro de um barco na água. “A moda é o que você convive no seu dia a dia. Eu não tenho os museus, os castelos que têm na Europa. Eu tenho o rio Tietê, o museu do Ipiranga, o Minhocão”, diz Hiar, em referência a lugares emblemáticos de São Paulo. “Isso aqui é um caos urbano.”

Pouco antes da pandemia, com bem menos relevância na moda, a Cavalera passou a enfrentar dificuldades financeiras e, durante a Covid, teve de fechar todas as lojas. Foi obrigada a pedir recuperação judicial para se reestruturar. Segundo Hiar, o plano de recuperação está em vias de ser cumprido e as dívidas, incluindo as trabalhistas, foram quase todas pagas.

Passada a fase mais difícil, é de se perguntar quem compra Cavalera hoje. “O cliente é um fã da marca”, diz Hiar, lembrando que a águia de duas cabeças tem história e um público que a acompanha desde o começo. “Com 15, 20 anos, a pessoa quer mostrar a marca. Com 30, já casou e está trabalhando, não pode estar com uma estampa grande. Quer ter a marca, mas com algo mais discreto. É o que acaba vendendo mais.”

LOJA CAVALERA

  • Quando Funcionamento de segunda a sábado, das 11h às 19h
  • Onde R. Fernão Dias, 551, São Paulo

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