Menu
Economia

Brasil segue erros fiscais da Europa que levaram a cortes brutais

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália viram suas economias encolherem drasticamente

Redação Jornal de Brasília

21/06/2026 14h33

Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Brasil caminha em uma trajetória fiscal capaz de levar o país ao mesmo destino de nações europeias após a crise financeira global de 2008, quando foram forçadas a adotar planos de austeridade brutais no biênio 2010-2011.

Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália viram suas economias encolherem drasticamente. Seus governos aplicaram cortes profundos em aposentadorias, salários do funcionalismo público e investimentos sociais para evitar a insolvência –e centenas de protestos se seguiram contra as medidas.

Durante a crise europeia, os países afetados não conseguiam mais colocar títulos soberanos no mercado, mesmo pagando juros elevadíssimos, tamanha a desconfiança de investidores em financiá-los. A saída foi o BCE (Banco Central Europeu) comprar os papéis para evitar uma ruptura na zona do euro. Em troca, os cortes foram adotados.

No Brasil, as taxas de juros de alguns títulos de longo prazo vendidos pelo Tesouro para financiar o déficit vêm batendo recordes para que os investidores os adquiram –e economistas as consideram “assustadoras” e “insustentáveis”.

A principal diferença entre a crise europeia e o Brasil é que aqueles países tinham o euro como moeda e estavam submetidos às regras monetárias e fiscais do BCE e da Comissão Europeia.

Assim, não podiam desvalorizar sua moeda para aumentar a competitividade das exportações nem imprimir dinheiro para cobrir déficits. Embora o Brasil possa fazê-lo, seria o estopim de uma crise cambial e inflacionária, com forte recessão, alertam especialistas.

No auge do colapso da zona do euro, os cortes foram a única saída para as nações que perderam o controle de suas contas e o acesso ao mercado de crédito internacional. Na Grécia, cujo PIB encolheu 26%, as aposentadorias foram reduzidas várias vezes, em até 20%, e os salários públicos sofreram cortes de 35%.

Em Portugal e na Irlanda, o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) escalou para patamares superiores a 23%, penalizando o consumo. Espanha e Itália elevaram a idade mínima de aposentadoria para conter o rombo previdenciário estrutural. O preço do reequilíbrio forçado foi recessão crônica e desemprego recorde.

Embora o Brasil tenha passado relativamente ileso pela turbulência externa graças aos superávits primários (despesas menores que as receitas, sem contar juros da dívida) que ainda produzia à época, o cenário macroeconômico atual, porém, liga o sinal de alerta de economistas.

Com um déficit nominal na casa dos 9% do PIB (Produto Interno Bruto) e uma dívida pública bruta que ultrapassa os 80% do PIB, os indicadores começam a se aproximar dos mesmos patamares que detonaram as crises fiscais na periferia da Europa.

“O governo brasileiro, infelizmente, não compreende isso, algo nada complicado. O problema é que a economia não está mal, crescendo entre 2% a 3% ao ano com desemprego baixo. Mas o país precisava dar um salto qualitativo na área fiscal antes que seja tarde”, afirma Marcello Estevão, diretor-gerente do Instituto de Finanças Internacionais, sediado nos EUA, que reúne mais de 400 instituições financeiras.

Professor do curso “Crises macroeconômicas e sustentabilidade da dívida” na Universidade de Georgetown, em Washington, Estevão diz que “geralmente países só fazem ajustes sérios quando entram em crise”.

“O Brasil fez reformas como a trabalhista e previdenciária e tem instituições estáveis. Talvez não tenha uma crise no ano que vem, mas vai piorando e não dá um salto qualitativo, que poderia transformar sua economia”, afirma.

A grande armadilha apontada por especialistas está na composição do déficit brasileiro. Diferente da Irlanda, onde o rombo foi inflado pelo socorro emergencial ao sistema bancário, o desequilíbrio nacional é contínuo e estrutural.

É impulsionado por despesas obrigatórias crescentes (que consomem cerca de 95% do Orçamento) e pela pesada carga de juros necessários para rolar a dívida pública (cerca de R$ 1 trilhão em 12 meses).

Quando o endividamento alcança um ponto de inflexão, a perda de confiança dos investidores dispara um ciclo vicioso de desvalorização cambial, inflação e juros ainda mais altos.

“O Brasil não aprendeu nada e, para se reeleger, Lula está reconstruindo 2015, num cenário tipo Dilma [Rousseff], que produziu uma das maiores crises do país”, afirma Samuel Pessôa, colunista da Folha e pesquisador do BTG Pactual.

No biênio 2015-2016, a economia brasileira encolheu 7,2%, resultado dos gastos e do descontrole fiscal no governo da ex-presidente. Esse quadro levou a uma crise de confiança e à disparada do dólar e da inflação.

“A crise brasileira parece encomendada, com os juros machucando as empresas. Os bancos seguem rolando as dívidas à espera de um ajuste em 2027. Se não vier, haverá uma ruptura no mercado de crédito corporativo”, diz Pessôa.

Para o economista Armando Castellar, pesquisador do Ibre-FGV, a situação brasileira só não é mais grave porque, diferentemente de vários países europeus, o Brasil carrega atualmente um déficit em suas transações correntes com o resto do mundo equivalente a 2,7% do PIB, muito menor do que eles tinham à época.

“Mas, sem um ajuste que reduza o déficit fiscal interno e a conta de juros, vamos acabar ‘batendo na parede’ via câmbio [com expressiva alta do dólar], que levará ao aumento da inflação e do desemprego”, diz.

Castellar afirma que, embora o crescimento econômico e a taxa de desemprego pareçam mostrar uma economia distante de uma crise, os brasileiros estão endividados em níveis recordes, o que potencializaria uma eventual recessão.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado