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Economia

Brasil perde mais de 6,2 mil voos em dois meses após disparada do querosene de aviação

Escalada dos preços do combustível após conflitos no Oriente Médio leva companhias aéreas a cortar rotas, encarece passagens e pressiona governo a ampliar medidas de apoio ao setor

Redação Jornal de Brasília

01/06/2026 12h21

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Foto: Agência Brasil

ANDRÉ BORGES
FOLHAPRESS

A crise do querosene de aviação causada pelos conflitos no Oriente Médio enxugou a malha aérea nacional, com o cancelamento de mais de 6,2 mil voos da programação do setor.

A reportagem teve acesso a um levantamento feito pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que comparou o cenário atual com aquele do fim de fevereiro, antes da escalada internacional dos preços do petróleo.

Em maio, o setor perdeu 3.596 voos. Outros 2.675 estão previstos para serem cortados em junho, ou seja, são ao menos 6.271 voos que deixam de existir.

O aumento do querosene de aviação mexe com a oferta de voos porque o combustível é uma das maiores despesas das companhias aéreas, chegando a 45% dos custos operacionais do setor. Quando o preço do QAV sobe de forma abrupta, as empresas passam a gastar mais para operar cada voo. Nem sempre é possível repassar imediatamente esse aumento ao preço das passagens sem perder passageiros. Por isso, elas tendem a reduzir voos e retirar da malha as rotas menos rentáveis.

Os dados da Anac mostram que a redução da malha aérea atingiu praticamente todo o país. Pernambuco aparece como o estado mais afetado. O número de voos previstos para maio caiu 12,8% em relação ao fim de fevereiro, o equivalente a 427 operações retiradas da programação. Em junho, a queda segue elevada, com redução de 11,6% e mais 378 voos a menos.

A Bahia registrou retração de 10,1% em maio, com corte de 362 voos. Goiás perdeu 9,6% da sua programação, o Espírito Santo teve redução de 9% e o Rio de Janeiro viu desaparecer 514 voos apenas em maio.

Em números absolutos, São Paulo lidera a lista de perdas, com 844 voos retirados da programação em maio. O Rio de Janeiro aparece em seguida, com 514 voos a menos, seguido por Pernambuco, Bahia e Distrito Federal. Juntos, São Paulo e Rio perderam mais de 1.350 voos em apenas um mês.

A Gol foi a empresa que mais reduziu as operações. A companhia retirou 1.840 voos da programação de maio e outros 1.201 em junho, somando 3.041 voos cortados.

A Azul aparece logo atrás, com redução de 1.243 voos em maio e 973 em junho, totalizando 2.216 voos retirados. A Latam apresentou um ajuste menor, com corte de 498 voos em maio e 537 em junho. Gol e Azul responderam por mais de 86% de toda a redução da malha aérea.

PREÇO DO COMBUSTÍVEL

A dimensão do choque fica evidente quando se observa a evolução do preço do combustível. Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo) mostram que o querosene de aviação saiu de R$ 3,35 por litro em meados de fevereiro para R$ 6,65 por litro no início de maio. Na prática, praticamente dobrou de preço em menos de três meses, acumulando alta de 98,4% no período.

Nesta segunda-feira (1º), a Petrobras anunciou que fará uma redução de 14,2% no preço do combustível, depois de uma sucessão de aumentos. Em março, a petroleira anunciou um reajuste de 9%. Em abril, houve novo aumento de 55%. Em maio, veio mais um reajuste de 18%.

Além de sofrer com o corte de destinos, a população também sente o peso da crise no bolso. Os dados oficiais da ANAC mostram que, em março, houve alta de 17,8% em relação ao preço das passagens, em comparação com março de 2025; e aumento de 14,5% em relação ao mês anterior.

Hoje, cerca de 21% do querosene de aviação consumido no país vem do exterior. A distribuição é praticamente um monopólio controlado pela Petrobras.

Segundo os cálculos do MPor (Ministério de Portos e Aeroportos), apenas em abril as companhias tiveram um custo adicional de R$ 719 milhões devido ao preço do QAV. Somando-se com o impacto de maio, a cifra extra chega a R$ 1,84 bilhão.

Como mostrou a Folha de S.Paulo no início de maio, o governo Lula (PT) decidiu assumir, por sua conta e risco, um empréstimo de até R$ 1 bilhão para companhias aéreas, como forma de amenizar os reflexos da alta do querosene de aviação.

A Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), que representa as aéreas, afirmou, na ocasião, que “reconhece a importância e a prontidão do governo quanto a apresentação do conjunto de medidas para diminuir os impactos da alta de preço do QAV (querosene de aviação) no transporte aéreo e os impactos sobre a conectividade aérea do país”.

A nova linha de crédito proposta pelo governo tem caráter emergencial e de curto prazo. Os recursos serão destinados exclusivamente para capital de giro, ou seja, para as empresas manterem as operações funcionando e pagar combustível, fornecedores e despesas diárias.

O governo federal já havia estruturado um pacote de apoio ao setor aéreo por meio do Fnac (Fundo Nacional de Aviação Civil), com liberação prevista de cerca de R$ 4 bilhões em créditos. Esse financiamento, porém, segue um modelo tradicional. Os recursos são operados por instituições financeiras, com análise de risco e exigência de contrapartidas das empresas.

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