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Economia

Brasil mapeia oportunidades com UE-Mercosul e vê potencial para indústria

No ramo dos equipamentos, o Brasil vendeu US$ 1,2 bilhão em máquinas, aparelhos, caldeiras, reatores nucleares e instrumentos mecânicos em 2024 para a UE

Redação Jornal de Brasília

17/01/2026 15h09

uniao-europeia

Foto: Reprodução

NATHALIA GARCIA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O governo brasileiro identificou potencial para ampliar mercado em diversos segmentos da indústria, desde aviação até siderurgia, a partir de um mapeamento das oportunidades de exportação abertas pelo acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

O tratado, que ainda precisa ser validado pelo Parlamento Europeu e pelos Legislativos do Mercosul, foi assinado neste sábado (17), em Assunção (Paraguai).

Levantamento feito pelo Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) para a reportagem mostra que o Brasil somou US$ 662,6 milhões em 2024 com a venda para a UE de veículos aéreos, como helicópteros e aviões. A cifra representa menos de 2% dos US$ 36 bilhões importados pelos europeus só nessa categoria.

Esse é um dos exemplos que o exercício considera ao cruzar a pauta exportadora do Brasil, a partir de um recorte de produtos em que o país é competitivo globalmente e cuja participação nas importações da União Europeia varia até 10%, com itens que os europeus compram muito do mundo.

No ramo dos equipamentos, o Brasil vendeu US$ 1,2 bilhão em máquinas, aparelhos, caldeiras, reatores nucleares e instrumentos mecânicos em 2024 para a UE. A Europa, por sua vez, registrou importação total de US$ 736 bilhões nesse grupo de bens.

Nos cálculos da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), no médio prazo o acordo pode levar a um aumento de 25% a 30% das exportações do setor eletroeletrônico para a União Europeia, além de permitir uma diversificação dos fornecedores de insumos para a produção industrial.

Para o governo, os dados corroboram a pretensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que o Brasil não se limite “ao eterno papel” de exportador de commodities.

“Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado”, declarou Lula após o encontro bilateral com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro nesta sexta-feira (16).

A secretária de Comércio Exterior do Mdic, Tatiana Prazeres, ressalta que o acordo, além de favorecer as exportações do Brasil para a União Europeia, garantirá ao país acesso a instrumentos mais competitivos e tecnologia. Essa modernização, segundo ela, promoverá um aumento da produtividade da indústria brasileira.

“Nossos estudos indicam que as exportações do Brasil para o resto do mundo também crescem em função do acordo [UE-Mercosul]”, afirma ela, acrescentando que o tratado traz um ambiente de maior segurança jurídica e estabilidade para as empresas.

Na siderurgia, tubos e perfis ocos de ferro ou aço estão entre os bens que podem ganhar mais mercado, enquanto, na indústria química e farmacêutica, há potencial para produtos como hidrogênio, gases raros e outros elementos não metálicos, além de medicamentos em doses para fins terapêuticos ou profiláticos.

André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), lembra que a UE sempre colocou grandes barreiras não tarifárias sobre a indústria química e petroquímica e ressalta que, com o acordo, passam a valer mecanismos que facilitam o comércio, como o reconhecimento mútuo de certificações.

Ele também vê o tratado com bons olhos sob o ponto de vista geopolítico em meio ao tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Se houver um desbalanço competitivo, o próprio acordo leva em conta mecanismos que a Organização Mundial do Comércio estabeleceu há muito tempo e que o Brasil e a Europa respeitam e usam, como salvaguardas e antidumping”, diz.

Mas o representante da Abiquim também vê desafios à frente. Um deles é o custo elevado de matérias-primas para produção de produtos químicos, o que coloca tanto Brasil quanto Europa em desvantagem competitiva em relação à China e aos Estados Unidos. Isso faz com que as trocas entre os blocos sejam entre produtos mais caros.

“Para o Brasil, o desafio é retomar o avanço em uma agenda de melhora estrutural da competitividade. […] Do ponto de vista de logística e de custo de capital, [o país] ainda tem algumas desvantagens em relação à Europa”, afirma.

O acordo UE-Mercosul também abre mercados potenciais para outros ramos, como madeiras e móveis. A Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) vê o pacto como parte de reposicionamento internacional estratégico para ambas as regiões.

Sob peso do tarifaço, a participação estadunidense nos embarques do setor recuou para 23,5% no acumulado de 2025, após anos operando em patamares próximos de 30%.

“Os Estados Unidos ainda continuam sendo um grande mercado para os móveis brasileiros, por várias características, principalmente pelo tempo que o Brasil já exporta para lá. Mas hoje a grande expectativa do setor é a Europa”, afirma o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, que advoga na defesa do setor no âmbito das relações internacionais.

Estudos conduzidos pela Abimóvel indicam que o acordo UE-Mercosul poderá gerar crescimento de 20% nas exportações brasileiras de móveis para a Europa já no primeiro ano de vigência.

Em 2024, o Brasil somou US$ 57,95 milhões em exportações de móveis (e suas partes) para a União Europeia, segundo dados do Mdic. A cifra é pouco significativa em relação ao total de US$ 32 bilhões importados pelos europeus do mundo todo naquele ano.

Países como França, Alemanha e Espanha já estão abertos ao mobiliário brasileiro, mas o acordo possibilita atingir novos mercados no Leste Europeu.

Barral, contudo, vê a lei antidesmatamento europeia como um “desafio burocrático” que exigirá adaptação de empresas de toda a cadeia, incluindo madeira e celulose.

Diversos outros produtos podem ganhar relevância na pauta exportadora brasileira com destino à Europa, como couros preparados de bovinos ou equídeos, óleo de soja e preparações alimentícias (suplementos, caramelos, confeitos e outros). Alguns mercados, apesar de não constarem no escopo do mapeamento feito pelo Mdic, também são tidos como potenciais. É o caso, por exemplo, de confecções de moda praia.

A secretária de Comércio Exterior do Mdic reconhece que a efetiva concretização das oportunidades depende de um amplo conjunto de fatores. Mas, depois de anos de negociações, Tatiana Prazeres considera que esse é o momento de virar a chave e dedicar esforços para que essas possibilidades virem negócios.

“É [necessário] um diálogo muito estreito com o setor privado, um trabalho de promoção comercial, de aproximação de empresas dos dois lados, de apresentação de oportunidades, de compreensão dos benefícios associados ao que foi estabelecido no acordo”, afirma.

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