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Economia

Brasil gera quase 4,6 milhões de empregos para beneficiários do Bolsa Família desde 2023, diz FGV

O número de quase 4,6 milhões equivale a 85,2% do saldo total de vagas geradas com carteira assinada pelo país em igual intervalo (5,4 milhões)

Redação Jornal de Brasília

30/09/2026 23h59

bolsa familia

Foto: Divulgação/ Setas

LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

O Brasil teve um saldo de geração de empregos formais de quase 4,6 milhões para beneficiários do Bolsa Família no período de janeiro de 2023 a julho de 2026, no terceiro governo Lula (PT), aponta estudo de pesquisadores da FGV (Fundação Getulio Vargas).


Esse indicador é a diferença entre as contratações (15,3 milhões) e as demissões (10,8 milhões) registradas entre os integrantes do programa de transferência de renda. Como as admissões superaram os cortes, o resultado ficou positivo.

O número de quase 4,6 milhões equivale a 85,2% do saldo total de vagas geradas com carteira assinada pelo país em igual intervalo (5,4 milhões).


Segundo os responsáveis pela publicação, os dados sinalizam uma inclusão produtiva do grupo e refutam as críticas frequentes de que o Bolsa Família afastaria os beneficiários do mercado de trabalho.


Um brasileiro pode continuar recebendo o auxílio enquanto desempenha atividades profissionais. Para isso, é necessário que a renda familiar per capita (por pessoa) siga dentro do teto de R$ 218 por mês.
“Uma crítica de que as pessoas do Bolsa Família não querem trabalhar não é uma crítica válida quando você olha para os números”, afirma o pesquisador da FGV Valdemar Pinho Neto, autor do estudo em parceria com Luiz Gustavo Barbosa.


Os beneficiários do programa responderam por 16,7% do total de contratações no país no período analisado, de 91,8 milhões, e representaram 12,5% do volume geral de demissões, de 86,4 milhões

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O estudo não detalha se os trabalhadores inscritos no Bolsa Família seguiram recebendo o auxílio depois da admissão no mercado de trabalho. A publicação indica apenas se o profissional integrava ou não a iniciativa social no momento da contratação ou do corte.


Segundo os pesquisadores da FGV, o objetivo da análise foi jogar luz sobre o tema. A divulgação ocorre às vésperas das eleições, marcadas para o próximo domingo (4).


O Bolsa Família voltou ao centro de debates em setembro, quando o governo Lula anunciou um reajuste no benefício 17 dias antes do primeiro turno.


O presidente tem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principal adversário no pleito, indicam pesquisas de intenção de voto.


O argumento da gestão petista é que o reajuste busca repor as perdas causadas pela inflação desde a reformulação do Bolsa Família, em março de 2023. A oposição, por sua vez, criticou a medida, classificando o anúncio como eleitoreiro.


O estudo da FGV também avalia a geração de empregos entre as pessoas dentro e fora do CadÚnico. Esse é o cadastro para o recebimento de auxílios do governo federal, incluindo o Bolsa Família.


Entre os inscritos no CadÚnico, o saldo de empregos formais ficou positivo em 5,8 milhões no intervalo de janeiro de 2023 a julho de 2026 –33,3 milhões de contratações e 27,5 milhões de demissões. A diferença supera o saldo total do mercado formal no mesmo período (5,4 milhões).


“Em conjunto, os resultados indicam que a dinâmica recente do mercado de trabalho formal brasileiro teve papel relevante na inclusão produtiva de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica”, diz o estudo.


O cenário tem alterações quando o grupo analisado é o de trabalhadores não inscritos no CadÚnico. Nesse caso, o saldo de empregos formais ficou negativo: -460,6 mil postos. Ou seja, as contratações (58,5 milhões) ficaram abaixo das demissões (58,9 milhões).


O saldo negativo, porém, não representa uma crise de oportunidades para pessoas fora do CadÚnico, de acordo com os pesquisadores. A possível explicação é que o aquecimento do mercado permitiu a uma parcela dos trabalhadores pedir demissão para trocar de vaga.


A fonte dos dados de emprego usada no estudo da FGV é o Caged, o cadastro de postos com carteira divulgado pelo governo federal. O levantamento cruza essas estatísticas com as informações do CadÚnico e do Bolsa Família.


JOVENS, PARDOS E MULHERES CHAMAM A ATENÇÃO
Os pesquisadores também traçaram um perfil sociodemográfico da mão de obra.


Jovens de 18 a 24 anos responderam por 40,5% do saldo de empregos gerados entre os beneficiários do Bolsa Família –1,9 milhão dos 4,6 milhões. Foi a maior participação entre os grupos de idade investigados.
No recorte de cor ou raça, há predomínio de pardos (2,9 milhões, ou 62,7%).


Quando a variável analisada é o sexo, o destaque fica com as mulheres (2,5 milhões). Elas responderam por 55,4% do saldo de empregos dos integrantes do Bolsa Família.


Por nível de ensino, o principal grupo é aquele com médio completo (78,2%).


Outro ponto analisado é o contraste regional. O estudo indica que nove estados (Maranhão, Alagoas, Ceará, Bahia, Pará, Rio Grande do Norte, Acre, Pernambuco e Sergipe) registraram saldos negativos de vagas entre não beneficiários do Bolsa Família.


Nesses locais, os resultados positivos dos integrantes do programa mais do que compensaram a retração do restante do mercado.


Em entrevista à Folha de S.Paulo em julho, o pesquisador do Insper Ricardo Paes de Barros, um dos idealizadores do Bolsa Família, disse que há espaço para melhorar o auxílio.

Na visão dele, o governo que estará à frente do Brasil a partir de 2027 deve ter entre as prioridades aperfeiçoar a focalização do programa –ou seja, “fazer mais dinheiro chegar a quem está mais pobre”.
Para Paes de Barros, também seria necessário tornar o Bolsa Família ainda mais “amigável” com o trabalho.


Questionado sobre o assunto, Valdemar Pinho Neto, da FGV, afirmou que todo programa de transferência de renda tem de passar por avaliações contínuas.


Segundo ele, iniciativas do tipo servem para aliviar restrições do cotidiano de pessoas com menos recursos financeiros.


“Quando você vive com uma renda muito baixa, tem de fazer escolhas, decisões difíceis. Vai ter de ponderar entre comprar uma roupa para ir a uma entrevista de emprego, comprar remédios ou comprar o alimento do dia a dia”, diz.


“Uma transferência de renda alivia essas restrições. As pessoas podem começar a fazer escolhas que fazem com que sejam até mais produtivas e interessantes para o mercado de trabalho.”

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