FOLHAPRESS
A Bolsa recua nesta terça-feira (7), com o ultimato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Irã aceite um acordo e reabra o estreito de Hormuz, elevando a aversão ao risco no mercado acionário.
A escalada do conflito, com ataques entre Israel, Irã e EUA, além de ameaças de Trump ao regime iraniano, também pressiona os mercados.
Às 12h51, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, registrava baixa de 0,72%, a 186.790 pontos. O movimento acompanha o exterior, onde os principais índices de Wall Street (S&P 500, Nasdaq e Dow Jones) recuavam até 1,23%.
No mesmo horário, o dólar avançava 0,32%, cotada a R$ 5,162, refletindo a maior busca por ativos de segurança.
Na manhã desta terça, o presidente norte-americano aumentou o grau das suas ameaças ao regime e à população do Irã. Trump escreveu em postagem na Truth Social que uma “civilização inteira” vai morrer em ataques americanos caso as partes não cheguem a um acordo para a reabertura do estreito de Hormuz nas próximas horas.
Nos últimos dias, o político tem reforçado o prazo que deu à liderança persa: esta terça, 21h, no horário de Brasília. O presidente americano também disse que, caso não haja acordo até lá, “todas as pontes e todas as usinas de energia” do Irã serão destruídas a partir de 1h de quarta (8).
O bloqueio do estreito de Hormuz, por onde passam 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos no mundo, lançou a economia global em turbulência. O choque de oferta, considerado sem precedentes, está se transformando em uma crise energética que fez os preços do petróleo e produtos derivados dispararem.
“Trump manteve o tom duro contra Teerã, o que elevou a percepção de risco geopolítico e segue sustentando o petróleo”, diz Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil. Nesta terça, o preço do petróleo sobe a US$ 110 com as tensões em foco.
Em paralelo, a temperatura do conflito tem aumentado. Israel e a teocracia atacaram nesta terça-feira (7) usinas petroquímicas, linhas férreas e a estratégica ilha de Kharg foram alvejadas.
Israel bombardeou nesta manhã de terça a segunda petroquímica iraniana em dois dias. O alvo foi, após a ação contra uma unidade próxima do campo de gás de Pars Sul, uma usina que segundo Tel Aviv produzia insumos para explosivos em Shiraz.
O Irã retaliou contra o complexo petroquímico de Jubail, no leste da Arábia Saudita. O local foi atacado com sete mísseis e vários drones, segundo informações iniciais, mas o governo de Riad ainda não confirmou se houve danos.
Nesta terça, a Guarda Revolucionária iraniana também afirmou que “o comedimento acabou” e que está pronta para interromper o fluxo de petróleo e gás pelo golfo Pérsico “por anos”.
Na véspera, Trump já havia dito que o Irã poderia ser destruído em uma noite. Questionado se não considerava que estava cometendo crimes de guerra ao ameaçar atingir a infraestrutura civil, incluindo pontes e usinas energéticas. “Não, porque eles são animais”, disse o presidente sobre os iranianos.
Do lado de Teerã, não há sinais de recuo. Uma autoridade do país afirmou que o Irã rejeitou uma proposta de cessar-fogo temporário intermediada por terceiros. O regime pede uma solução definitiva para os conflitos na região.
Teerã tem afirmado que a guerra continuará até quando for preciso e ofereceu aos Estados Unidos dez pontos para negociar, incluindo um acordo para o uso do estratégico estreito de Hormuz, o fim das sanções econômicas ao país e provisões para a reconstrução do país.
O conflito tem pressionado a inflação global. O crescimento econômico antes previsto foi colocado em dúvida, bem como os próximos passos de alguns dos principais bancos centrais do mundo.
Tanto o Federal Reserve, dos Estados Unidos, quanto o BC (Banco Central) brasileiro citaram a guerra nas decisões do mês passado, diante do risco de pressão inflacionária global.
Na última segunda (6), o presidente do BC, Gabriel Galípolo, defendeu o que chamou de cautela da instituição na condução da política de juros no Brasil. Ele também afirmou que a sociedade não aceita mais inflação.
“A ideia é poder tomar tempo para conhecer melhor o problema e fazer movimentos mais seguros, dar passos mais seguros, na direção da política monetária. É dessa cautela que a gente vem se beneficiando mais recentemente”, afirmou.
Para Otávio Araújo, o cenário de maior cautela do Fed tende a pressionar a Bolsa brasileira e de outros países emergentes. “Um dólar globalmente mais forte costuma pesar sobre o fluxo para países emergentes. Por outro lado, um alívio nas tensões tende a favorecer ativos de risco e dar suporte adicional a commodities e empresas ligadas a petróleo e exportação”, afirma.
Na visão da XP, um conflito prolongado e preços de petróleo altos por mais tempo são os principais pontos de atenção do conflito, à medida que as expectativas de inflação local sobem acima da meta de 3% do BC.
No Boletim Focus divulgado na segunda-feira, analistas ajustaram para cima as expectativas para a inflação em 2026 pela quarta semana consecutiva. As projeções para a alta do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) agora são de 4,36% este ano e de 3,85% no próximo, ante 4,31% e 3,84%, respectivamente, na semana anterior.
Ainda assim, a XP vê o Brasil bem posicionado para enfrentar as turbulências da guerra, “dada a alta exposição ao petróleo e o potencial de seguir atraindo fortes fluxos estrangeiros, especialmente quando as tensões arrefecerem”.