FOLHAPRESS
O dólar recua nesta quarta-feira (16), com investidores repercutindo a alta dos juros do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), que elevou a faixa da taxa básica de 3,5% a 3,75% para 3,75% a 4%, a primeira alta desde 2023.
O Fed aumentou a taxa em 0,25 ponto percentual, de forma unânime, em linha com as expectativas da maioria dos operadores. A decisão ocorre no mesmo dia da definição do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, cuja expectativa é de corte da Selic para 13,75% ao ano, ante os 14% atuais.
Por volta das 15h20, a moeda americana recuava 0,16%, a R$ 5,145. No mesmo horário, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, caía 0,17%, a 186.174 pontos.
As atenções dos investidores estão voltadas para as decisões de juros dos bancos centrais do Brasil e dos EUA.
Na tarde desta quarta-feira, o Fed anunciou a primeira alta dos juros desde julho de 2023. Naquele mês, a taxa foi elevada para a faixa de 5,25% a 5,50% ao ano, o maior nível em 22 anos. Desde então, os juros foram reduzidos e, posteriormente, mantidos até chegar à faixa anterior de 3,5% a 3,75%.
Segundo o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), a decisão foi tomada por unanimidade pelos 12 membros do colegiado. O comunicado afirma que a inflação permanece elevada e que a medida contribuirá para um retorno mais rápido à meta de 2%.
“A atividade econômica está se expandindo em ritmo sólido. Embora a incerteza permaneça elevada, em parte devido a acontecimentos geopolíticos, os gastos domésticos têm se mostrado resilientes. O crescimento da produtividade é forte, e os investimentos de capital permanecem robustos. A criação de empregos tem acompanhado o crescimento da força de trabalho”, afirma o documento.
A decisão acompanha a previsão de analistas do mercado. A expectativa de alta, que antes estava concentrada na reunião de outubro, passou a incluir a decisão desta tarde em meio à persistência da inflação no país.
O PCE, indicador de inflação preferido do Fed, subiu 3,7% nos 12 meses até julho. O CPI (índice de preços ao consumidor), último indicador divulgado antes da reunião, também avançou: a inflação acumulada em 12 meses até agosto foi de 3,4%, mesma taxa registrada em julho.
No fim de agosto, Kevin Warsh, presidente do Fed, afirmou no simpósio de Jackson Hole que a instituição teria trabalho a fazer caso a alta de preços continuasse. Para Warsh, “o progresso nos últimos dois anos tem sido modesto” no combate à inflação, que permanece acima da meta.
Nesta quarta-feira, o Comitê voltou a abordar o tema no comunicado da decisão e afirmou que “garantirá a estabilidade de preços”.
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, o comitê indicou que o Fed antevê mais uma elevação da taxa de juros em 2026. “Para 2027, não há indício de expectativa de mais elevações no documento, com a projeção em 4,1% no final do ano. Isso é uma visão menos dura do que o precificado pelo mercado e pode gerar alívio para ativos de risco neste contexto, a depender principalmente do tom de Kevin Warsh na coletiva”.
A decisão ocorre em meio a choques de oferta provocados pelo conflito no Oriente Médio. Nas últimas semanas, a guerra escalou, com novos ataques entre EUA e Irã e ofensivas contra embarcações e instalações de petróleo. O estreito de Hormuz também teve os fluxos interrompidos, e as cotações do petróleo voltaram a superar US$ 100.
O aumento acontece ainda sob pressão de Donald Trump pela redução dos juros. Nesta semana, o presidente americano afirmou que “nenhum país deveria ter taxas de juros inferiores às dos Estados Unidos”. Kevin Warsh, indicado por Trump para presidir o Fed em substituição a Jerome Powell, assumiu o cargo em meio às críticas do republicano ao banco central.
“Em linhas gerais, uma elevação dos juros americanos tende a atrair capital para os Estados Unidos e fortalecer o dólar globalmente”, diz Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX.
O dia também é marcado pela decisão do Copom, que será divulgada a partir das 18h, após o fechamento do mercado. A mediana das estimativas de analistas consultados pela Bloomberg é de redução da Selic de 14% para 13,75% ao ano.
Por aqui, analistas apontam a melhora dos indicadores de inflação como um dos fatores que justificam a redução da taxa básica de juros. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 4,22% no acumulado de 12 meses até agosto.
Caso se confirmem as expectativas, as decisões tendem a reduzir a atratividade da estratégia de carry trade. Nela, investidores tomam recursos em economias com taxas de juros mais baixas, como os EUA, e aplicam em países com juros mais altos, como o Brasil.
“A redução desse diferencial, com tudo mais constante, acaba sendo um vento contrário para o real, porque torna o carry trade menos atrativo, reduzindo o incentivo para quem realiza essa operação”, afirma Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue.
A tensão na guerra do Irã segue no radar dos investidores. Nesta quarta-feira, o petróleo Brent, referência mundial da commodity, recua mais de 1%. Ao contrário da véspera, quando o movimento favoreceu as ações da Petrobras, a baixa hoje pesa sobre os ativos locais.
O recuo ocorre após a Arábia Saudita afirmar que destruiu um drone lançado pelos houthis em direção à cidade sagrada de Meca.
Desde a semana passada, o grupo do Iêmen passou a atacar cidades sauditas, atingindo oleodutos e refinarias e interrompendo o tráfego pelo estreito de Bab el-Mandeb.
A política brasileira influencia os negócios, em meio à crise envolvendo o STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicaram a atuação do ministro Alexandre de Moraes em favor do ex-banqueiro.
A divulgação do conteúdo levou a novos desdobramentos no tribunal, incluindo o afastamento de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e de André Mendonça, relator dos casos do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), do caso que apura a ligação entre o ministro e Vorcaro.
Na terça-feira (15), começou a sessão sobre a atuação de Moraes e sua relação com Vorcaro. O julgamento, contudo, foi interrompido após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
A interpretação predominante no mercado é de que o desgaste do STF pode favorecer mais a campanha de Flávio Bolsonaro do que a de Lula, uma vez que o senador é historicamente crítico ao Supremo e usa esse discurso para defender o impeachment de ministros da corte.
Bolsa recua à espera de decisões de juros do Copom e do Fed, com petróleo no radar; dólar ronda estabilidade
No Brasil, a expectativa é de redução da taxa básica de juros, a Selic. Nos Estados Unidos, o mercado espera uma elevação dos juros
Foto: Vanderlei Almeida/AFP