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Economia

Bolsa cai mais de 2% com realização de lucros e balanços de bancos; dólar fecha estável

Nas últimas semanas, o desempenho da Bolsa tem sido impulsionado pelo maior apetite ao risco e pela entrada de capital estrangeiro no país

Redação Jornal de Brasília

04/02/2026 19h04

Foto: Reprodução

MATHEUS DOS SANTOS
FOLHAPRESS

A Bolsa de Valores brasileira caiu 2,13% nesta quarta-feira (4) e encerrou o dia aos 181.708 pontos, segundo dados preliminares, em um pregão marcado pela realização de lucros e pela desvalorização das ações de bancos brasileiros após o início da temporada de balanços.

O aumento da aversão global ao risco e a divulgação de dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos abaixo do esperado também estiveram no radar dos analistas ao longo do dia.

O movimento ocorre após a Bolsa ter fechado em nível recorde na véspera (3), acima dos 185 mil pontos pela primeira vez. Na mínima do dia, o índice chegou a cair 2,91%, aos 180.268 pontos.

O dólar, por sua vez, encerrou o pregão em alta de 0,04%, cotado a R$ 5,250, próximo da estabilidade.

Nas últimas semanas, o desempenho da Bolsa tem sido impulsionado pelo maior apetite ao risco e pela entrada de capital estrangeiro no país. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, o volume aportado por investidores estrangeiros na B3 em janeiro deste ano superou a soma registrada ao longo de todo o ano de 2025.

Na terça-feira, o Ibovespa subiu 1,57% e encerrou o dia aos 185.674 pontos, movimento sustentando pelo fluxo externo e pelo maior interesse dos investidores no mercado acionário brasileiro.

Nesta quarta, porém, o comportamento foi substituído pela realização de lucros, segundo Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil -ou seja, investidores aproveitaram as altas recentes para vender ações e embolsar ganhos.

“A piora do desempenho do Ibovespa também sinaliza uma provável saída de recursos da Bolsa doméstica após o fluxo expressivo registrado no primeiro mês do ano”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.

A aversão ao risco não se restringiu ao Brasil. Nos EUA, os principais índices acionários também registraram queda: o S&P 500 recuou 0,51% e o Nasdaq caiu 1,51%.

Ainda no ambiente doméstico, o início da temporada de balanços também pesou sobre o Ibovespa.

Nesta manhã, o Santander Brasil revelou que teve um lucro líquido gerencial de R$ 15,615 bilhões em 2025. O resultado ficou próximo do projetado por analistas consultados pela Bloomberg -um ganho de R$ 15,58 bilhões.

No quarto trimestre, no entanto, o índice de inadimplência acima dos 90 dias do Santander Brasil ficou em 3,7%, ante 3,2% no ano anterior e 3,4% no terceiro trimestre.

“A ligeira piora da inadimplência, fruto da Selic elevada, pode ter acionado um movimento de realização no setor bancário, que vem de forte alta em janeiro”, diz Pedro Galdi, analista CNPI do AGF.

Para Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, “o movimento indica ser amplo, ligado à expectativa de queda nos lucros dos grandes bancos, por inadimplência e correção técnica após altas recentes”.

As ações do Santander caíram 2,69%, cotadas a R$ 34,97, em linha com o recuo em bloco do setor. O Santander Brasil é o primeiro banco brasileiro a reportar os números de 2025. Nesta quarta à noite, será a vez do Itaú.

A possível indicação do secretário de política econômica da Fazenda, Guilherme Melo, ao Banco Central também pesou sobre o pregão.

As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) apresentaram novamente alta pelo temor de interferência na autarquia. A taxa dos DIs para janeiro de 2028 subiu a 12,695%, ante o ajuste de 12,653% da sessão anterior. A taxa para janeiro de 2035 marcou 13,435%, ante o ajuste de 13,358%.

“Depois que o nome de Guilherme Mello passou a circular, a sensação predominante foi de desconforto e cautela. Isso costuma aparecer na forma de juros mais altos nos prazos longos, pois o mercado passa a exigir uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo”, diz Rafael Lima, CEO da fintech Ótmow.

Mello tem forte ligação com o PT e participou da formulação do plano econômico do governo Lula. Sua eventual indicação, se confirmada, é vista pelo mercado como um sinal de maior influência do partido no Banco Central.

No cenário internacional, os investidores também acompanharam a divulgação do relatório ADP (Automatic Data Processing) de janeiro. O setor privado dos Estados Unidos abriu 22 mil vagas no mês, abaixo da estimativa média de 48 mil vagas apurada pela Reuters.

“Uma menor geração de empregos sugere menor pressão inflacionária e aumenta as chances de cortes de juros nos EUA. Com juros potencialmente mais baixos lá fora e taxas ainda elevadas no Brasil, cresce o apelo do ‘carry trade’, o que tende a pressionar o dólar”, afirma Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom Investimentos.

O carry trade envolve tomar empréstimos em países com juros mais baixos, como os EUA, para investir em mercados com maior rentabilidade, como o brasileiro. Quanto mais atrativa essa estratégia, maior tende a ser a entrada de dólares no país, favorecendo o real.

Apesar disso, os dados não alteraram significativamente as projeções para a trajetória dos juros americanos, hoje entre 3,5% e 3,75%. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, os investidores veem uma chance de 90% do Fed (Federal Reserve) manter a taxa na próxima reunião da instituição em março.

O Fed sofre pressão de Trump, que já solicitou diversas vezes reduções imediatas e acentuadas na taxa de juros. Na última sexta-feira (30), Donald Trump indicou Kevin Warsh para substituir Jerome Powell.
Warsh é visto como um nome de perfil hawkish, favorável a uma postura mais dura no combate à inflação, o que contrasta com o discurso de Trump.

Ainda assim, declarações recentes da Casa Branca e de Trump indicam que Warsh poderia adotar uma abordagem mais flexível do que o inicialmente esperado. “Ele tende a ter uma postura mais sensível ao crescimento econômico e menos inclinada a manter juros elevados por um período prolongado”, afirma Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos.

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