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Economia

BC autorizou banco para ex-sócio do Master quando já suspeitava de fraudes com carteiras de crédito

Lima foi preso junto com executivos do Master, incluindo o controlador Daniel Vorcaro dentro da Operação Compliance Zero

Redação Jornal de Brasília

19/01/2026 6h15

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ALEXA SALOMÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Ainda no meio das investigações para apurar se o Banco Master vendeu carteiras de crédito falsas, o BC (Banco Central) aprovou em julho de 2025 a transferência de um banco para um dos suspeitos de participar da fraude, o empresário Augusto Lima, que já foi um dos principais sócios do Master.

Lima foi preso junto com executivos do Master, incluindo o controlador Daniel Vorcaro, em 17 de novembro do ano passado, dentro da Operação Compliance Zero. Ambos foram soltos e estão com tornozeleira eletrônica. Lima e outros executivos do banco foram intimados pela PF (Polícia Federal) para prestar depoimento de 26 a 28 de janeiro.

As suspeitas sobre fraudes nas carteiras de crédito consignado do Master, negócio ligado a Lima, acenderam o alerta no BC em março do ano passado, de acordo com documentos do BC e de decisões judiciais revisados pela Folha. A denúncia do regulador para o MPF (Ministério Público Federal) relatando indícios de crimes foi feita em 15 de julho. O sinal verde para o ex-sócio comprar o banco ocorreu em 24 de julho.

O empresário obteve o controle do Banco Voiter, antigo Indusval, uma instituição financeira que encerrou 2024 com R$ 7,5 bilhões em ativos e que era controlado pelo Master desde fevereiro de 2024. Sob o comando de Lima, o nome da instituição mudou para Banco Pleno, que tem como foco no segmento de empresas.

Após sua prisão, Lima foi afastado do dia a dia do Pleno pelo BC, enquanto o banco segue operando normalmente.

O ponto de partida das investigações que culminaram com as prisões foi um fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master, como pagamento pela venda de carteiras de crédito consignado nos primeiros meses do ano de 2025.

A autarquia pediu explicações sobre a origem por meio de um ofício, e o Master respondeu, em 25 de março, que os créditos haviam sido originados por duas associações de servidores da Bahia: a Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) e a Asseba (Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia). Elas teriam concedido crédito consignado do parceiro Master a seus integrantes.

Após uma varredura, a autarquia concluiu que as entidades não tinham condições de gerar tanto dinheiro e voltou a questionar o Master. Em resposta, o banco disse que tinha, desde janeiro, um novo parceiro para ofertar crédito consignado. A partir daí, o BC apurou mais uma sequência de outras irregularidades que só piorou a situação dos envolvidos.

A decisão judicial que autoriza as prisões afirma que há indícios de que Lima tinha um esquema com as entidades da Bahia. Ele possuiu procuração para atuar como representante delas junto às instituições financeiras em geral. O telefone de contato delas era o mesmo de uma empresa de Lima na Receita Federal. Asteba e Asseba também foram alvo de busca e apreensão.

QUEM É LIMA

O empresário Augusto Lima é de Salvador (BA), onde é conhecido pela proximidade e pelo bom trânsito com os políticos baianos, especialmente do PT —apesar de o Master ser apontado como um banco de políticos do centrão e Lima ser casado, desde 2024, com Flávia Peres, ex-ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República de Jair Bolsonaro.

Sua trajetória no setor bancário começa na Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), estatal privatizada durante o governo de Rui Costa, em 2018. A partir do braço financeiro do supermercado Cesta do Povo, que fazia parte dos ativos, Lima reestruturou um cartão de compras e criou o Credcesta, um cartão de benefício consignado, com desconto em folha, para servidores ativos, aposentados e pensionistas.

Ainda naquele ano, Lima fez um acordo com Master para compartilharem o Credcesta. Na sequência, se tornou sócio do banco em 2020, fortalecendo a expansão do cartão por quase todo o Brasil. Ele era reconhecido como o homem do crédito consignado no Master.

Em 2024, o Credcesta estava em 176 municípios de 24 estados. As demonstrações financeiras daquele ano destacaram que o banco tinha crescimento expressivo na base de crédito consignado federal (INSS).

Inicialmente, a estratégia de venda de carteiras para elevar a liquidez foi puxada por operações com o Credcesta. A intensidade das operações no final de 2024 foi tal que acabou alimentando queixas, principalmente na Bahia. Reportagem da Folha mostrou a insatisfação de pessoas, que em alguns casos não reconheciam a contratação do crédito repassado ao BRB.

Com a compra do Voiter, Lima também levou a corretora Intercap e recuperou a totalidade do Credcesta, agora no Banco Pleno, que está operando com servidores municipais e estaduais.

Em outubro de 2025, o INSS suspendeu o convênio do consignado egresso do Master alegando ter encontrado irregularidades, como volume expressivo de reclamações sobre o produto e não cumprimento da instrução normativa —não apresentar autorização expressa do tomador de recursos, por exemplo.

SUSPEITAS NA BAHIA

Especialistas que já acompanharam transações bancárias afirmam que não há receita fixa para analisar a transferência societária de um banco, mas vale o bom senso. A leitura é que um caso tão sensível como o do Master demanda checagem de todos os riscos, ainda mais se o comprador é um ex-sócio relevante.

“A transferência de ativos a ex-sócio, sobretudo em um momento sensível de uma investigação, impõe a ampliação do escrutínio. É indispensável verificar se esse ex-sócio atua como terceiro interposto, consciente ou não, para afastar o bem do alcance de credores, reguladores ou autoridades”, afirma José Andrés Lopes da Costa, sócio do DCLC Advogados, especialista em direito financeiro e de mercado de capitais.

“Ignorar o risco do ex-sócio seria deixar uma lacuna relevante na investigação. Não se trata de presumir culpa, mas de cumprir o dever técnico de apuração integral do fluxo patrimonial e de seus beneficiários, especialmente quando a transferência ocorre sob suspeita e em ambiente de forte assimetria informacional.”

Procurado pela Folha para explicar como se deu a análise de venda para um ex-sócio de Vorcaro, no meio de suspeitas de fraudes, a assessoria do BC disse que não comenta temas relacionados ao Master por causa do sigilo. Pessoas que acompanham o processo e não querem ter o nome citado dizem que os técnicos da autarquia têm reafirmado que todas as decisões relacionadas ao caso possuem sustentação legal.

Existe um regramento com grandes diretrizes sobre o processo de aprovação de controle de bancos, a resolução do CMN nº 4.970, de 2021. O básico é fazer avaliação de liquidez, solvência e background do grupo para onde será transferido. O proponente não pode ser alvo processo criminal ou inquérito policial. No histórico do caso que o BC apresentou ao TCU (Tribunal de Contas da União), a autarquia diz que aprovou a transferência do Voiter para Lima porque ele preencheu os requisitos dessa norma.

Outro tema controverso é a relação de Lima com o Master. O empresário era visto com frequência no banco. Reportagens em sites especializados e veículos de circulação nacional publicaram em mais de uma ocasião em 2025 que sua saída ainda precisava ser oficializada no Banco Central.

Dados oficiais são desencontrados. O comunicado do BC sobre a liquidação do Master lista sócios e diretores, sem trazer o nome de Lima. Na sexta-feira (9), quando a Folha fez consulta ao site da Receita Federal, Lima ainda figurava como diretor do Master. A decisão judicial que autoriza a prisão qualifica Lima como sócio e diretor do Master —posições que a defesa dele nega.

“As operações sob investigação são posteriores à saída de Augusto Lima do Banco Master, ocorrida em maio de 2024, e não possuem qualquer relação com sua atuação profissional ou com decisões tomadas durante sua permanência na instituição”, afirmaram os advogados de Lima em nota enviada à Folha.

“A apuração deixará evidente a inexistência de vínculo entre Lima e os fatos examinados.”

A Folha conseguiu localizar o acordo para saída de Lima, assinado em 28 de maio de 2024. Ele se comprometeu a transferir a Vorcaro, mediante o cumprimento de algumas condições, 33, 3 milhões de ações ordinárias, que representavam 18,62% do capital social e seriam, diz o documento, a sua totalidade de ações no banco.

Formulário de Referência divulgado pela Master Corretora com dados do início de 2024, mostrava que os três sócios do Master eram Vorcaro, Maurício Quadrado e Lima, que tinha, então, 25,89% do banco. Ao final do ano, Lima e Quadrado já não apareciam, e o organograma passou a incluir um número maior de fundos na estrutura de controle, sem revelar quem é o investidor final por trás deles.

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