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Economia

Banco Central faz investigação interna sobre caso Master

Com a investigação interna, o BC busca dar transparência ao caso Master e aprimorar processos de fiscalização e supervisão se eventos semelhantes vierem a ocorrer no futuro

Redação Jornal de Brasília

29/01/2026 13h13

banco masterr

Foto: Divulgação

NATHALIA GARCIA E ADRIANA FERNANDES
FOLHAPRESS

O Banco Central está fazendo, desde o fim do ano passado, uma investigação interna para analisar a condução do processo de fiscalização envolvendo o Banco Master, desde a expansão do conglomerado de Daniel Vorcaro até a liquidação da instituição em novembro de 2025.

O processo, iniciado a pedido do presidente Gabriel Galípolo, está sendo conduzido sob sigilo pela corregedoria do BC. Ainda não há prazo para o término da investigação. Havia a expectativa de que um primeiro relatório fosse elaborado até o fim de fevereiro, mas a área tem total autonomia no caso, e a análise pode levar mais tempo em caso de desdobramentos e novas sindicâncias.

A informação sobre a investigação foi divulgada pelo jornal O Globo e confirmada pela Folha.

O ex-diretor de Fiscalização do BC, Paulo Souza, que ocupava o cargo de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária, foi afastado do posto uma semana depois da liquidação do Master.

Há pouco mais de uma semana, já afastado do cargo há cerca de dois meses, Souza pediu para deixar a função comissionada (equivalente a um cargo de confiança) e teve a saída confirmada nesta quinta-feira (29) em portaria no DOU (Diário Oficial da União).

Integrantes do BC relatam que lançamentos do balanço do Master foram motivo de divergência entre Souza e Galípolo, que chegaram a ter discussões acaloradas sobre o assunto.

Souza atuou como diretor de Fiscalização de 2019 a 2023, na gestão de Roberto Campos Neto, e depois seguiu trabalhando no BC, como supervisor de dezenas de bancos, incluindo o Master, mesmo tendo recebido ofertas da iniciativa privada para deixar a autarquia.

Ele já tinha manifestado o desejo de sair do posto comissionado há cerca de um ano, mas acabou seguindo na função à medida que se prolongava o processo do banco de Vorcaro.

Caminho semelhante ao de Souza foi trilhado pelo então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana. Até a véspera da formalização da saída da função comissionada, a pedido, a agenda pública dos chefes de unidade indicava que ele estava “ausente”. Até o momento, não há acusações formais contra os dois servidores do BC.

Em depoimento prestado à Polícia Federal, o atual diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, mencionou o nome de Santana ao comentar sobre um ofício recebido pela autoridade monetária em junho de 2025, no qual o então presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, sinalizou o início da busca de ativos no balanço do Master. O banco do Distrito Federal comprou R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito que, segundo investigadores, eram fraudadas.

Com a investigação interna, o BC busca dar mais transparência à própria atuação do órgão ao longo do caso Master, como forma de prestar contas à sociedade, e usar o episódio para aperfeiçoar procedimentos de fiscalização e de supervisão se eventos semelhantes vierem a ocorrer no futuro.

Mas alguns riscos foram mapeados pelo presidente do BC, como o desgaste no próprio corpo funcional, uma vez que envolve servidores com quase 30 anos de trabalho na autoridade monetária e respeitados pelos colegas. Isso pesou para que o pedido tenha partido do próprio chefe da autarquia. Segundo funcionários ouvidos sob condição de anonimato, o clima é de apreensão e estranhamento.

Também foi levado em consideração o risco de a defesa de Daniel Vorcaro usar conclusões da sindicância interna para contestar decisões tomada ao longo do processo. Embora exista essa possibilidade no radar, a autoridade monetária não quis se omitir, e Galípolo decidiu solicitar uma “autópsia” do caso Master.

Essa análise “post mortem”, de verificação da governança, é uma prática mais corriqueira em empresas de setor privado. A investigação não foi iniciada mais cedo, antes da liquidação do Master, para evitar especulações sobre interferência no trabalho da área técnica durante o processo.

Em nota, a ANBCB (Associação Nacional dos Auditores do Banco Central), que representa uma parcela dos servidores, disse seguir acompanhando com atenção as investigações em curso relacionadas ao caso Master e confiar no trabalho “técnico, colegiado e responsável” do BC.

Segundo a entidade, os servidores atuam com base em processos “formais, documentados e colegiados”, especialmente em áreas sensíveis como fiscalização, supervisão e resolução de instituições financeiras.

“Esses procedimentos incluem mecanismos permanentes de controle interno, rastreabilidade decisória, auditoria e prestação de contas, que amparam a correção técnica das decisões e permitem seu contínuo aperfeiçoamento institucional”, afirma. “Avaliações conclusivas e eventuais responsabilizações devem ocorrer nos foros competentes, com base em fatos apurados, provas documentadas e pleno respeito ao devido processo institucional”, acrescenta.

A atuação do BC no processo que levou a liquidação do Master também tem sido analisada pelo TCU (Tribunal de Contas da União). Como mostrou a Folha, segundo pessoas a par da investigação, a tendência é o ministro Jhonatan de Jesus dar parecer favorável à conduta do regulador.

A expectativa de ministros do TCU é que o plenário também referende o trabalho do BC, colocando fim ao episódio que dividiu a corte e desgastou a relação entre as instituições.

Uma análise preliminar da auditoria do TCU apontou que não houve inação ou falta de monitoramento contínuo no Master em atos realizados desde meados de 2024. Jhonatan deve seguir o parecer dos técnicos, se confirmados os fatos relatados pelo BC à corte de contas e não houver novos elementos.

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