LEONARDO VIECELI E ITALO NOGUEIRA
FOLHAPRESS
Uma auditoria interna da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) apontou indícios de uma “articulação governamental” para a realização de aportes conjuntos da estatal com o Rioprevidência no Banco Master.
Segundo relatório da estatal, as mudanças nas políticas de investimento da Cedae e do Rioprevidência começaram em datas próximas, assim como foram contemporâneos os aportes, no fim de 2023.
As tratativas entre a estatal de água e esgoto e executivos do banco começaram, segundo a auditoria, cinco dias após um jantar do ex-governador Cláudio Castro pago pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em Nova York. O documento aponta um possível prejuízo de R$ 222,1 milhões para a Cedae devido à aplicação de recursos no banco.
A auditoria faz parte da revisão dos atos da gestão Cláudio Castro (PL) determinada pelo desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio de Janeiro.
Os investimentos do Banco Master também são alvo de investigação da Polícia Federal, que apura atuação de Castro em favor dos aportes no banco de Vorcaro. O ministro André Mendonça, relator do inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal), afirma que há coincidências entre as datas dos investimentos e os encontros privados entre Vorcaro e o ex-governador.
Em nota, a assessoria de imprensa de Castro afirmou que “governador do Estado não participa da política de investimentos da Cedae”.
“A companhia é uma empresa de capital aberto e possui governança própria, com análise técnica, parecer jurídico, avaliação de compliance, deliberação da diretoria, Comitê de Auditoria, Conselho Fiscal e aprovação pelo Conselho de Administração, composto também por representantes dos servidores e de acionistas minoritários. As alterações na política de investimentos da Cedae passaram por todas as instâncias internas competentes e foram aprovadas por unanimidade”, afirma a nota.
A Cedae disse, em nota, que “vai instaurar procedimento de Tomada de Contas, um processo administrativo para apurar responsabilidades por danos ao erário, identificar os responsáveis, quantificar o prejuízo e buscar o ressarcimento aos cofres públicos”.
Segundo a apuração, concluída na quinta-feira (28), foi encontrada “uma concomitância temporal suspeita” à época. De acordo com o relatório, o aporte ocorreu exatamente no mesmo mês em que o Rioprevidência realizou a sua primeira alocação milionária em papéis do Master.
“As táticas foram idênticas nas duas instituições estaduais: poucos meses antes (julho/agosto de 2023), o Rioprevidência também revogou regras rígidas de segurança para permitir investimentos em fundos e letras financeiras que beneficiassem o Banco Master, sugerindo uma articulação governamental que ultrapassou os limites da própria Cedae”, diz o relatório da companhia.
A afirmação vai ao encontro de conclusões da PF, segundo a qual os investimentos no Master ocorreram após a aproximação entre Castro e Vorcaro.
A Cedae investiu R$ 200 milhões em CDBs do Master em outubro de 2023, segundo a auditoria. O primeiro aporte no Rioprevidência, segundo a PF, ocorreu em 1º de novembro do mesmo ano, de R$ 40 milhões. Em julho de 2024, as aplicações do fundo de pensão no banco já somavam R$ 970. Outros R$ 1,1 milhão foram investidos em fundos ligados à instituição financeira.
A apuração da Cedae aponta que representantes do Banco Master estiveram pela primeira vez na sede da estatal no dia 17 de maio de 2023. Cinco dias antes, Castro teve, segundo a PF, um jantar pago por Vorcaro no Nusr-Et, churrascaria do chef turco Nusret Gökçe, que ficou mundialmente conhecido como Salt Bae pela forma inusitada como despeja sal na carne. O restaurante também ficou famoso por servir carnes folheadas a ouro.
Governador não participa de política de investimentos, diz Castro
Cláudio Castro declarou que “governador do Estado não participa da política de investimentos da Cedae”.
“A companhia é uma empresa de capital aberto e possui governança própria, com análise técnica, parecer jurídico, avaliação de compliance, deliberação da diretoria, Comitê de Auditoria, Conselho Fiscal e aprovação pelo Conselho de Administração, composto também por representantes dos servidores e de acionistas minoritários”, diz a nota, enviada por sua assessoria de imprensa.
“As alterações na política de investimentos da Cedae passaram por todas as instâncias internas competentes e foram aprovadas por unanimidade. Além da atualização da linha de corte de rating, houve aperfeiçoamento dos critérios de risco e de transparência, com a obrigação de considerar os ativos principais dos fundos, e não apenas a cota do fundo exclusivo.”
A assessoria de Castro também classificou como falsa a vinculação entre o jantar em Nova York e a reunião entre executivos do Master e integrantes da Cedae cinco dias depois.
“O primeiro investimento ocorreu somente em 2 de outubro, depois do processo de cadastramento, análise interna e aprovação pelas instâncias competentes da Cedae. […] À época dos investimentos, o Banco Master apresentava situação regular, com avaliações de risco emitidas por agências de classificação, e as operações estavam em conformidade com a política de investimentos vigente”, afirma a nota.
A Cedae disse, em nota, que uma das primeiras medidas da atual administração foi mudar a política de aplicações financeiras. O objetivo, segundo a companhia, foi reforçar mecanismos de governança e controle, além de mitigar riscos na gestão dos recursos.
“A nova gestão exonerou os responsáveis pelos aportes no Banco Master e despolitizou a diretoria financeira e de relação com investidores”, afirmou a companhia.
A Cedae declarou ainda que vai instaurar um procedimento de tomada de contas para apurar responsabilidades por danos ao erário com as aplicações no Master, identificar os responsáveis, quantificar o prejuízo e buscar o ressarcimento aos cofres públicos.