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Economia

Área técnica do TCU sugere alertar governo sobre previsão de receitas com taxação de dividendos

Manutenção de uma receita que ainda não se materializou pode contribuir para uma projeção mais favorável do resultado fiscal, segundo os técnicos

Redação Jornal de Brasília

15/09/2026 14h47

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Foto: Augusto Coelho

GUILHERME PIMENTA
FOLHAPRESS

A área técnica do TCU (Tribunal de Contas da União) propôs que a corte emita um alerta à área econômica do governo Lula sobre o risco de manter na execução do Orçamento a previsão integral de arrecadação com a tributação de dividendos, apesar de o recolhimento no primeiro semestre ter ficado em apenas 5% do total estimado para o ano.

Para os técnicos, a manutenção de uma receita que ainda não se materializou pode contribuir para uma projeção mais favorável do resultado fiscal. A decisão tem permitido ao governo sustentar uma projeção de superávit superior a R$ 10 bilhões, evitando contingenciamento de recursos.

A taxação dos dividendos foi criada no intuito de compensar a isenção do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física) para quem ganha até R$ 5.000, promessa de campanha de Lula. Para 2026, esse benefício custará R$ 28 bilhões, nos cálculos do Fisco.

Em parecer obtido pela reportagem, os auditores do TCU afirmam que a manutenção da projeção de arrecadar R$ 28 bilhões para 2026, diante de uma arrecadação de apenas R$ 3,15 bilhões até julho, eleva o risco de superestimação das receitas e pode prejudicar a avaliação sobre a necessidade de congelamento de despesas.

A proposta de alertar a equipe econômica será analisada pelo relator do processo, ministro Antonio Anastasia, nesta quarta-feira (16). A Lei de Responsabilidade Fiscal prevê que esse tipo de medida tenha caráter preventivo a respeito de riscos para o cumprimento da meta fiscal, mas não representa punição ao governo nem determina automaticamente o contingenciamento de despesas.

No último relatório bimestral de receitas e despesas, publicado em julho, o governo anunciou que ainda esperava arrecadar mais R$ 14 bilhões entre agosto e dezembro com a taxação dos dividendos, embora o montante recolhido nos primeiros seis meses tenha representado somente 5% do total.

Na próxima semana, o governo divulgará o novo relatório com as projeções do Orçamento para o ano.

Questionada se revisará para baixo a projeção com os dividendos, a Fazenda se limitou a dizer que os ajustes no orçamento serão anunciados “no momento oportuno”, no próximo relatório bimestral.

O problema apontado pelos técnicos do TCU é a velocidade necessária para que a projeção atual seja cumprida. Segundo o parecer, para o governo arrecadar R$ 14 bilhões entre agosto e dezembro, as receitas teriam de ser em média de R$ 2,81 bilhões por mês. Até julho, a média mensal havia sido de apenas R$ 450 milhões. Ou seja, o ritmo de arrecadação precisaria ser 6,24 vezes maior no restante do ano.

O problema, segundo os auditores, é que não há memória de cálculo mensal suficientemente detalhada pela Receita Federal para demonstrar que a arrecadação pode crescer no segundo semestre, o que daria argumento para o governo sustentar a manutenção da projeção de arrecadação.

Na prática, a manutenção do cronograma de arrecadação com os dividendos permite que o governo projete o superávit atual de R$ 10,7 bilhões este ano. Caso a Receita Federal tivesse optado por reduzir as estimativas, a depender da magnitude do corte, a projeção para o resultado primário do ano poderia se transformar em déficit, o que levaria o governo a contingenciar recursos do Orçamento para cumprir o limite inferior da meta fiscal.

A meta fiscal para 2026 prevê superávit equivalente a 0,25% do PIB (Produto Interno Bruto), equivalente a R$ 34,3 bilhões. Mas a legislação permite uma margem de tolerância que permite um resultado zero, já que é permitida uma variação negativa da meta em até 0,25% do PIB. Caso a projeção de receita seja inferior a esse piso, o governo precisa utilizar o mecanismo do contingenciamento e limitar a execução de gastos.

Em agosto, a Folha de S. Paulo revelou que o TCU já havia questionado a Receita sobre a metodologia usada para chegar à projeção. Naquele momento, o tribunal apontava riscos relacionados às premissas utilizadas pelo Fisco e pedia maior transparência sobre a metodologia adotada.

Agora, o documento produzido pela área técnica avança em relação àquela apuração: o foco deixa de ser apenas a qualidade da estimativa e passa a ser o efeito da manutenção dessa receita sobre a execução fiscal de 2026.

“Até a publicação do relatório, o Ministério da Fazenda não antecipa revisões específicas de projeções ou resultados que integram o processo oficial de avaliação fiscal. Eventuais atualizações nas estimativas de arrecadação serão divulgadas de forma transparente e simultânea ao conjunto das demais projeções fiscais constantes do relatório”, afirmou a pasta em nota.

O governo federal também tem sustentado o atingimento da meta fiscal este ano com base nos efeitos dos impactos da guerra no Oriente Médio no preço do petróleo, o que consequentemente eleva a arrecadação das receitas que têm algum tipo de vinculação a essa commodity.

Outra fonte de arrecadação que preocupa a equipe econômica são os dividendos das empresas estatais. No primeiro semestre, somente 20% do valor esperado entrou nos cofres da União.

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