Menu
Economia

Área da União usada pelos Vorcaro em projeto de carbono teve venda paralela de créditos ambientais

Território federal de quase 144 mil hectares serviu de base para transações ambientais milionárias e levantou questionamentos sobre legalidade fundiária

Redação Jornal de Brasília

05/02/2026 13h33

Foto: Reprodução/PF

Foto: Reprodução/PF

ANDRÉ BORGES E JOÃO GABRIEL
FOLHAPRESS

Uma área federal de 143,9 mil hectares localizada na amazônia, usada pela família do banqueiro Daniel Vorcaro para criar um projeto bilionário de estoque de carbono, também serviu de base para alimentar uma venda paralela de créditos ambientais.

Ambos os projetos estão ancorados no mesmo território que pertence à União e que, por isso, não poderia ser usado para o comércio privado de títulos ambientais.

Informações obtidas pela reportagem mostram que, enquanto as operações bilionárias com carbono eram estruturadas por meio de uma parceria entre a família Vorcaro e fundos da administradora Reag, em meados de 2020, com a criação de firmas bilionárias da noite para o dia, uma empresa chamada Brasil Mata Viva (BMV) já fazia transações efetivas de venda de títulos de carbono.

A entrada da família Vorcaro no negócio se deu entre 2020 e 2021, quando a Alliance Participações, controlada por Henrique Vorcaro e Nathália Vorcaro, pai e irmã do dono do Banco Master, passou a deter o direito de comercializar “unidades de estoque de carbono” da Fazenda Floresta Amazônica, como hoje é chamada a área da União. Para isso, os Vorcaro pagaram R$ 15 milhões a Marco Antonio Melo, pretenso dono da área localizada em Apuí (AM).

No caso da Brasil Mata Viva, porém, o negócio com carbono partiu para negociações efetivas com centenas de compradores. Conforme informações obtidas pela reportagem, a BMV usou um site para vender suas Unidades de Conservação Sustentável (UCS). O negócio se deu por meio de uma plataforma batizada de Tesouro Verde.

A reportagem reuniu dados sobre todas as transações feitas pelo site. No total, a Brasil Mata Viva registrou 421 propriedades neste sistema e comercializou 15.083 certificados de UCS entre 2018 e 2024.
Os dados mostram que mais da metade deles, 8.075, são vinculados exclusivamente à Fazenda Floresta Amazônica (que é terra da União). Eles foram vendidos pela BMV quando o projeto dos Vorcaro já estava em pleno andamento na área.

A Brasil Mata Viva diz que os créditos de carbono gerados na área foram produzidos antes de haver questionamentos fundiários.

O peso da fazenda irregular nas operações também aparece no faturamento com o negócio da BMV. As transações associadas à Fazenda Floresta Amazônica somaram R$ 1,170 milhão entre 2018 e 2024. Neste caso, não se trata de volume financeiro usado para artificialmente inflar demonstrações contábeis, como no caso dos Vorcaro. Foi dinheiro vivo que entrou na conta.

O valor recebido equivale a mais de 50% de todo o volume movimentado pela plataforma Tesouro Verde, que alcançou R$ 2,183 milhões no mesmo período. Isso denota que a Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí, foi o grande negócio da BMV.

A reportagem obteve a lista de cada um dos compradores destes créditos. Entre pequenas e grandes transações, a relação de clientes inclui nomes de peso, como Azul Linhas Aéreas, banco Santander e o Basa (Banco da Amazônia), por exemplo.

Em 17 de dezembro de 2021, a Azul Linhas Aéreas comprou seis unidades de carbono da Fazenda Floresta Amazônica, ao preço total de R$ 1.105,68. O Santander comprou 11 unidades e gastou R$ 1.305,80.

O Basa foi além e decidiu comprar 351 unidades em 31 de março de 2022, e outras 365 unidades em 3 de abril de 2023. Ao todo, as 716 unidades tiveram preço total de R$ 125.314,32.

Por meio de nota, a Brasil Mata Viva declarou que as unidades de carbono da área foram geradas antes da “identificação de questionamentos fundiários, os quais somente vieram a ser apontados anos depois”, a partir de sistemas públicos de georreferenciamento.

“O modelo da BMV trabalha com UCS geradas de forma retrospectiva, referentes exclusivamente à safra de 2010, período no qual não havia, à época, qualquer apontamento oficial conclusivo de irregularidade nos registros disponíveis”, declarou a empresa.

Na prática, a BMV afirma que vendeu, entre 2018 e 2024, créditos de carbono de uma realidade da floresta que captou em 2010.

A empresa afirmou que as unidades vinculadas à fazenda “foram integralmente bloqueadas no sistema BMV tão logo surgiram indícios de inconsistências documentais, tornando-se inaptas para qualquer funcionalidade de certificação ou compensação ambiental”.

“A BMV dispõe de documentação técnica, registros históricos, evidências cartográficas e comprovações jurídicas que sustentam integralmente os esclarecimentos”, declarou a empresa. “Tais documentos estão protegidos por sigilo contratual, normas de proteção de dados e obrigações legais”.

As fragilidades fundiárias da área já eram conhecidas há tempos. Em 28 de dezembro de 2005, o Incra já tinha feito publicação no Diário Oficial da União para registrar a criação do Projeto Agroextrativista Aripuanã Guariba sobre a área.

Em 2015, a unidade regional do Incra no Amazonas já havia notificado a pretensa fazenda de que a área estava em cima de uma gleba pública. Os dados também podiam ser verificados em fontes públicas, como o Sistema Nacional de Cadastro Rural do Incra, desde 2017, o qual permite emitir e verificar autenticidade de Certificados de Cadastro Rural.

Em fevereiro de 2023, uma análise de risco sobre a titularidade da fazenda contratada pelo projeto dos Vorcaro, junto ao Levy Advogados, também chamava a atenção para a necessidade de se fazer um georreferenciamento do local “para evitar eventual sobreposição de áreas”.

Em janeiro de 2024, o Incra rejeitou um pedido do pretenso proprietário, Marco Melo, que tentava cancelar a certificação de uma terceira pessoa que requeria a área, por entender que nenhum deles era dono da terra.

Mesmo assim, a Fazenda Floresta Amazônica continuou sendo apresentada como apta a gerar créditos ambientais privados.

Na semana passada, o Incra sepultou de vez o projeto dos Vorcaro, ao rejeitar um termo de ajuste de conduta apresentado pela Alliance.

Os bancos Santander e Basa, que compraram créditos da BMV, foram procurados pela reportagem, mas não responderam até a publicação deste texto. A Azul declarou que adquiriu “créditos de floresta, de forma pontual, em dezembro de 2021 e válidos até dezembro de 2022”.

“A transação foi realizada conforme critérios legais, por meio de plataforma especializada e verificada por instituição certificadora internacional. A Companhia segue padrões rigorosos de transparência, trabalhando somente com projetos alinhados às melhores práticas internacionais”, comentou.

A empresa que mais comprou UCSs da Fazenda Floresta Amazônica foi a Mina Tucano, empreendimento de exploração de ouro localizado no Amapá e que hoje pertence à Tucano Gold, ligada a um grupo canadense. Foram quase R$ 710 mil gastos com esses certificados, em quatro rodadas de compras, entre 2020 e 2025.

A empresa não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Entenda

Crédito de carbono

É uma unidade que representa a redução ou compensação de uma tonelada de CO₂ equivalente, certificada por padrões reconhecidos e negociada em mercados regulados ou voluntários. Para existir legalmente, esse crédito precisa de certificação independente, rastreabilidade e lastro fundiário válido. Não é isso o que a BMV e a Alliance vendem.

Estoque de carbono

Método usado pela Alliance, de parentes de Daniel Vorcaro, para viabilizar seus negócios, se refere à quantidade de carbono armazenada na vegetação, no solo e na biomassa de uma área florestal. O estoque pode ser medido para fins científicos, mas não é um crédito negociável nem existe no mercado real de carbono.

BMV (Brasil Mata Viva)

A empresa privada criou um padrão próprio de ativos ambientais, chamados de Unidades de Conservação Sustentável (UCS). A BMV calcula, registra e comercializa essas unidades com base em sua própria metodologia baseada em “manutenção de reservatórios de carbono”.

Alliance Participações

A empresa da família Vorcaro estruturou projetos de estoque de carbono lastreados na Fazenda Floresta Amazônica. Esses projetos sustentaram avaliações bilionárias e aumento de patrimônio, apesar de não haver vendas no mercado.

Fazenda Floresta Amazônica

Área localizada em Apuí (AM) que embasou projetos de carbono e vendas de créditos ambientais. O Incra afirma que se trata de terra pública da União, destinada à reforma agrária, o que torna irregulares as transações comerciais baseadas nela.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado