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Economia

Acordo assinado entre Goiás e governo dos EUA prevê compartilhar mapeamento de minerais críticos

No documento, também consta entre os objetivos do memorando apoiar uma transição para um mercado de minerais críticos aberto para incentivar investimentos em Goiás, Brasil e EUA

Redação Jornal de Brasília

19/03/2026 18h42

minerais criticos

Operação de mineração. Foto: CUHRIG/Getty Images

PATRÍCIA CAMPOS MELLO E PEDRO LOVISI
FOLHAPRESS

O memorando de entendimento em minerais críticos que o governo de Goiás assinou com o Departamento de Estado americano prevê que dados produzidos em levantamentos geológicos para projetos apoiados pelos EUA sejam compartilhados com o governo americano, segundo interlocutores a par do documento.

Na visão de parte do governo brasileiro, isso representaria um risco porque seria o compartilhamento de informações estratégicas sobre localização de reservas de minerais críticos e potencial de exploração com uma potência estrangeira, em um momento em que ainda não há um marco regulatório para o setor no Brasil.

No documento, também consta entre os objetivos do memorando apoiar uma transição para um mercado de minerais críticos aberto para incentivar investimentos em Goiás, Brasil e EUA. Mas o governo federal e o Congresso ainda não definiram o marco regulatório de minerais críticos e talvez decidam ter restrições em alguns setores.

Procurados, a assessoria do governo de Goiás, da embaixada e do consulado americanos não enviaram a íntegra do memorando de entendimento à reportagem. O documento não é público.

Parte do governo brasileiro vê uma tentativa dos EUA de emplacar seus princípios para cooperação em minerais críticos. Os EUA convidaram o Brasil para participar de uma reunião ministerial de minerais críticos em Washington em fevereiro. O Brasil enviou apenas um diplomata de escalão inferior para ser observador na reunião. No encontro, o governo Trump assinou acordos bilaterais com vários países prevendo fornecimento preferencial de minerais críticos, parte da estratégia americana de reduzir sua dependência das exportações chinesas.

O Brasil, que detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, recusa-se a assinar tratados que exigem exclusividade ou acesso preferencial a essas matérias-primas essenciais para produtos de alta tecnologia. Os EUA vêm pressionando países a fecharem entendimentos com essas amarras, rechaçadas pelo governo do Brasil. E o governo brasileiro também quer contrapartidas para estimular o processamento dos minerais críticos em solo brasileiro.

Uma ala do governo brasileiro também acha contraproducente anunciar acordos com estados ao mesmo tempo em que o governo federal negocia com Washington uma cooperação em minerais críticos, a ser anunciada na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Donald Trump. A visita estava prevista para março, mas acabou não saindo. Segundo o governo brasileiro, ainda não há uma data.

Segundo o secretário de Governo de Goiás, Adriano da Rocha Lima, não há risco estratégico no compartilhamento desses dados. “A Austrália fez um mapeamento de seu subsolo a um custo de US$ 200 milhões, divulgou para o público e, em alguns anos, conseguiu captar US$ 4 bilhões em investimentos em mineração, porque os investidores passaram a dispor de dados para a exploração”, disse. “Queremos fazer o mesmo em Goiás, onde estimamos que isso custaria R$ 200 milhões.” Segundo ele, o estado tem três minas identificadas, mas ainda há inúmeras a serem mapeadas.

Lima afirma que o memorando de entendimento não entra em atribuições do governo federal, como as outorgas para exploração. “Assinamos um acordo que estimula a exploração e o processamento desses minerais em Goiás.”

Na opinião de Gláucia Cuchierato, diretora-executiva da GeoAnsata, o compartilhamento de dados geológicos não é incomum. “Esses dados geológicos produzidos por órgãos estaduais, como IPT em SP, CBPM na Bahia, Codemig em Minas Gerais e os extintos Mineropar (PR) e Metago (GO), são, em regra, públicos, com o intuito de divulgar os dados setoriais (relatórios, mapas, bases digitais etc.), e são acessíveis a qualquer interessado, inclusive empresas e governos estrangeiros”, diz. “O que um memorando desses faz é mais formalizar ou organizar essa cooperação, não criar algo fora do padrão.

Não vejo nada de excepcional, talvez uma institucionalização de algo que, na essência, já acontece.”

O secretário Rocha Lima nega que o acordo poderia ser uma maneira lateral de influenciar as regras para exploração. “Tanto que já assinamos um acordo semelhante com o Japão, antes de assinarmos com os americanos.” Ele afirma que o texto não prevê reserva de mercado ou exclusividade no fornecimento, mas não divulga o conteúdo do texto na íntegra.

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