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‘A crise vai ser superada com novas lideranças’, diz presidente da FDC

Por Agência Estado 26/09/2016 10h12

Desde o início do ano à frente da Fundação Dom Cabral, Antonio Batista da Silva Junior faz questão de ressaltar a excelência da escola no trabalho de ajudar empresas a melhorarem fluxo de caixa, logístico ou otimizar processos. Não é à toa que fundação é eleita há 11 anos a melhor escola de negócios da América Latina, segundo o jornal inglês <i>Financial Times</i>.<p><p>No entanto, o executivo admite que ter um bom desempenho econômico já não é mais o suficiente para uma corporação nos tempos atuais. "Não adianta só ter lucro, precisa ter reputação, resiliência e mostrar respeito no relacionamento com os <i>stakeholders</i> (seus diversos públicos)." Ler, a seguir, os principais trechos da entrevista.<p><p><b>Com a Operação Lava Jato e brigas societárias frequentes, a questão da governança está mais importante no País?</b><p>A questão da governança é global e atual. As empresas multinacionais têm se preparado com adoção de sistemas de compliance e regras de transparência. Agora, as empresas brasileiras, mesmo as de médio porte, estão se estruturando também, para ganhar mais estabilidade nas tomadas de decisão, na relação entre o executivo e o conselho e também com o mundo externo. Todas as práticas passam a ser mais fiscalizadas e reguladas.<p><p><b>Isso pode ajudar na reputação dos negócios?</b><p>Vivemos uma crise de confiança nas instituições, desde as empresas até a igreja. É um fenômeno mundial. No Brasil, vivemos uma situação especial, que é a discussão da ética, da corrupção, da relação entre o público e o privado. E, para superar essa crise, precisamos de líderes fortes, tanto empresariais quanto políticos e sociais. A crise vai ser superada a partir da emergência dessas novas lideranças.<p><p><b>É preciso substituir as pessoas ou bastam novas regras?</b><p>Precisamos de um novo conceito de liderança, seja com pessoas novas ou com a capacitação das antigas. Esse desenvolvimento passa pela educação. Não dá para transformar um país sem transformar as pessoas. E isso vale para as empresas. Durante muito tempo, as organizações só pensavam no lucro financeiro, era o que as escolas de negócios ensinavam, era fácil prever o futuro com base em gráficos de indicadores passados. Isso mudou. <p><p><b>O cliente hoje tem outras demandas, além do produto? </b><p>Estamos vivendo quatro mudanças. A primeira é a dispersão de poder, que passou dos detentores dos meios de produção para o consumidor e a sociedade civil organizada. A segunda, são as novas ideias, que incluem um novo conceito de Justiça. Com as pessoas vivendo mais próximas, em centros urbanos, as injustiças ficaram mais evidentes para a sociedade. Depois vem o compartilhamento, com empresas como Uber e Airbnb desafiando negócios estabelecidos. E, por fim, a tecnologia, que causa impacto em todos os negócios e também a forma como as pessoas se relacionam com as organizações e o governo. A tecnologia torna a fiscalização desses agentes muito mais fácil.<p><p><b>E o que precisa mudar?</b><p>Um exemplo é a relação das grandes empresas com o governo, que sempre foi marcada pelo clientelismo. Algo que sempre ocorreu agora explodiu e está exposto. Esses desenvolvimentos mudam a percepção sobre o Estado. O caso do nadador Ryan Lochte, que foi pego em uma mentira durante a Olimpíada, é um bom exemplo. Antes, importava o resultado do nadador na piscina. Agora, não é mais assim. E ele perdeu patrocínios, teve um prejuízo enorme por causa de uma mentira. Com as empresas é a mesma coisa. Não adianta só ter lucro, precisa ter reputação, resiliência e mostrar respeito no relacionamento com seus<i> stakeholders</i>. Os executivos e os conselhos vão ter de entrar nessa conversa. O jogo agora não é o lucro do curto prazo, mas a imagem da empresa no longo prazo.<p><p><b>As empresas estão realmente preocupadas com esse legado?</b><p>Há uma conscientização nesse sentido, mas não é uma prática estabelecida. Há as vanguardistas, como a Natura, que têm um capital de reputação esplêndido, construído de maneira genuína durante décadas. E há aquelas que conseguiram queimar a reputação que tinham ao serem envolvidas na Operação Lava Jato. É bom lembrar que algumas empresas citadas, como a Petrobrás e a Odebrecht, receberam no passado prêmios de governança no exterior. Mas tinham fragilidades em seu sistema que corroeram essa reputação.<p><p><b>Isso também ocorre no exterior, com empresas como Volkswagen e Siemens.</b><p>Sim, não é algo brasileiro. Teve a Siemens, a Volkswagen, a British Petroleum com o vazamento no Golfo do México, a crise americana que carregou os grandes bancos.<p><p><b>Como fica o papel da Dom Cabral, como escola de negócios, dentro desse novo cenário?</b><p>A escola é procurada por duas razões. A primeira é resolver problemas econômico-financeiros. E nisso temos 300 professores e 40 anos de tradição. Sabemos ajudar as empresas a melhorar fluxo de caixa, logística, otimizar processos e a compreender melhor as necessidades dos clientes. A outra questão é a formação de líderes, pois todas as empresas são do tamanho das pessoas que nela trabalham – não são menores nem maiores. As empresas hoje são cheias de especialistas apaixonados pelo que fazem, mas precisamos que sejam capazes de pensar o negócio como um todo, que liderem pessoas e obtenham resultados por meio delas. Na fundação, estamos questionando a concepção dos programas, no sentido de que os líderes não devem pensar só em resultados econômicos. Eles têm de ser menos escravos da performance e mais agentes do progresso. O líder precisa pensar no todo – a sociedade, os clientes e a corporação, evidentemente. <p><p><b>Como isso se reflete na grade dos cursos?</b><p>Queremos que os nossos professores tenham uma compreensão de outras disciplinas. Temos trazido disciplinas não só de gestão, mas de filosofia, sociologia, psicologia, artes. Temos encorpado o programa tradicional com outras ciências. E também tratando o conceito da sustentabilidade em todas as disciplinas. A ideia é uma visão mais humanista e menos ferramental. O CEO hoje, além de trazer resultados e equilibrar interesses, precisa também deixar um legado.<p><p><b>Essa ideia do legado atende a mudanças na sociedade?</b><p>Sim, é uma percepção do dia a dia. É o filho que não quer mais tirar carteira de motorista, quer andar de bicicleta, ou que não compra um produto na prateleira do supermercado porque a imagem daquela empresa não é boa. Há empresas que percebem essa transformação social e começam a agir; há outras que serão levadas a agir. Eu vejo essa transformação com muito otimismo, e todo o mundo terá de mudar. As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b> <br /><br /><b>Fonte: </b>Estadao Conteudo








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