A virada do ano foi de alarme para o dono de uma academia de crossfit no Guará. Fora da cidade, ele soube que seu estabelecimento, que nem chegou a ser inaugurado, sofreu com a ação de bandidos. Foi furtado pela oitava vez em três meses e pichado em todas as portas de correr. Na cidade, não há espaço em branco que resista aos pichadores. Residências, comércios, áreas públicas, placas, bancos. Em todos os cantos, há escritas em spray, e isso se estende a outras regiões.
A Secretaria de Segurança Pública e Paz Social (SSP) conta que o número de pichações registradas nas delegacias cresceu 31% no último ano. Em 2014, foram 86 casos, contra 113 em 2015. Não há, porém, dados específicos para a cidade.
“Como os casos acontecem geralmente durante a noite e de forma velada, o trabalho da Polícia Militar se baseia em rondas ostensivas para tentar inibir a prática. Quando há flagrante, os autores e os materiais são encaminhados à delegacia mais próxima ou à Delegacia Especial do Meio Ambiente (Dema) para registro da ocorrência”, explica a pasta, em nota.
Prejuízo
“Até pensei em colocar grades, mas não sou eu quem tem que ficar preso”, diz Thiago dos Anjos, de 34 anos. Dono do da academia, ele estima um prejuízo de cerca de R$ 2 mil de setembro para cá, quando começaram as obras da nova sede do estabelecimento, na QE 13. O último caso foi na véspera do réveillon, quando as pichações apareceram e se multiplicaram.
“Essa quadra está muito perigosa, e a pichação polui a cidade. É desagradável. Só eles entendem o que significa. O complicado é que não tem muito o que fazer. A polícia vira as costas e eles agem”, lamenta Thiago. Ele vai fazer um apanhado com fotos e tentar identificar os autores. Mesmo com pistas, está descrente: “Não prendem”.
Thiago não pretende pintar a área pichada. “É um gasto que não preciso ter agora. Vou colocar câmeras, sensores e alarmes”, promete. E, nas ruas do Guará, o excesso de rabiscos indica que a atitude é comum. A população se cansa de tentar manter os espaços limpos e cede às ações dos criminosos.
Saiba mais
Há cerca de um mês, dez pichadores foram presos em três dias. O administrador regional conta que uma revitalização havia sido feita quando foi alvo de vândalos.
Antes de pintar novamente, ele avisou à polícia que teria montado uma operação para prender em flagrante caso acontecesse novamente. E aconteceu: oito foram parar na delegacia. Dois dias depois, mais dois foram flagrados na Casa da Cultura.
“Não adianta” pintar ou denunciar
“Pintamos em um dia e, no outro, já estava pichado. Desisti de pintar porque eles sempre voltam. Não adianta. Fica caro”, explica a esteticista Kátia Mendes, de 34 anos. Denunciar também já está fora dos seus planos. “Não adianta”, justifica a jovem.
“Essas pichações enfeiam a cidade. Dá sensação de criminalidade. A gente investe no imóvel para uma pessoa simplesmente vir depois e sujar tudo. É chato”, lamenta a esteticista.
Nem a proximidade com a administração regional da cidade ou com o Batalhão da Polícia Militar impede a ação dos pichadores.
Garranchos incompreensíveis e visualmente agressivos são encontrados até onde a vista alcança por todos os lados do Guará. As autoridades competentes, no entanto, dizem agir para impedir e punir as ações daqueles que sujam muros, paredes e monumentos.
Mera contravenção penal
A Polícia Militar garante que realiza patrulhamento diuturnamente à pé, motorizado, em bicicletas e com outras viaturas. O administrador regional do Guará, André Brandão, diz fazer reuniões periódicas com o conselho de segurança e a associação comercial da cidade, ocasiões em que o tema é abordado. “A intenção é que, toda vez alguma pichação apareça, a gente envie à polícia para investigação. Estamos unindo a comunidade para pressionar”, destaca.
Prevista na Lei dos Crimes Ambientais, a pichação é considerada contravenção penal, e a pessoa flagrada pode pegar pena de detenção de três meses a um ano e multa. Quando feita em monumentos tombados como patrimônio artístico ou histórico, a pena mínima é aumentada para seis meses, e a máxima permanece um ano, além de multa. Mas ninguém é preso.
Vice-presidente da Comissão de Ciências Criminais e Segurança Pública da OAB-DF, Joaquim Pedro explica que o delito é de menor potencial ofensivo e que realmente é difícil um flagrante levar à prisão. “Não há interesse do Estado em mandar uma pessoa dessas para a cadeia. O interessante seriam penas que viabilizassem a restauração para reparar o dano”, acredita.
Projetos visam atenuar
O governo mantém dois programas de conscientização para jovens a fim de impedir que as pichações comecem. Um deles, Picasso não Pichava, insere jovens em atividades artísticas e culturais e atende, em seis regiões administrativas, inclusive o Guará, cerca de 80 jovens por dia. O número deve dobrar até o fim do primeiro semestre.
O programa Esporte à Meia Noite, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Educação, Esporte e Lazer, tem nove núcleos e acolhe, em cada um, 50 jovens por noite, com incentivo à prática de esportes.
Criminalidade no Guará
A Secretaria da Segurança Pública tem dados consolidados dos primeiros 11 meses do ano passado. Nesse período, foram registrados 15 casos de homicídios, dez a mais que no igual intervalo em 2014. As tentativas de homicídios, por sua vez, caíram de 22 para dez casos.
Ainda assim, a pasta destaca que houve redução de 26,2% no acumulado do ano passado dos crimes contra o patrimônio no Guará: roubos a transeuntes, de veículos, em coletivos, em comércios e os furtos em veículos.
Nos mesmos onze meses, o número de flagrantes de tráfico de drogas na cidade aumentou 77,5% de 2014 para 2015. A secretaria conta que foi de 40 para 71 casos.
“É importante ressaltar que esse aumento está relacionado à produtividade policial, à realização de ações contra essa modalidade criminosa, e não ao crescimento do tráfico ou ao aumento do número de traficantes”, destacou a pasta.