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Brasília

Desempregado há dois meses, motorista distribui currículos nos semáforos

Arquivo Geral

10/12/2015 6h00

Ingrid Soares

ingrid.soares@jornaldebrasilia.com.br

Não está fácil para ninguém. Cansado de procurar emprego pelos meios tradicionais e sem sucesso, o motorista Flávio Leonardo Soares Dias, 34 anos, teve uma ideia inusitada. Ele começou a distribuir currículos nos semáforos. Flávio está desempregado há dois meses.

Segundo ele, a ideia surgiu depois que percebeu que só tinha o dinheiro da passagem de volta para casa, na Cidade Ocidental (GO), e ainda restavam muitos currículos naquele dia para serem entregues nas empresas. Ele ressalta que nada foi premeditado.

“Na segunda-feira, saí para distribuir currículo na Cidade do Automóvel. Entreguei muitos, mas ainda havia alguns e, como tinha dinheiro apenas para voltar para casa, fui a pé até a rodoferroviária e peguei o ônibus de volta. Passando pelo Lago Sul, pensei que ali havia muitas pessoas com poder aquisitivo alto, que geralmente precisam de motorista. Desci na mesma hora e, quando olhei o semáforo, me ocorreu essa ideia. Se o povo pede dinheiro, vende balinha, saco de lixo e pano de chão, vou entregar meu currículo aqui também. Só de alguém pegar já é um começo”, relata.

Repercussão

Nesse dia, ele distribuiu cerca de 40 documentos. Um deles chegou às mãos de Viviane Bezerra, que contou a história e postou em seu perfil em uma rede social na esperança de ajudar de alguma maneira. A história chamou a atenção de muita gente e se espalhou. Ela teve mais de 16 mil curtidas, 2.937 compartilhamentos e vários comentários. 

Segundo Viviane, ela viu um homem oferecendo papéis no sinal em que estava parada. Até aí, nada demais. Mas ela se admirou quando viu o que era entregue aos motoristas. “Foi uma cena inusitada. Ele veio me entregar um papel no sinal, achei que fosse mais uma propaganda. Mas me surpreendi quando vi que se tratava de um currículo. Ele não pedia dinheiro nem nada, queria apenas um emprego. Fiquei sensibilizada com aquele ato. Como não conhecia ninguém, pensei em como podia ajudar. Como falei no post, ‘não o conheço, mas dá para notar que ele é esforçado’”, relata.

Flávio mora com os pais e afirma que a situação financeira está complicada. Agora ele tem um motivo ainda maior para encontrar um emprego: a namorada está grávida de um mês. 

Convite para ir ao Buriti

Em menos de três dias, o motorista Flávio Leonardo Soares Dias recebeu propostas para a área de vendas, mas afirma que a experiência e o perfil que possui é para ser motorista. 

Na manhã de ontem, ele recebeu um convite e se reuniu com o assessor do governador Rodrigo Rollemberg. “O assessor viu a minha história, se sensibilizou e quis falar comigo. Conversamos, deixei meu currículo e disseram que vão tentar ajudar. Me pediram para esperar. Enquanto isso, continuo na busca e na expectativa”, diz o motorista.

O motorista  planeja fazer faculdade de Direito assim que tiver condições. Devido ao salário baixo, ele deixou o emprego e, desde então, está à procura de um novo ofício. “Tem gente que fica dez anos em um emprego só, acomodado. Eu não. Onde for melhor para mim eu vou atrás. Preciso trabalhar e isso não é errado. Todos têm como ganhar dinheiro de forma honesta”, conta Flávio.

Ele conta que a reação das pessoas ao verem ele entregando o currículo foi positiva: “Elas foram muito receptivas. Algumas davam força, outras falavam que iam entregar para um amigo e que iam passar para   frente. Essa moça (Viviane) foi um anjo na minha vida. Não esperava essa repercussão toda”, admira-se.

Saiba mais

Pelo 3º mês consecutivo desde agosto, a taxa de desemprego no DF aumentou. Passou de 14,6% em setembro para 15,1% em outubro. O número de desempregados para o último mês foi estimado em 230 mil pessoas — 5 mil a mais do que o registrado em setembro. O resultado decorre da saída de 15 mil pessoas do grupo da população economicamente ativa, simultaneamente à perda de 20 mil postos de trabalho. Os dados são da Pesquisa de Emprego e Desemprego no DF.

Em outubro, o nível de ocupação diminuiu 1,5% e a estimativa do número de ocupados ficou em 1,291 milhão de pessoas — 20 mil a menos do que em setembro. Os indicadores resultam de reduções na indústria de transformação (-12,5%), na construção (-1,3%) e nos serviços (-1,4%). O comércio teve variação positiva (0,4%).

A pesquisa também mostra que o número de assalariados caiu 0,9% em outubro. Isso ocorreu devido ao desempenho negativo nos setores privado (-0,6%) e público (-2,2%). Na iniciativa privada, houve baixa no número de pessoas sem carteira de trabalho assinada (-3%) e permaneceu estável o daquelas com carteira. Também houve queda na quantidade de autônomos (-4,3%) e de empregados domésticos (-6,0%).

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