Alexandre Santos
Especial para o Jornal de Brasília
Com apenas nove dias de vida, a recém-nascida Isys Victoria Soares da Silva corre contra o tempo. Portadora de cardiopatia congênita grave (doença que compromete os batimentos do coração), a bebê está na fila de pacientes que aguardam uma vaga no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF), unidade referência em atendimentos de alta complexidade cardiovascular, como é o caso dela.
Segundo relatório médico do Hospital Regional de Sobradinho (HRS), onde a menina permanece internada desde que nasceu, ela precisa passar por uma cirurgia de urgência, já que o seu quadro, apesar de estável, apresenta risco de morte. A criança respira com o auxílio de aparelhos.
Decisão da 7ª Vara da Fazenda Pública do último dia 22 determinou ao Governo do DF a imediata transferência de Isys para UTI de hospital público, na rede privada, conveniada ou particular com suporte para a realização do procedimento.
Apesar de estipular multa diária de R$ 10 mil a R$ 20 mil, além da responsabilização criminal e prisão em flagrante, o GDF não cumpriu a ordem judicial.
Procurada, a Secretaria de Saúde diz que a paciente já está regulada para o leito do ICDF. Conforme nota da assessoria, enquanto a vaga não estiver disponível, ela receberá cuidados de terapia intensiva no HRS. A pasta não estabeleceu prazo para atender a demanda da recém-nascida. Atualmente, diz, 84 pessoas aguardam na fila da regulação.
Sobre o descumprimento da decisão da 7ª Vara da Fazenda Pública, afirma que todas as ordens judiciais são atendidas, mas que os pleitos relacionados à UTI são tratados de acordo com a prioridade e estado clínico de cada paciente.
“Cada segundo é decisivo. Não temos o que fazer a não ser esperar. Estou so frendo muito ao ver minha filha na incubadora. Tenho pressão alta, mas tenho que ser forte para não abalar ainda mais o emocional de minha esposa”, desabafa o pai da menina, o operador de supermercado Willian da Silva, 27.
Doações para cirurgia
Preocupados com a gravidade do caso, familiares de Isys Victoria pensam criar uma página no Facebook a fim de conseguir doações para bancar a cirurgia da recém-nascida. Segundo Willian da Silva, o pai, o procedimento sairia em torno de R$ R$ 30 mil.
“Primeiro, vamos abrir uma conta-corrente. A tia dela está cuidando disso. Não podemos só esperar por essa vaga ser aberta. Temos que fazer alguma coisa para mudar essa situação. Quem sabe conseguimos o valor necessário para operá-la ou até mesmo sensibilizar algum médico para a situação da minha filha”, afirma o pai.
Apesar da vontade da família, o defensor público Celestino Chupel diz que, no Distrito Federal, não há unidades destinadas a tratar do caso da menina. “Embora ela esteja em um quadro estável, seria muito arriscado fazer uma transferência sem que tenhamos um laudo médico assinado por um cardiologista infantil”, salienta Willian.
Cardiopatia congênita é um defeito na estrutura e função do coração, que pode ser desenvolvida ainda dentro da barriga da mãe até as oito semanas de gestação. Nos bebês, os sinais e sintomas aparecem quando há roxidão na ponta dos dedos ou nos lábios, como ocorreu com Isys, segundo o pai.
“Ela estava meio escura, mas não desconfiamos porque a mãe dela é morena. Pensamos que era a cor normal dela. Mas, depois, vimos que a respiração dela estava fraquinha. Só a partir daí foi detectado esse problema”, diz Willian. “Com fé em Deus, dará tudo certo”, acrescenta o pai.
Ponto de vista
À frente do caso, o defensor público Celestino Chupel diz ter sido informado pela regulação da Secretaria de Saúde do DF que Isys Victoria Soares da Silva é a primeira da fila dos pacientes que aguardam transferência para o Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF). Coordenador do Núcleo de Saúde da DPDF, ele diz que, embora o GDF tenha desobedecido decisão judicial, as multas estipuladas não deverão ser aplicadas em sua integralidade, uma vez que tal descumprimento não se deu de forma voluntária. “O caso é muito específico, pois depende de um único local para atendê-lo. Mas não há vaga”, observa o defensor.