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Brasil

Venha-Ver, no interior do RN, tem menor percentual de pessoas com trabalho no Brasil

Município de Venha-Ver registrou apenas 11,7% da população com algum tipo de trabalho em 2022; seca, falta de atividade econômica e dependência de programas sociais explicam cenário

Redação Jornal de Brasília

14/05/2026 13h23

Foto: Josué Pinheiro/Divulgação Prefeitura de Venha-Ver

Foto: Josué Pinheiro/Divulgação Prefeitura de Venha-Ver

LEONARDO VIECELI
FOLHAPRESS

O município de Venha-Ver, no extremo oeste do Rio Grande do Norte (a 454 km de Natal), tinha o menor percentual do Brasil de pessoas com algum tipo de trabalho em 2022.

À época, de um total de 2.459 habitantes de 14 anos ou mais, 287 estavam ocupados com alguma atividade formal ou informal na cidade, o equivalente a 11,7%.

Na média do país, o mesmo indicador, conhecido como nível de ocupação, era de 53,5%, apontam dados do Censo Demográfico, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Como a pesquisa é relativa a 2022, não capta toda a recuperação do emprego e da renda no Brasil após a pandemia de Covid-19. As estatísticas de trabalho foram publicadas em outubro do ano passado.

CLIMA AFETA ATIVIDADE ECONÔMICA E TRABALHO

Venha-Ver fica na divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba e o Ceará. Por estar em uma região “extremamente seca”, tem menor dinamismo econômico e dificuldade para gerar empregos, segundo o economista William Eufrásio Nunes Pereira, professor da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

É uma realidade comum a outras pequenas cidades do Nordeste, onde o trabalho está bastante associado ao serviço público e à agricultura de subsistência, diz o especialista.

Dos 287 ocupados em Venha-Ver, 148 (mais da metade) eram empregados no setor público em 2022, conforme o Censo.

Outros 73 atuavam como funcionários no setor privado, enquanto 66 exerciam alguma atividade por conta própria, principalmente no ramo que incluía a agricultura e a pecuária.

“Tem pessoas que não procuram emprego porque não há na cidade em que moram. Elas desistem”, afirma William.

Nesses casos, a saída para a sobrevivência pode ser o recebimento de auxílios como o Bolsa Família ou a migração para outra região, aponta o professor.

Dos 2.459 habitantes de 14 anos ou mais em Venha-Ver, 2.043 estavam fora da força de trabalho em 2022, o equivalente a 83,1%. É quase o dobro da média brasileira à época (43,3%).

A população fora da força é formada por quem não é considerado ocupado nem desempregado. Ou seja, esse contingente não trabalha nem está à procura de emprego, segundo as estatísticas oficiais.

Aposentados e quem se sustenta por meio de programas sociais podem estar fora da força, desde que não tenham trabalho nem busquem oportunidades laborais.

Conforme painel de dados do governo federal, Venha-Ver tinha 1.752 pessoas beneficiárias do Bolsa Família em janeiro de 2026.

É um número 15% menor do que o registrado em março de 2023 (2.061), no início do terceiro mandato do presidente Lula (PT), que retomou o programa em substituição ao Auxílio Brasil da gestão Jair Bolsonaro (PL).

“Tem as fontes de transferências do governo, mas não se gera comércio ou indústria, e a agricultura fica à mercê da questão climática”, diz o economista e consultor Robespierre do O’ Procópio Barreto, que trabalha na Prefeitura de Natal.

“A gente está falando de uma região que sofre muito com a falta de chuva”, completa.
O consultor também afirma que a economia potiguar conseguia “se multiplicar” a partir da cadeia produtiva do algodão até meados dos 1980, quando plantações passaram a ser dizimadas pela praga conhecida como bicudo.

Com as perdas no campo, a cultura entrou em crise, e o estado passou a ter dificuldades para encontrar um produto que criasse o mesmo dinamismo no interior, acrescenta ele.

“Alguns vão dizer que tem o petróleo, o turismo, a fruticultura, mas são localizados, sem a mesma dinâmica que o algodão oferecia.”

A Folha procurou a Prefeitura de Venha-Ver para repercutir os dados do Censo -o pedido de entrevista foi formalizado por meio de mensagens de texto, email e telefone. A administração local disse que a demanda seria repassada para o setor responsável, mas não houve retorno.

Conforme o site da prefeitura, Venha-Ver se emancipou a partir de uma lei estadual de 1992, e a instalação oficial do município ocorreu em 1997. Trata-se da cidade potiguar mais longe de Natal, com uma distância de 454 km para a capital, aponta o mesmo portal.

MUNICÍPIO PERDE POPULAÇÃO

Segundo o Censo, a população total de Venha-Ver diminuiu 21,1% na passagem de 2010 (3.821) para 2022 (3.014).

A situação vai na contramão de polos da região, como Pau dos Ferros e Mossoró, que tiveram aumentos de 9,9% e 1,8%, respectivamente. A população nessas duas cidades chegou a cerca de 30,5 mil e 264,6 mil em 2022.

O IBGE diz que os dados sugerem uma emigração (saída) de moradores de Venha-Ver, incluindo a possibilidade de mudança para municípios vizinhos.

O órgão também destacou um processo de envelhecimento na cidade. Em 2010, 9,6% da população tinha 60 anos ou mais, proporção que alcançou 16,9% em 2022.

Para William Eufrásio Nunes Pereira, da UFRN, qualquer projeto que busque aumentar a ocupação em pequenos municípios do semiárido depende de um “treinamento” para a convivência com a seca.
“É preciso ter novas tecnologias que auxiliem essa população a se manter no campo e a se manter sobrevivendo com a agropecuária.”

A criação de “especificidades turísticas”, como festas e outros eventos, também pode beneficiar a geração de emprego e renda, diz o economista.

Dos 10 municípios brasileiros com os menores níveis de ocupação em 2022, 9 ficavam no Nordeste, de acordo com o Censo. A exceção da lista é Uiramutã (RR), com percentual de 16,8%, o nono mais baixo.
O Nordeste, por outro lado, também abrigava o local com o maior nível de ocupação do Brasil. Trata-se do arquipélago de Fernando de Noronha (PE), onde a proporção de ocupados era de 83% em 2022. A economia de Noronha é conhecida pela vocação turística.

Municípios das regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste aparecem na sequência do ranking. São os casos de Vila Maria (RS), Serra Nova Dourada (MT), Nova Serrana (MG) e Irati (SC), que completam a relação dos cinco primeiros. O nível de ocupação nessas cidades ultrapassava 76% em 2022.

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