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Vaquinha do garimpo paga ônibus até Brasília para indígenas apoiarem mineração

A regularização da atividade, hoje ilegal, faz parte das promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

Fernanda Mena e Fabiano Maisonnave
São Paulo, SP e São Gabriel da Cachoeira, AM

Empresários do setor do garimpo das regiões do Alto e do Médio Tapajós, no Pará, financiaram dois ônibus que levaram indígenas munduruku a Brasília para se manifestarem, em pleno Dia do Índio, a favor do PL 191, que pretende legalizar a mineração em terras indígenas.

A regularização da atividade, hoje ilegal, faz parte das promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A invasão de garimpeiros nas terras indígenas da região do Tapajós vem sendo denunciada por associações e conselhos dos povos mundurukus, expondo a escalada de tensão entre indígenas pró-garimpo e contrários a ele dentro da mesma etnia.

Mensagens obtidas pela Folha mostram que empresários do setor do garimpo ilegal na região apoiaram financeiramente a viagem dos manifestantes por meio de uma vaquinha feita para fretar os ônibus que partiram de Jacareacanga, a 1.150 km a sudoeste de Belém (PA), no Alto Tapajós, rumo a Brasília. Nos ônibus viajaram mundurukus pró-garimpo, entre eles idosos, mulheres e crianças.

A ideia dos empresários do setor seria pressionar autoridades pela aprovação do PL 191 e impressioná-las com o apoio de indígenas à exploração de minérios em terras protegidas por lei.

O primeiro nome da lista de 55 doadores é o do empresário Roberto Katsuda, maior revendedor de escavadeiras e retroescavadeiras da região, que teria doado R$ 10 mil para a empreitada. Na manhã do último domingo, cerca de 300 indígenas mundurukus contrários ao garimpo ilegal fizeram uma manifestação na aldeia Missão São Francisco do rio Cururu, no Alto Tajapós (PA). Eles seguravam faixas com frases como “povo munduruku diz não à legalização da mineração em terras indígenas” e “não à aprovação do PL 191”.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o grupo de indígenas que deve chegar a Brasília nesta segunda-feira (19) é uma minoria munduruku aliciada por garimpeiros ilegais. Em nota, o MPF denuncia que “a comitiva não representa o interesse da maioria da etnia Munduruku, e sim apenas o interesse de mineradores ilegais que aliciaram e financiam o grupo minoritário”. O MPF informou que teve acesso a áudios postados em grupo de garimpeiros que revelavam a estratégia dos criminosos de levar os indígenas a Brasília para barrar operações contra a mineração ilegal e pressionar pela aprovação do PL 191.

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Organizações indígenas do Alto e Médio Tapajós também se uniram em torno do movimento Munduruku Ipereg Ayu para denunciar a associação da mesma etnia que se aliou ao garimpo e viajou a Brasília. Em nota, o movimento afirma não autorizar a “associação Pusuru a representar nosso povo em nenhum assunto com o governo federal”. ]

“Essa associação não representa os interesses do nosso povo, representa o interesse de garimpeiros. Repudiamos o projeto de lei-191, PL da morte, que só vai trazer mais destruição para o nosso povo e nossa floresta”, diz a nota, que afirma que caciques e guerreiros mundurukus que lutam contra a atividade predatória mineradora em suas terras estão “todos ameaçados de morte”.

A Terra Indígena Munduruku está localizada na bacia do Tapajós, epicentro da exploração ilegal de ouro na Amazônia. Vários rios e igarapés da região já foram destruídos. A atividade é financiada por garimpeiros não-indígenas, que aliciam mundurukus, gerando conflitos internos.

A tensão entre indígenas aliciados por garimpeiros e aqueles que combatem e denunciam o garimpo ilegal eclodiu no final de março, quando o grupo aliado a empresários vandalizou a sede da Associação das Mulheres Munduruku Wakorun, em Jacareacanga.

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A mineração junto com a pecuária, o plantio extensivo de soja e a atividade madeireira ilegal são os principais responsáveis pelo desmatamento na Amazônia. De acordo com dados divulgados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na Amazônia voltou a bater recordes em março e foi o maior dos últimos seis anos. A destruição da floresta no mês passado teve crescimento de 12,6% em relação ao mesmo período de 2020, ano em que o desmatamento atingiu os níveis mais elevados em 12 anos.

As informações são da FolhaPress






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