Menu
Brasil

Tenente-coronel preso por feminicídio evitou sogros no dia da morte de PM por ‘temer reação’

De acordo com as investigações, Gisele foi alvejada com um tiro na cabeça na manhã do dia 18 de fevereiro

Redação Jornal de Brasília

28/03/2026 12h34

tenente-coronel morte de PM em SP

Foto: Reprodução

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, preso apontado como principal suspeito de atirar e matar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, evitou se encontrar com os pais da vítima no dia em que a PM foi baleada. Em interrogatório feito à Polícia Civil, Neto disse que temia a reação dos sogros, uma vez que, segundo o militar, o pai e a mãe de Gisele já iriam atribuir a ele a morte da filha.

“A orientação das psicólogas e do meu comandante é que os familiares da Gisele estavam vindo para o Hospital das Clínicas e temeríamos a atitude do pai e da mãe dela em relação a mim se nos encontrássemos pessoalmente”, disse Geraldo Neto, ao responder sobre não ter visto Gisele após a notícia da morte da esposa. “Na cabeça deles, eu que teria matado a filha deles”.

De acordo com as investigações, Gisele foi alvejada com um tiro na cabeça na manhã do dia 18 de fevereiro, no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo. Neto alega que ela cometeu suicídio após ele anunciar o desejo de romper o casamento.

Entretanto, a Polícia Civil identificou contradições no depoimento dele e provas periciais que apontam Geraldo como autor do crime. Ele foi indiciado por feminicídio e fraude processual.

Na manhã de 18 de fevereiro, Gisele foi socorrida e levada ainda com vida para o Hospital das Clínicas. No depoimento à polícia, Geraldo conta que foi até a unidade acompanhado de duas psicólogas do Núcleo de Apoio Psicossocial (NAPS). Ele alega que tentou ver a esposa, mas que uma recepcionista o impediu de entrar no centro cirúrgico.

Geraldo relata que voltou ao estacionamento, entrou no carro e aguardou por mais de três horas, das 9h até 12h30. Perto deste horário, ele diz que recebeu de um colega a informação sobre a morte de Gisele – ela morreu 12h04. Na sequência, ele se deslocou para o Comando de Policiamento Metropolitano 1, localizado na Rua Vergueiro.

Lá, ele chegou a ser atendido por um enfermeiro – alegava estar muito abalado e com pressão alta – e ficou deitado em uma sala sob o auxílio das psicólogas. Por volta das 15h, outro militar o teria abordado e dito que ele deveria ir até o 8° Distrito Policial (Belenzinho) para prestar depoimento.

“Daí a gente chegou aqui (8° DP), eu entrei, eu subi a escada, fiquei em alguma sala aqui em cima, para não acontecer de encontrar com os pais da Gisele”, afirmou.

Indagado pelo delegado sobre o motivo de se esquivar do encontro, Neto explicou que as psicólogas que acompanhavam os sogro e próprio militar conversaram entre si e entendido que era melhor evitar o contato. Conforme dito em depoimento, Geraldo Neto descreveu os sogros como “hostis”.

“Parece que os pais dela foram lá (necrotério), e depois eles vieram aqui (delegacia) para serem ouvidos. Daí, para não acontecer de a gente se encontrar (…) eu fiquei aqui em cima e eles ficaram lá embaixo”, disse.

O delegado o questiona de novo: “Então, a sua reação era não encontrar (os pais de Gisele)? (Era) respeitar as orientações das psicólogas ali”? O tenente-coronel responde: “Os pais dela sempre foram muito hostis”.

‘Você foi visitá-la no cemitério’?

No interrogatório, o delegado aponta a Geraldo que o tenente-coronel deixou de ver o corpo da esposa desde o momento do disparo e não foi ao enterro da mulher. “Desde o dia 18 (de fevereiro), você nunca mais viu o corpo dela. Nunca mais. Você já foi visitá-la no cemitério?”. “Não, doutor. Estou desarmado. Eu temo pela minha vida, respondeu o tenente-coronel.

O interrogatório aconteceu em 18 de março, após Neto ser detido depois de ter o seu pedido de prisão expedido pela Justiça.

Entenda o caso

Gisele morreu com um tiro na cabeça na manhã do dia 18 de fevereiro, no apartamento em que ela vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto. Só o casal estava em casa.

O caso foi inicialmente registrado como suicídio, mas foi modificado para morte suspeita após a família da vítima relatar que ela vivia uma relação abusiva, com excesso de controle e ciúmes por parte de Geraldo Neto.

Sesc 24 de Maio é um dos mais populares da rede, que irá inaugurar novas unidades em 2026

Sesc SP celebra 80 anos com abertura de unidades e expansão de atividades; veja lista

A polícia afirma que versão do tenente-coronel não se sustenta e que Gisele foi assassinada pelo marido, ou seja, vítima de feminicídio. A conclusão foi feita com base em uma série de indícios técnicos que a perícia encontrou durante a apuração do caso.

Entre as evidências estão:

– marcas de unha na região do pescoço e do rosto de Gisele;

– manchas de sangue dela no banheiro, na bermuda e na toalha de Geraldo Neto;

– maneira como a arma foi encontrada na mão da vítima;

– modo como o corpo da policial estava disposto no chão indicando uma provável manipulação da cena do crime.

Outro importante elemento analisado pelos investigadores foi a relação do casal. A Polícia Civil extraiu as mensagens trocadas por Geraldo Neto e Gisele e identificou o histórico de constantes brigas, instabilidade. Gisele era submetida a um casamento violento, de muito controle, ameaças e ciúmes.

Para a polícia, esses diálogos desmentiram a versão do tenente-coronel de que ele desejava o divórcio. O interesse pela separação, na verdade, partia de Gisele e era Geraldo quem impunha uma resistência ao término.

Além disso, o próprio comportamento de Geraldo após o episódio também levantou suspeitas: segundo a polícia, ele teria acionado o resgate cerca de 30 minutos após o tiro, apagado mensagens do celular de Gisele e ter insistido para tomar banho depois da esposa ter sido socorrida, o que caracterizou como uma estratégia para eliminar supostas provas, como o sangue da vítima.

A corregedoria da Polícia Militar também abriu uma investigação e tanto a Justiça Militar como a Justiça Comum decretaram a prisão do tenente-coronel. Geraldo Neto foi detido no dia 18 de março e aguarda julgamento.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado